sexta-feira, 28 de junho de 2013

Deceptions

'Of course I was drugged, and so heavily I did not regain consciousness until the next morning. I was horrified to discover that I had been ruined, and for some days I was inconsolable, and cried like a child to be killed or sent back to my aunt.'
-Mayhew, London Labour and the London Poor

Even so distant, I can taste the grief,
Bitter and sharp with stalks, he made you gulp.
The sun's occasional print, the brisk brief
Worry of wheels along the street outside
Where bridal London bows the other way,
And light, unanswerable and tall and wide,
Forbids the scar to heal, and drives
Shame out of hiding. All the unhurried day,
Your mind lay open like a drawer of knives.

Slums, years, have buried you. I would not dare
Console you if I could. What can be said,
Except that suffering is exact, but where
Desire takes charge, readings will grow erratic?
For you would hardly care
That you were less deceived, out on that bed,
Than he was, stumbling up the breathless stair
To burst into fulfillment's desolate attic.

Philip Larkin, The Less Deceived, Faber & Faber, 1955 (1st edn.).

quinta-feira, 27 de junho de 2013

Best of



Pus a sacar um best of do Donovan, o Bob Dylan inglês, depois de ver um vídeo do Bob Dylan sentadinho ao lado do Donovan, e o Donovan a roer as unhas e a chupar um cigarro com um ar de foda-se-já-alguém-me-tirava-este-gajo-da-frente. A única música que conheço do Donovan é o Hurdy Gurdy Man, usada na banda sonora do Zodiac e que me lembra inevitavelmente do Marc Ruffalo a fazer de Bullit e de serial killers em San Francisco. Serial killers e música peace and love é uma combinação estranha, e daí talvez não.
Ontem à noite ainda estive a ler Almudena Guzmán. Ela publicou o primeiro livro com 17 anos. Não é um livro mau e a poeta que ela veio a ser já para ali andava em embrião, parece-me. Estar a ler Almudena Guzmán lembrou-me de uma das tardes em que fui a Cambridge ouvir o West e, à espera do autocarro de volta, estava a ler um poema do García Montero sobre uma montra de uma loja de móveis. Nesse poema ele fala de como todas as lojas de móveis contêm milhares de casas em potência, fala sobre comprar coisas a prestações, sobre a alegria de construir coisas em conjunto, uma felicidade classe média e suburbana. Não me lembro do resto do poema mas lembro-me que não acabava bem. Quando levantei os olhos em Parkside 16 e ainda antes de chegar o X5 vi que à minha frente havia um Family Law Practician. De repente há uma continuidade qualquer, completamente aleatória, completamente acidental, entre o que estamos a fazer e o que nos rodeia. Há qualquer coisa de agradável e obsceno nisto.
O poder mais misterioso que possuímos é o de criar um sentido, uma continuidade, uma ligação entre o que connosco está em trânsito e os lugares do nosso trânsito. Calada não tenho uma nacionalidade, não tenho uma língua, a ler não sou a mulher que escapou da linha de sentido anterior que corre entre a realidade e o que só existe dentro da minha cabeça. Essa linha de sentido anterior, interior, e a realidade contra, a soma dessas duas coisas, isso, é o que eu sou. É por isso que somos misteriosos, que há em nós qualquer coisa de inexplicável, de indizível, de perigoso, porque existimos mais violentamente nesse ponto inarticulado que está entre o que sabemos que somos e a realidade, a maneira como acontecemos, como somos afectados e afectamos o que nos rodeia e essas duas coisas se moldam, não existem uma sem a outra.
Jogadores de cricket, os prédios castanhos ao alto, qualquer coisa de decadentemente estival, de estância balnear nestas cidades de estudantes que fecham para o verão. E desaparecer no meio das pessoas. Ressurgir três horas mais tarde numa cidade mais adiante com uma impressão de avião a despenhar-se, é só o autocarro a entrar na cidade, a estranheza de uma cidade que chega no meio da noite. Um regresso resguardado, clandestino, de rapariga que continuamente puxa a saia para baixo do joelho, sabendo que ao andar ela vai tornar a subir e que bocado te tiram se te virem as pernas, nenhum. Que estas são as coisas que possuo, este corpo e esta meia dúzia de gestos, de restos de cigarros e papéis nos bolsos, estes lugares, inscrições em tabuinhas. Lugares nefastos, fome, cansaço, unhas que crescem e se partem, saltos altos que se partem num passo em falso, uma pressa resoluta de chegar. Há-de haver uma altura em que terei de olhar para trás e para a frente e articular todas estas coisas, fazer delas sentido, como instrumentos velhos descobertos em escavações arqueológicas podem vir a fazer música muitos séculos depois e imagens em vasos estilhaçados em cacos podem ser restauradas, reunidas, muito tempo depois de separadas. Só que nós não sabemos o quanto temos de aldrabar o padrão para dele tirar música.
Um dia estás deitado na tua cama, estás a caminho dos trinta e vês-te com sessenta e pensas que daí a trinta hás-de estar morto e a maior parte das coisas que te parecem agora importantes são reconduzidas a outra escala. E sabes de quantas coisas precisas de abdicar para seres capaz de sobreviver a ti próprio, quanto é preciso escavar para preservar o núcleo intacto. Começas a contar isto e aquilo e também aquilo, nada disto importa. E o pulso começa a acelerar, há para aí um histérico aí bem dentro que diz Mas que caralho, que núcleo intacto, eu sei que não quero deixar ir de nada, tudo o que é meu de viver sobre perceber quanto espaço há e quanto tempo e mais para debaixo ainda do amplexo curto dos braços, de toda a merda que diariamente escavo como um escravo e às vezes senhor destas coisas, destes poderes curtos, curtos em toda a parte para onde me vire e para onde olhe e belos porque destruição como eu. Porque haveria eu de ceder, não é ceder, é deitar fora (conceder é outra coisa) um palmo que fosse do que quero viver. E assim a suar, com um sabor de chumbo na boca, levantar-me com os olhos dilatados, tentar chegar ao fundo disto e não me parece organizado.
É que nunca me demonstraram com aguda contundência, o sentido que possa haver em cortar razoavelmente no que tenho para viver no que quero viver para quem e para quê ao certo?, e não estou a falar de um trabalho, de lojas de móveis, do que temos de fazer para sobreviver, estou a falar de estar vivo ao certo, desta meia dúzia de poemas, de atravessar de uma cidade à outra com uma moeda na boca, a corda deposta ao pescoço, a chave do cadeado num bolso, da música com os headphones grandes, do que ainda trazes para me contar, este e aquele poema, varandas debaixo do calor em Granada, o próximo livro, o acelerar do passo, já que começaste agora
continua por favor
para a frente é que é Lis

