She looked over his shoulder
For vines and olive trees,
Marble well-governed cities
And ships upon untamed seas,
But there on the shining metal
His hands had put instead
An artificial wilderness
And a sky like lead.
A plain without a feature, bare and brown,
No blade of grass, no sign of neighborhood,
Nothing to eat and nowhere to sit down,
Yet, congregated on its blankness, stood
An unintelligible multitude,
A million eyes, a million boots in line,
Without expression, waiting for a sign.
Out of the air a voice without a face
Proved by statistics that some cause was just
In tones as dry and level as the place:
No one was cheered and nothing was discussed;
Column by column in a cloud of dust
They marched away enduring a belief
Whose logic brought them, somewhere else, to grief.
She looked over his shoulder
For ritual pieties,
White flower-garlanded heifers,
Libation and sacrifice,
But there on the shining metal
Where the altar should have been,
She saw by his flickering forge-light
Quite another scene.
Barbed wire enclosed an arbitrary spot
Where bored officials lounged (one cracked a joke)
And sentries sweated for the day was hot:
A crowd of ordinary decent folk
Watched from without and neither moved nor spoke
As three pale figures were led forth and bound
To three posts driven upright in the ground.
The mass and majesty of this world, all
That carries weight and always weighs the same
Lay in the hands of others; they were small
And could not hope for help and no help came:
What their foes like to do was done, their shame
Was all the worst could wish; they lost their pride
And died as men before their bodies died.
She looked over his shoulder
For athletes at their games,
Men and women in a dance
Moving their sweet limbs
Quick, quick, to music,
But there on the shining shield
His hands had set no dancing-floor
But a weed-choked field.
A ragged urchin, aimless and alone,
Loitered about that vacancy; a bird
Flew up to safety from his well-aimed stone:
That girls are raped, that two boys knife a third,
Were axioms to him, who'd never heard
Of any world where promises were kept,
Or one could weep because another wept.
The thin-lipped armorer,
Hephaestos, hobbled away,
Thetis of the shining breasts
Cried out in dismay
At what the god had wrought
To please her son, the strong
Iron-hearted man-slaying Achilles
Who would not live long.
W. H. Auden, The Shield of Achilles, Faber & Faber, 1955.
segunda-feira, 15 de julho de 2013
domingo, 14 de julho de 2013
The rhapsode's voice had the ability to
No vídeo: rapsodo albanês canta, acompanhado de lahuta, o trecho de uma épica. O meu albanês não dá para perceber mais nada.
The rhapsode began to sing in a voice quite unlike his speaking voice. It was an unnatural, cold, unwavering voice full of anguish that seemed to come from another world. It made Bill's spine tingle. He kept on trying to follow the meaning of the words, but the monotonous delivery of the singer made that impossible. It felt as if he was being emptied from the inside, as if his guts were being drawn out of him, as if his inner being was slowly being wound out along a woollen thread turning on a distaff. The rhapsode's voice had the ability to hollow you out. If he went on much longer, everyone was going to dissolve on the spot. But the lahuta stopped on time.
Ismail Kadaré, The File on H, David Bellos (trad. da versão francesa da tradução albanesa de Jusuf Vrioni), Vintage Books, 2006.
sábado, 13 de julho de 2013
13
metal, the ore in the mountain, exists,
darkness in mine shafts, milk not let down
from mother's breasts, an ingrown dread where
whisperings exist, whisperings exist
the cell's oldest, fondest collusion
consider this market, consider this import
and export of fathers, half bullies
half tortured soldiers, consider
their barren last vanishing, metal
to metal, as the amount of unsown maize
grows and the water shortage grows
speak now of mildness, now of the mystery
of salt; speak now of mediation, of mankind, of
courage; tell me that the marble of banks
can be eaten; tell me that the moon is lovely,
that the extinct moa easts green melon,
that merriment exists, is thriving,
that moss animals and mackerel shoals exist, that
means of giving up, of descent, exist, and
physical portioning out, as in poems, of matchless
earthly goods, that pity exists
Inger Christensen, Alphabet, Susanna Nied, 2000
darkness in mine shafts, milk not let down
from mother's breasts, an ingrown dread where
whisperings exist, whisperings exist
the cell's oldest, fondest collusion
consider this market, consider this import
and export of fathers, half bullies
half tortured soldiers, consider
their barren last vanishing, metal
to metal, as the amount of unsown maize
grows and the water shortage grows