Nem que seja o boi


quarta-feira, 26 de junho de 2013

súbito

até cada objecto se encher de luz e ser apanhado
por todos os lados hábeis, e ser ímpar,
ser escolhido,
e lampejando do ar à volta,
na ordem do mundo aquela fracção real dos dedos juntos
como para escrever cada palavra:
pegar ao alto numa coisa em estado de milagre: seja:
um copo de água,
tudo pronto para que a luz estremeça:
o terror da beleza, isso, o terror da beleza delicadíssima
tão súbito e implacável na vida administrativa

Herberto Helder, Servidões, Assírio & Alvim, 2013

segunda-feira, 24 de junho de 2013

não é um

a noite que no corpo eu tanto trouxe, setembro, o estio,
pálpebras seladas, unhas, e o sangue por baixo e em cima a faca
com que se talha a mão e a frase um pouco longa sangra,
e consta que no verso e reverso da língua se está mais vivo,
assim o súbito nos abra,
nos puxe, digo eu, ao sorvedouros do sono,
e seus estados e obras,
eu que sou isento, digo, que me devore um buraco ou fora ou dentro,
ou galáctico, ou uma pontada no coração tão de repente,
se alguém se vai embora não sei de onde para onde,
se se murmura: que toda a gente morre de si: ou agora ou
um pouco mais tarde, o que está certo
como qualquer mistério:
água quebrando os dedos até às pontas quando se escreve
de uma ponta à outra sobre as riscas do papel cantante,
mais coisa menos coisa, pequena coisa, ou: riacho frio, sorve-o a areia
e acaba ali, como esta curta ária aqui tão perto do comêço
de seu esperançoso esperanto tanto quanto
já sabe alguém que aqui se capitula,
e abre este capítulo:
que tudo acaba: canção, talento, alento, papel, esfereográfica,
alguma coisa movida a estrangeiro longíquo,
coisa fora do sistema, e mete medo,
e não é a beleza,
não é um rosto que estremeça junto ao nosso rosto,
e o pretexto é sempre este:
orvalho