speak now of mildness, now of the mystery
of salt; speak now of mediation, of mankind, of
courage; tell me that the marble of banks
can be eaten; tell me that the moon is lovely,
that the extinct moa easts green melon,
that merriment exists, is thriving,
that moss animals and mackerel shoals exist, that
means of giving up, of descent, exist, and
physical portioning out, as in poems, of matchless
earthly goods, that pity exists
Inger Christensen, Alphabet, Susanna Nied, 2000
sexta-feira, 12 de julho de 2013
Racionalização
© Odile Podpovitny
Preparar o jantar. Cortar cogumelos, pimentos, ficar nos dedos com o picante do pimento, levar os dedos à boca, medir a duração dessa impressão onde todo um sentido se colapsa. Este era o sabor. Entre todas estas coisas neste preciso instante fica-se sozinho. Tudo o que no quotidiano é limbo arrasta-se latentemente e manifesta-se à hora do jantar. Não trouxe esta navalha comigo, já cá estava. Alguém antes de mim naufragou aqui. Parece que não posso ter conhecimento disto e ter justificação para caminhar e carregar comigo esta impressão de grande pedra pesada, uma vontade de atirar a cabeça para trás, tocar-te com a língua na testa. E há aqui ruas de pedra, dias de sol, caras conhecidas. Os movimentos sobre o papel como no cinema movimentos desfocados e riscados sobre uma tela. Os movimentos nas ruas desta cidade às vezes como uma esgrima, os dedos tacteiam a massa branca do ar, pelo altura do dorso os postes e vedações pretos, a gata desconhecida, a estreiteza fibrosa deste fio de lã, a malha solta, a aspereza rugosa desse banco de jardim, há nas minhas mãos marcas da relva porque neste bocado de parque me estendo ao comprido e conspiro comigo. Compro o almoço, no bolso trago uma moeda fria que ponho na máquina de café, misturo-lhe água e volto para vir bebê-lo à rua, estendo esta hora até chegar à sombra e gente vai e vem e falam todas as línguas possíveis, línguas que nunca tinha ouvido antes, que não tinha como ter imaginado. Uma menina muito pequena com uns olhos muito escuros, com um cabelo cortado à rapaz, vai pela mão da irmã. Ela é tão incrivelmente pequena, tão incrivelmente frágil. Eu não vou por mão nenhuma, tenho a mão cortada, não a que me dá o pão mas a outra, a que escreve isto. Sem esta mão que perdi não teria como escrever. O meu corpo ao contrário da moeda no bolso do casaco não é uma moeda fria é uma moeda quente, troca-se, esquiva-se, traduz-se noutras coisas, noutros objectos como eu perecíveis, biodegradáveis. Os meus dedos postos dentro de uma sala tacteiam o negrume destas teclas, parei há muito de escrever à mão porque não me podia ler, não podia decifrar a merda de caligrafia que tenho, mas trago sempre comigo quatro ou cinco canetas, um caderno, trago-os mesmo quando sei que não os vou usar, troco-os de mala, enrolo-os completamente, enfio-os pelos bolsos, canetas e cadernos, não me consigo separar destas coisas, são agora o meu amuleto contra mau-olhado como prescrito num aprumo profético de beco cego e sem saída de tia velha, são a minha carta meteorológica, o que posto à altura do peito há-de parar a última bala, que lá há-de ficar presa como na bíblia que o herói na última cena por sorte tinha no bolso quando dispararam sobre ele à queima-roupa. Dentro da mão que martela estas teclas corre sangue, não o de nenhum dos meus antepassados. O meu. E este computador fecha-se como uma concha e fecho-o com palavra-passe como em tempos fechei à chave os meus cadernos, esses que em tempos deitei fora, com que nunca mais me encontrei depois e não encontrarei. Aprendemos cedo que o que nos pertence deve ser protegido. Para depois nos desprotegermos temos de sofrer a vergonha de sermos vistos como imprudentes, anormais, inadaptados. O que me importa proteger que não possa antes preferir dar? Posso proteger só o que em mim é mau para que assim defenda os outros em minha companhia? Ou proteger a maldade que tenho para que me defenda de outros? Há dias em que me olho ao espelho e percebo a minha morte, percebo esse instante na minha cara. Todas estas coisas estão juntas no mesmo enredo, corpo, cadernos, computador, canetas, chave de casa, música na casa do vizinho, cadeado da bicicleta, coisas que chegam por correio, agarro-me a elas como à última tábua mas suspeito que não são a identidade que me resta, apenas esta comunicação a intervalos, o calor possível a tirar das coisas, pus-me sobre a linha de partida e à espera, uma fúria, erínia, há-de encontrar-me na meta, ou mesmo até correr todo o tempo comigo. Ainda não consegui chegar à humildade que me resta. Todas estas coisas estão no mesmo enredo e seria lógico esperar que coladas juntas fizessem sentido. Martelo uma a uma cada palavra até chegar a meio desta frase, arrasto-a