Herberto Helder, Servidões, Assírio & Alvim, 2013

Uma amiga mo traficou para terras de, muito muito obrigada obrigada.

terça-feira, 18 de junho de 2013

Diante das vinhas

Diante  das vinhas abrasadas pelo inverno, penso no medo e na luz (uma única substância dentro dos meus olhos),

penso na chuva e nas distâncias atravessadas pela ira.

Antonio Gamoneda, Oração Fria, João Moita (sel., trad. e posf.), Assírio & Alvim, 2013.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

«Dekalog V» de Krysztof Kieslowski, 1990


Fileiras de prisioneiros

Sucediam-se fileiras de prisioneiros; homens carregados de silêncio e cobertores. Daquele lado do Bernesga eram contemplados com amizade e medo. Uma mulher, cansada e bela, abeirava-se com uma cestinha de laranjas, a última laranja queimava-lhe as mãos: sempre havia mais presos que laranjas.

Passavam debaixo das minhas varandas e eu baixava-me até aos ferros cujo frio não cessará no meu rosto. Em compridas fileiras eram levados às pontes e eles sentiam a humidade do rio antes de entrar na treva de San Marcos, nos tristes depósitos da minha cidade envergonhada.

Antonio GamonedaOração Fria, João Moita (sel., trad. e posf.), Assírio & Alvim, 2013.

sexta-feira, 14 de junho de 2013

De «Note on method»

So writing involves some dashing back and forth between the darkening landscape where facticity is strewn and a windowless room cleared of everything. I do not know. It is the clearing that takes time. It is the clearing that is a mistery. 
Once cleared the room writes itself. I copy the names of everything left in it and note their activity. 
How does the clearing occur? Lukács says it begins with my intent to exercise everything that is not accessible to the immediate experience (Erlebbarkeit) of the self. Were this possible, it would seal the room on its own boundaries like a cosmos. Lukács is prescribing a room for aesthetic work; it would be a gesture of false consciousness to say academic writing can take place there. And yet, you know as well as I, thought finds itself in its room in its best moments -

locked inside its own pressures, fishing of facts of the landscape from notes or memory as well as it may - vibrating (as Mallarmé would say) with their disappearance.

Anne Carson, Economy of the Unlost, Princeton Paperbacks, 1999.

terça-feira, 11 de junho de 2013

fragmentos do Livro de Samuel

§
Sentia tudo aquilo com a língua, a língua era de súbito um sentido suplementar que aglutinava todos os restantes, os quais se retraíam para dar lugar exclusivamente àquele, com o qual as coisas em redor faziam corpo, como se também elas próprias fossem um sentido, e ele respirasse através do mar, das rochas, e as visse através umas das outras, entre si, na perspectiva de cada uma, e a sua sensorialidade assim se exacerbasse, via o mar visto pelas rochas, do pétreo ponto de vista das rochas, e as rochas como se fosse o mar, do ponto de vista líquido do mar. E não só via, mas ouvia e saboreava, e não só o mar e as rochas, mas todos os objectos em redor, as árvores, as casas, o farol, tudo isso absorvido pela língua, onde o sentido da paisagem como que ia e vinha dentro dela, à semelhança das marés, acompanhado nesse vaivém por um acréscimo de intensidade, uma luz que do interior de cada um dos objectos de súbito emanava e iluminava todos os restantes como a do farol, a que o farol lhe ia extrair ao fundo da memória para aluminar cada um dos seus gestos, e Samuel, sentindo o mar apunhalado, a ferida que nele a roda abria, caminhava ao longo das paredes, paredes únicas, ali, paredes cuja singularidade extravasava como tinta que delas ressumasse, ou água, água onde os próprios barcos se tivessem afundado, água de incêndio.