mais para o meio, ela pesa como um boi, tamborilo-a com os dedos, o ritmo enrola-se no ouvido, mas ela continua a não fazer sentido aqui. Virei-a para todos os lados. Apertei-a como a um botão, dei-lhe um murro cego, como a um interruptor que pudesse abrir uma porta automática. Era ainda sobre esta cara a que mão adequada adequará a carícia. Espero o que me seja próprio, proporcional, o que me deva caber e por detrás desta expressão não há nada, apenas um cabeçalho erodido onde deviam estar dados de contacto, ou por trás desta expressão há a minha vontade, a minha imensa ternura pelo que me rodeia, pela parte do mundo que me é familiar, aquela a que por invisíveis cabos e cordas e amarras estou ligada como esse barco nesse porto a meio dessa tempestade. Como num núcleo de energia atómica no centro de uma temperatura de milhares de graus escondidos sobre o metal mais frio. Posso e meto por esta rua, pelo ângulo mais agudo desta esquina. Pouso esta caneta. O que no meu corpo é ângulo vai sempre resvalar para aresta, é agulha, fica latente mas traiçoeiramente espera até poder furar até ao osso. Porque pode. O motivo que explica a existência do pulso é ele ser não porque dura e cumpre a função de durar mas primeiro e sobretudo porque é pulso. A alegria da elasticidade do mais eléctrico impulso esta palavra que como uma moeda é pesada sobre a língua, tem o seu corpo e o seu preço. Sobre esse preço calculo quanto pode valer o meu acordo, a minha concórdia para manter esta comunicação. Não o pagarei, tu também não o pagarás. Ele existe só para que saibamos que há entre nós e os outros coisas que valem. Para que possamos pôr nisto um contracto, uma linguagem que traduza um equilíbrio que não podemos definir com exactidão. Começámos por distinguir o que era precioso a partir do que era próximo, do que só tinha um valor abstracto, a partir da distância estabelecemos que quanto mais longe mais caro, porque desconhecido, porque raro. Tu perguntaste-me porquê pena e disseste que eu não tinha justificação, que não sabia explicar porquê e era preciso ter um motivo. A minha única grande razão tem sido sempre pelo motivo da coisa em si. Surpreendo-te com uma cara de rapaz de sacristia, absorto, concentrado, desonesto, suave, a sorrir como um inocente. Era agora que me devias dar o devido valor.
quarta-feira, 10 de julho de 2013
12
life, the air we inhale exists
a lightness in it all, a likeness in it all,
an equation, an open and transferable expression
in it all, and as tree after tree foams up in
early summer, a passion, passion in it all,
as if in the air's play with elm keys falling
like manna there existed a simply sketched design,
simple as happiness having plenty of food
and unhappiness none, simple as longing
having plenty of options and suffering none,
simple as the holy lotus is simple
because it is edible, a design as simple as laughter
sketching your face in the air
Inger Christensen, Alphabet, Susan Nied (trad.), New Directions Paperbook, 2001
a lightness in it all, a likeness in it all,
an equation, an open and transferable expression
in it all, and as tree after tree foams up in
early summer, a passion, passion in it all,
as if in the air's play with elm keys falling
like manna there existed a simply sketched design,
simple as happiness having plenty of food
and unhappiness none, simple as longing
having plenty of options and suffering none,
simple as the holy lotus is simple
because it is edible, a design as simple as laughter
sketching your face in the air
Inger Christensen, Alphabet, Susan Nied (trad.), New Directions Paperbook, 2001
terça-feira, 9 de julho de 2013
segunda-feira, 8 de julho de 2013
Reality is a sound, you have to...
Em Berna há um cemitério ainda bem dentro dos limites da cidade onde a cidade sepultou um destacamento de soldados franceses que morreram a defendê-la durante a primeira guerra. Cada cruz tem gravada uma indicação com o nome e com a data em que morreram. À saída da Bod está há meses um placard a tapar um prédio em construção. Esse prédio vai ser uma extensão da biblioteca central e o placard tem fotografias do que o edifício vai conter, entre elas está o retrato de Wilfred Owen. Estes rapazes, Wilfred Owen, o destacamento francês em Berna, que tiveram facas e baionetas e espingardas levaram uma vida civil antes de tudo isso, interrompida no seu curso por uma erupção doida de loucura homicida. Mas antes de tudo isto foram saloios imberbes lá na terra, apaixonaram-se pela miúda da mercearia, sonharam com as mamas da vizinha da frente, cometeram pequenos roubos, andaram descalços pelos caminhos, eram analfabetos ou estudaram em Oxford e gostavam de escrever poesia, mas nenhum deles viveu para ver os posters da Sarah Bernhardt em versão art-déco.
Durante as últimas semanas tenho andado a ouvir a gravação do Memorial, a adaptação da Ilíada da Alice Oswald. Chama-se Memorial porque a ideia básica é a de que este livro seja uma lista de nomes de soldados da guerra de Tróia (alguns fazem parte do cast da Ilíada outros não) e ela vai narrando através de símiles, de comparações quotidianas (é uma coisa que Homero também faz) o elenco das mortes na Ilíada. De um dos primeiros soldados a tombar ela fala dos quarenta black ships que ele comandava e diz depois qualquer coisa como this was thousands of years ago, now he is under the depth of black earth e a distância no tempo e o escuro criam uma impressão de uma profundidade absoluta. Mas há depois imagens que são interrupções, que abrem outro espaço, que são desapropriadas para aquilo que ela está a narrar, de repente entra em linha de conta todo um mundo doméstico, para uma imagem de um soldado que tomba ela fala às tantas de uma mãe que toda a noite trabalha a fiar o algodão, ela fala das suas poor spider hands (fio, mãos de aranha) e no último verso dessa parte diz she sooths the scales to a standstill, e nós não estamos à espera desta suavidade de algodão, balanças e ponto parado. E há momentos em que ela recua demasiado, demasiado para fora do lugar da acção, isso acontece para falar de Pátroclo, por exemplo, em que ela conta um episódio da infância dele que fica de fora da Ilíada, os versos são qualquer coisa como um som demasiado alto & women came rushing at the door, in a courtyard two children were playing, a quarrel broke, one had killed the other, that was Patroklos, nicknamed “Innocent”, he grew up behind his cousin’s high pitched voice, ou algo assim. A violência gráfica do poema nunca é estética, a relação de Alice Oswald com gregos mortos em combate há milhares de anos não tem nada de estético, ou o que a violência tem de estético acontece acidentalmente, emerge da linguagem, do ritmo e desse todo outro mundo possível que está escondido sobre os símiles que apontam para uma possibilidade de vida quotidiana. Há um ponto em que ela descreve um rapaz e diz dele a big ambitious boy, arrogant farmhand, fresh from the fields. E antes ela fala de all his crazy violence, all his crazy impatience. Iphidamas se a memória não me falha era o nome dele. Ela cria-lhes nestes detalhes toda uma vida antes e depois fecha-os em close-up mas eles pura e simplesmente já não cabem naquele momento, nós sabemos quem eles foram e o que eles foram não é o que eles são no presente narrativo. Isto cria um problema muito estranho do ponto de vista de como nos relacionamos com estas personagens e de como elas configuram a narrativa (porque a acção existe só em função delas, mas a função que elas servem é desaparecer). E no entanto, elas não existem no movimento patético (em queda) que vai de imaginarmos a vida delas antes, ou de sabermos alguma coisa dessas vidas (o soldado que se apaixona por Cassandra – she was Priam’s most beautiful, most neurotic daughter and he had no money so he offered Priam his life in order to marry her, everyone was laughing when he died, only Cassandra did not laugh), e o ponto em que morrem. Elas existem completamente antes e o presente, o tempo de acção que justifica que elas apareceram e que determina o seu curto tempo no espaço da acção, não faz qualquer sentido, é uma forma de amechania. As personagens de Alice Oswald em Memorial não cabem em Memorial. Extravasam por todos os lados com ela a tentar contê-los, há neles toda a vida que ficou sem eles. Como se um plano que ficasse vazio, uma cadeira vazia numa sala em frente a uma parede branca. Como se entre a história deles, a história que os particulariza, e aquele momento, se criasse uma falha que não permite que um momento e outro comuniquem. Esta tensão entre os eixos de tempo na sequência narrativa faz com que o livro só possa emergir como um todo a partir de uma disrupção constante, não é um poema que exista na sequência, existe numa sucessão de interrupções. E no entanto há um efeito estranho de harmonia, uma harmonia intermitente, desproporcional.
Há um verso de Anne Carson em Autobiography of Red em que ela diz “reality is a sound, you have to tune into it, not just keep yelling at it”. Memorial é um livro muito especial, um livro muito único e é provavelmente um dos grandes poemas escritos na Europa nos últimos anos.
Quando Anne Carson escreve “reality is a sound, you have to...” ela ignora a possibilidade de que às vezes, em certos lugares, a única coisa que podemos fazer é continuar a gritar à espera de que a realidade se afine a partir disso.
domingo, 7 de julho de 2013
sexta-feira, 5 de julho de 2013
Meio
Uma palavra pode desdobrar-se, a meio de uma frase atirar-se para um lado e para outro, adquirir um significado duplo, introduzir uma variação que não tínhamos previsto, de que não nos apercebemos de imediato. As leis por que vivemos não são completamente explicáveis, completamente racionais, o primeiro sentido torna-se outro ou é ambíguo. Não falo de leis civis. O corpo como as palavras é um acto de desobediência enquadrado por vectores em desequilíbrio, factos ocasionais, encontros aleatórios. Se houver um centro para o primeiro significado, se no princípio houve um sentido qualquer, como podemos determinar o nosso lugar no epicentro e se é em direcção ao núcleo que importa que nos movamos?
terça-feira, 2 de julho de 2013
segunda-feira, 1 de julho de 2013
Deus do céu
Se existes, envia-nos aqui para Inglaterra mais um dia com 22º. 19º, vá.
Please.
Thank you.
Please.
Thank you.
Wants
Beyond all this, the wish to be alone:
However the sky grows dark with invitation-cards
However we follow the printed directions of sex
However the family is photographed under the flagstaff -
Beyond all this, the wish to be alone.
Beneath it all, desire of oblivion runs:
Despite the artful tensions of the calendar,
The life insurance, the table of fertility rites,
The costly aversion of the eyes from death -
Beneath it all, desire of oblivion runs.
Philip Larkin, The Less Deceived, Faber & Faber, 1955.
However the sky grows dark with invitation-cards
However we follow the printed directions of sex
However the family is photographed under the flagstaff -
Beyond all this, the wish to be alone.
Beneath it all, desire of oblivion runs:
Despite the artful tensions of the calendar,
The life insurance, the table of fertility rites,
The costly aversion of the eyes from death -
Beneath it all, desire of oblivion runs.
Philip Larkin, The Less Deceived, Faber & Faber, 1955.
domingo, 30 de junho de 2013
Notas contra notas diárias
Às vezes penso que nunca há-de ser mais do que estas notas aceleradas, desconexas. Post-its que talvez venham a compor a minha cara, se coleccionados todos, pacientemente. Mas só à superfície é que me posso dar ao luxo de coleccionar coisas. Na verdade, talvez venha a ficar comigo mais tempo o adaptador de corrente que comprei no aeroporto em Lisboa e que deixou de funcionar (e agora está na estante ao pé da plaquinha que o vizinho me trouxe de Lloret de Mar, thanx Horatio) do que tudo aquilo que escrevo como notas diárias. A ideia de que um rasto de palavras serve para ser conservado ou para conservar é um pensamento para mim abjecto, quase irrespirável. Tudo sobre este texto é afinal sobre ser livre, sobre não guardar, esse é o único diário que funciona, porque não é diacrónico e é disfuncional (como de resto as coisas que nele se tenta sem sorte registar, mas uma vez perdendo as pretensões à organização percebe-se que a coisa é mais fácil de manter). Ao contrário daquelas primeiras páginas de um diário que mantive quando aqui cheguei e que depois de as ter rasgado fui espalhando durante dias por diferentes caixotes de lixo por toda a cidade. Naquelas páginas não havia nada de secreto, nada que valesse a pena ser reencontrado (estava na verdade a tentar não pensar) e nem era isso o que me levou a destruí-lo, mas antes duas coisas, uma da ordem daquela história que se conta sobre Simónides, que no meio de um naufrágio, toda a gente para cá a e para lá, os marinheiros, os passageiros, desesperados a tentarem salvar os seus pertencentes e Simónides parado ao pé do mastro, então Simónides, não te mexes, e ele: que tudo o que lhe pertencia estava com ele, estava nele, aquilo que confio por hábito ao papel pertence primeiro à minha memória, à grande pressão dos meus pensamentos, de certa forma passa muito tempo comigo, mas sei que estas coisas se perdem, há dias de que não me recordo, dias que não me dizem nada, mas escrever força o padrão a aparecer, força a escavar, torna-se uma maneira de viver (não uma lente sobre que ver a vida). Nesse sentido suspeito que só falsamente sou um escritor, ou de outro modo, que só o sou daquela maneira em que o são aquele tipo de poetas que estão primeiro comprometidos com o que podem guardar em si para mais tarde dizer, porque o carregaram tanto tempo que já não se podem livrar disso ou porque sabem que é uma coisa com um instante só e é só aquele e por isso é preciso escrevê-lo. Escrever é uma maneira de ser, não há uma distinção entre as duas coisas, e o ser pertence também à fala, cujo primeiro motivo seja talvez conversa, pertence ao que dizemos aos outros (uma parte de nós é sempre interpretação, o território alheio, um espaço que depois para nós é inconsciente, um espaço onde existimos não existindo para nós próprios, mas sendo o que somos no ponto de vista de um outro, tudo o que somos) e pertence ao nosso discurso interior, a essa torrente em que nos fechamos, em que pensamos ser nós próprios e às vezes até mesmo estar a salvo (impertinência tolinha). Mas escrever não é criar o outro (talvez só uma maneira de lá chegar e até existem outras, igualmente interessantes) e não há para mim uma distinção propriamente entre escrever e falar, entre escrever e gritar ou murmurar, ou se há é artificial, a força do que temos de dizer não depende da forma escrita ou falada. E a mim convém-me uma ideia de sopro (que o haja no que escrevo enquanto o pio não for cortado), essa ideia de que as palavras são em primeiro lugar coisas orgânicas, vivas, com uma vida que nos escapa (é também por isso que não posso aceitar que haja nos aedos gregos qualquer coisa de subdesenvolvido, de primitivo, só porque deles sabemos pouco, porque nunca escreveram nada, o meu ofício de escritor não é o que a minha mão escreve, é o meu ofício, tudo o que sou mesmo para lá do acto de escrever, mesmo que para aí convirja, que seja essa a sua expressão, mas o escritor que sou é o que é sempre e não só o que se senta para escrever, tem estado comigo constantemente, todos estes anos, é uma coisa mais fluida e mais orgânica do que um hábito, tudo o que faço e tudo o que sou converge para esse acto, mas esse acto é expressão, é menos mecânico do que só a mão que assina o papel, a mão que assina o papel não chega, é preciso o corpo todo e mesmo às vezes o corpo todo não chega).
O outro motivo porque me agrada a ideia de destruir notas diárias não tem nada que ver com uma ideia de apagar o tempo, de recomeçar outra vez, não é uma coisa de Penélope. Antes a ideia – ou assim gosto de pensar, que há nisto alguma razão e ela é ética, mas desconfio que pode muito bem não haver nenhuma – de que não devemos ser avaros com as coisas que vivemos, que quando o barco se afundar (e afunda-se sempre, eu vivo com esta impressão de tragédia eminente, desastre a intervalos, falhanço sempre em potência, decepção constante) só assim saberemos o que verdadeiramente carregámos todo o tempo connosco, quais os restos e que restos de dia ao certo, quem está neste filme. E tudo isto acaba por encontrar, por criar a sua maneira de chegar ao texto, ao instante do texto, mas em alguns textos mais do que noutros e isto é uma observação verdadeira. E se não há grande maneira de distinguir o afogado que vai ao fundo distraído e ocupado a reunir os seus pertences e o que vai a direito sem nada nos bolsos, pois que o resultado é sempre o mesmo, a verdade (dura e cruel para dar azo e uso a um gosto por adjectivação perfeitamente inútil, a verdade não é outra coisa, enquanto mentir é o que quisermos) é que o resultado é sempre o mesmo de qualquer maneira. A diferença vive nestes detalhes, nestas singularidades. E esse momento, podemos projectá-lo, existe, em que vemos as coisas mais agudamente, mais claramente, e são parcas e claras e talvez nos tenham acompanhado o tempo todo. Não manter um diário durante a maior parte do tempo, uma decisão para mim irregular, notas diárias, é a minha maneira de reduzir o ruído, como a criança que se senta à janela e tem o rádio no máximo e roda o botão à espera de ouvir minimamente, desconsiderado, incontrolável por baixo, o chilrear do pássaro, essa coisa desajeitada que a esforço atravessou os lugares e o inverno e enganou predadores para alardear um qualquer trinado mais ou menos vulgar, batido e repetido por outros, e monótono. Mas o que esse pássaro tem é o que ele é e está com ele e trabalhou nele até ao ponto do canto, o resto é pouco mais que contingente. E no entanto, isto não são coisas de concisão, estas coisas que trazemos connosco e que notas diárias apenas tornam mais evidentemente e pela mecânica de uma prática retórica talvez redundante. Não são coisas que estejam bem. Há nestas coisas uma quase fúria, uma espécie de potência que em dois ou três traços ténues chegam para ser o alicerce do que sou. Esses são também lugares magoados que sabemos que temos de proteger, mesmo contra a tentação de spend the facts of our lives like small change on strangers. Se nada ficar escrito quais sãos os factos da nossa vida (talvez seja também para isso que hajam os arquivos, os registos civis, as contabilidades de impostos, os ficheiros clínicos dos hospitais)? Não manter um diário porque também não sei se existem tais coisas como os factos da nossa vida. Ou manter um diário em que tudo seja mentira. Há traços estáveis, uma identidade, o lugar de onde viemos, para onde vamos, que trabalho temos, mas todas essas coisas continuam a avançar no tempo connosco, detioram-se, recompõem-se, trabalham connosco, contra nós, contra a nossa vontade, abandonam-nos, dão-nos uma alegria exultante e são a cara da nossa decepção, do mais amargo, um medo de falhar, uma inveja triste. Coleccioná-las é um inventário para descer. Expõe-nos à tentação, já em si natural, de somar e subtrair, de contar, de achar que podemos terminar numa ponta e acabar na outra. É possível, mas isso é chato como o raio. Electra acontece só naquela moldura de tempo, emerge só em meia dúzia de lugares em umas quantas frases, de resto pouco sabemos dela, exceptuando que adivinhamos que há também para ela a vida quotidiana, os lugares comuns, o prazer de café bebido em copos de papel, comer cerelac ao almoço se sozinha em casa, beber whisky da garrafa da mãe quando esta não estava, ou a cobiça pelo vestido azul na montra da rua principal. E todas estas coisas interessam, e é também desta maneira que me encontro contigo ou que me preparo para o que amo, para o que tenho a perder, na contingência. Escrever deve trazer afinal isso ao de cima, tudo o que escrevemos antes disso ajuda mas pode arder, é o ofício triste do retórico, ainda que conceda que para outros isto funcione, mas este texto na memória, esta música nas suas variações é da ordem dos textos não que se leem mas que acontecem, é aí que o diário se torna organicamente a memória e não já só o diário (v. Pavese) por isso é possível que as notas diárias sejam precisas, mas posso esbanjá-las porque não me pertencem, porque não me interessa forçá-las sobre os outros, ou talvez por isso me pertençam demasiado mas posso deixá-las ir porque por as ter escrito sei o que nelas há de constante e posso dá-las, destruí-las, afastá-las que não as posso perder.
Sei que há por baixo disto e no fundo mais escuro a rapariga com o farol da bicicleta partido os cortes nos joelhos a que aprendeu a crueldade que há nos outros e agora pode proteger-se, também a que sabe que não é sempre assim e pode virar a palma da mão aberta, que teme que lhe descubram os cadernos, que prefere deixar tudo acontecer até que tudo o que me é exterior me aconteça e essas são coisas poucas, é isso que as notas de cada dia preparam. Escrever não era sobre erguer um muro é ainda sobre o melhor método para o destruir. Calculando o peso disto Celan escreveu Was du aus Leichtem wobst/ trag ich dem Stein zu Ehren [Aquilo que tu teceste a partir de uma coisa leve/ eu uso em honra da pedra].
sábado, 29 de junho de 2013
edições bilingues, «este convite ao estrabismo mental»
partilha dedicada ao JP
É nisto que a edição bilingue, uma vez que me pedem para terminar com um ponto de vista sobre esta questão, me parece bastante contraditória com a própria existência da tradução. Nós temos dois olhos mas um olhar só. Que ele se fixe no erro ou naquilo que julgamos ser a verdade, este olhar organiza-se em torno de um relevo único que é preciso corrigir se a diferença entre as duas imagens retinianas se revela excessivo. Mesmo que conhecêssemos todas as línguas, no momento de ler, servir-nos-íamos de uma só — como vetor, para ser sucinto, do pensamento mental involuntário ou do sonho.
Porquê então este convite ao estrabismo mental, se a pluralidade de sentidos não pode manifestar-se senão do interior de um mesmo texto? A pretexto da confrontação, a publicação de uma versão-mãe em frente da outra surge antes como uma degeneração acusadora do corte entre as línguas, uma consolação simbólica da perda da autoridade, e uma compensação afinal facultativa, já que um leitor que não conhece a língua passe bem sem o original, e o que a conhece passa bem sem a tradução.
Dominique Grandmont. A Viagem de Traduzir. João Domingues & Maria de Jesus Cabral (trad). Edições Pedagogo (2013).
sexta-feira, 28 de junho de 2013
Deceptions
'Of course I was drugged, and so heavily I did not regain consciousness until the next morning. I was horrified to discover that I had been ruined, and for some days I was inconsolable, and cried like a child to be killed or sent back to my aunt.'
-Mayhew, London Labour and the London Poor
Even so distant, I can taste the grief,
Bitter and sharp with stalks, he made you gulp.
The sun's occasional print, the brisk brief
Worry of wheels along the street outside
Where bridal London bows the other way,
And light, unanswerable and tall and wide,
Forbids the scar to heal, and drives
Shame out of hiding. All the unhurried day,
Your mind lay open like a drawer of knives.
Slums, years, have buried you. I would not dare
Console you if I could. What can be said,
Except that suffering is exact, but where
Desire takes charge, readings will grow erratic?
For you would hardly care
That you were less deceived, out on that bed,
Than he was, stumbling up the breathless stair
To burst into fulfillment's desolate attic.
Philip Larkin, The Less Deceived, Faber & Faber, 1955 (1st edn.).
quinta-feira, 27 de junho de 2013
Best of
Pus a sacar um best of do Donovan, o Bob Dylan inglês, depois de ver um vídeo do Bob Dylan sentadinho ao lado do Donovan, e o Donovan a roer as unhas e a chupar um cigarro com um ar de foda-se-já-alguém-me-tirava-este-gajo-da-frente. A única música que conheço do Donovan é o Hurdy Gurdy Man, usada na banda sonora do Zodiac e que me lembra inevitavelmente do Marc Ruffalo a fazer de Bullit e de serial killers em San Francisco. Serial killers e música peace and love é uma combinação estranha, e daí talvez não.
Ontem à noite ainda estive a ler Almudena Guzmán. Ela publicou o primeiro livro com 17 anos. Não é um livro mau e a poeta que ela veio a ser já para ali andava em embrião, parece-me. Estar a ler Almudena Guzmán lembrou-me de uma das tardes em que fui a Cambridge ouvir o West e, à espera do autocarro de volta, estava a ler um poema do García Montero sobre uma montra de uma loja de móveis. Nesse poema ele fala de como todas as lojas de móveis contêm milhares de casas em potência, fala sobre comprar coisas a prestações, sobre a alegria de construir coisas em conjunto, uma felicidade classe média e suburbana. Não me lembro do resto do poema mas lembro-me que não acabava bem. Quando levantei os olhos em Parkside 16 e ainda antes de chegar o X5 vi que à minha frente havia um Family Law Practician. De repente há uma continuidade qualquer, completamente aleatória, completamente acidental, entre o que estamos a fazer e o que nos rodeia. Há qualquer coisa de agradável e obsceno nisto.
O poder mais misterioso que possuímos é o de criar um sentido, uma continuidade, uma ligação entre o que connosco está em trânsito e os lugares do nosso trânsito. Calada não tenho uma nacionalidade, não tenho uma língua, a ler não sou a mulher que escapou da linha de sentido anterior que corre entre a realidade e o que só existe dentro da minha cabeça. Essa linha de sentido anterior, interior, e a realidade contra, a soma dessas duas coisas, isso, é o que eu sou. É por isso que somos misteriosos, que há em nós qualquer coisa de inexplicável, de indizível, de perigoso, porque existimos mais violentamente nesse ponto inarticulado que está entre o que sabemos que somos e a realidade, a maneira como acontecemos, como somos afectados e afectamos o que nos rodeia e essas duas coisas se moldam, não existem uma sem a outra.
Jogadores de cricket, os prédios castanhos ao alto, qualquer coisa de decadentemente estival, de estância balnear nestas cidades de estudantes que fecham para o verão. E desaparecer no meio das pessoas. Ressurgir três horas mais tarde numa cidade mais adiante com uma impressão de avião a despenhar-se, é só o autocarro a entrar na cidade, a estranheza de uma cidade que chega no meio da noite. Um regresso resguardado, clandestino, de rapariga que continuamente puxa a saia para baixo do joelho, sabendo que ao andar ela vai tornar a subir e que bocado te tiram se te virem as pernas, nenhum. Que estas são as coisas que possuo, este corpo e esta meia dúzia de gestos, de restos de cigarros e papéis nos bolsos, estes lugares, inscrições em tabuinhas. Lugares nefastos, fome, cansaço, unhas que crescem e se partem, saltos altos que se partem num passo em falso, uma pressa resoluta de chegar. Há-de haver uma altura em que terei de olhar para trás e para a frente e articular todas estas coisas, fazer delas sentido, como instrumentos velhos descobertos em escavações arqueológicas podem vir a fazer música muitos séculos depois e imagens em vasos estilhaçados em cacos podem ser restauradas, reunidas, muito tempo depois de separadas. Só que nós não sabemos o quanto temos de aldrabar o padrão para dele tirar música.
Jogadores de cricket, os prédios castanhos ao alto, qualquer coisa de decadentemente estival, de estância balnear nestas cidades de estudantes que fecham para o verão. E desaparecer no meio das pessoas. Ressurgir três horas mais tarde numa cidade mais adiante com uma impressão de avião a despenhar-se, é só o autocarro a entrar na cidade, a estranheza de uma cidade que chega no meio da noite. Um regresso resguardado, clandestino, de rapariga que continuamente puxa a saia para baixo do joelho, sabendo que ao andar ela vai tornar a subir e que bocado te tiram se te virem as pernas, nenhum. Que estas são as coisas que possuo, este corpo e esta meia dúzia de gestos, de restos de cigarros e papéis nos bolsos, estes lugares, inscrições em tabuinhas. Lugares nefastos, fome, cansaço, unhas que crescem e se partem, saltos altos que se partem num passo em falso, uma pressa resoluta de chegar. Há-de haver uma altura em que terei de olhar para trás e para a frente e articular todas estas coisas, fazer delas sentido, como instrumentos velhos descobertos em escavações arqueológicas podem vir a fazer música muitos séculos depois e imagens em vasos estilhaçados em cacos podem ser restauradas, reunidas, muito tempo depois de separadas. Só que nós não sabemos o quanto temos de aldrabar o padrão para dele tirar música.
Um dia estás deitado na tua cama, estás a caminho dos trinta e vês-te com sessenta e pensas que daí a trinta hás-de estar morto e a maior parte das coisas que te parecem agora importantes são reconduzidas a outra escala. E sabes de quantas coisas precisas de abdicar para seres capaz de sobreviver a ti próprio, quanto é preciso escavar para preservar o núcleo intacto. Começas a contar isto e aquilo e também aquilo, nada disto importa. E o pulso começa a acelerar, há para aí um histérico aí bem dentro que diz Mas que caralho, que núcleo intacto, eu sei que não quero deixar ir de nada, tudo o que é meu de viver sobre perceber quanto espaço há e quanto tempo e mais para debaixo ainda do amplexo curto dos braços, de toda a merda que diariamente escavo como um escravo e às vezes senhor destas coisas, destes poderes curtos, curtos em toda a parte para onde me vire e para onde olhe e belos porque destruição como eu. Porque haveria eu de ceder, não é ceder, é deitar fora (conceder é outra coisa) um palmo que fosse do que quero viver. E assim a suar, com um sabor de chumbo na boca, levantar-me com os olhos dilatados, tentar chegar ao fundo disto e não me parece organizado.
É que nunca me demonstraram com aguda contundência, o sentido que possa haver em cortar razoavelmente no que tenho para viver no que quero viver para quem e para quê ao certo?, e não estou a falar de um trabalho, de lojas de móveis, do que temos de fazer para sobreviver, estou a falar de estar vivo ao certo, desta meia dúzia de poemas, de atravessar de uma cidade à outra com uma moeda na boca, a corda deposta ao pescoço, a chave do cadeado num bolso, da música com os headphones grandes, do que ainda trazes para me contar, este e aquele poema, varandas debaixo do calor em Granada, o próximo livro, o acelerar do passo, já que começaste agora
É que nunca me demonstraram com aguda contundência, o sentido que possa haver em cortar razoavelmente no que tenho para viver no que quero viver para quem e para quê ao certo?, e não estou a falar de um trabalho, de lojas de móveis, do que temos de fazer para sobreviver, estou a falar de estar vivo ao certo, desta meia dúzia de poemas, de atravessar de uma cidade à outra com uma moeda na boca, a corda deposta ao pescoço, a chave do cadeado num bolso, da música com os headphones grandes, do que ainda trazes para me contar, este e aquele poema, varandas debaixo do calor em Granada, o próximo livro, o acelerar do passo, já que começaste agora
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