§
A língua era excitada pelo que ouvia, a língua ouvia, dessacralizava velozmente o que a excitava, fazia de janela, uma janela, a daquele quarto onde ele agora residia. A língua desligava-os e voltava-os a ligar, como que as recozia, sentia-se-lhes o sabor a ascender no paladar, um sabor quase visão, que lhe ascendia aos olhos, à chama que lhes corre ao rés do espírito.


Luís Miguel Nava. O Livro de Samuel (fragmentos). in relâmpago nº16 4|2005.

nos mercados abandonados

A minha amizade está sobre ti como uma mãe sobre o filho que sonha com facas.

Não te porei outra venda a não ser aquela que foi desfiada em redor do meu corpo, não te derramarei outro óleo a não ser aquele que descansa dentro dos meus olhos.

Certamente o silêncio é uma história horrível mas há um vigor que sucede ao desespero.

Recorda-te da paz nos mercados abandonados, recorda-te da doçura nos quartos onde o esquecimento se corrompia. Ninguém tinha razão nem esperança, que podíamos fazer.

Antonio Gamoneda, Oração Fria, João Moita (sel., trad. e posf.), Assírio & Alvim, 2013.

segunda-feira, 10 de junho de 2013

ci affoga dentro proprio fino agli occhi

Uno non può sperare di scrivere qualcosa di serio cosí alla legera, come con una mano sola, svolazzando via fresco fresco. Non si può cavarsela cosí con poco. Uno, quando scrive una cosa che sia seria, ci casca dentro, ci affoga dentro proprio fino agli occhi, e se ha dei sentimenti molto forti che lo inquietano in cuore, se è molto felice o molto infelice per una qualunque ragione diciamo terrestre, che non c'entra per niente con la cosa che sta scrivendo, allora, se quanto scrive è valido e degno di vita, ogni altri sentimento s'addormenta in lui. Lui no può sperare di sebarsi intatta e fresca la sua cara felicità, o la sua cara infelicità, tutto s'allontana e svanisce ed è solo con la sua pagina, nessuna felicità e nessuna infelicità può sussistere in lui che non sia strettamente legata a questa sua pagina, non possiede altro e non appartiene ad altri e se non gli succede così, allora è segno che la sua pagina non vale nulla.

Natalia Ginzburg, 'Il Mio Mestiere', Le Piccole Virtú, Einaudi, 2012 (1ª edição 1962).

terça-feira, 4 de junho de 2013

A fonte da arte

Homenageio a tua primavera em flor
alma precocemente iluminada
que pões a salvação no mais profundo risco
o silêncio dos olhos sobranceiros
na predestinação da profecia
suavidade um dia em minha morte
com o olhar imerso na tristeza
Povoavam pássaros a noite
tudo era pensamento para mim
e as palavras só vinham depois
Ó meu país longínquo donde venho
nessa nuvem de vida sobre a minha morte
Na manhã combalida do domingo
na primavera dolorosa dos teus passos ruy
ao tempo de uma má reputação
o metro tem a voz de um cordeiro triste
É isso apenas isso e o demais são
a morte e a nascença dos contrários a
fórmula da ternura e do sossego
abismo de ameaças nos seus olhos
regiões insondáveis e inacessíveis
pequeníssimas flores da memória
relâmpago dourado do olhar
os cheiros acres das redondas cavidades
a tua boca de ouro de onde voam as palavras
animadas figuras do meu sonho
os peixes negros e dourados das recordações
olhos brilhantes de animais desconhecidos
coisas que por pensá-las eu as sinto
Os dias diminuem é outono
alguém alguma coisa me virá desse distante bosque
O que dirão de mim o castanheiro
os rostos múltiplos trazidos pela tarde num momento
a verde zebra que nos campos vibra ou
papoila rubra que no céu me sobra?
Mas amo muito mais amo o bem e o mal
os campos no outono moribundo
no meio do inverno a casa acolhedora
estranha companheira dos meus dias
demónio de demência e desespero
ao longo do caminho no outono
O receio da morte é a fonte da arte
Eu amo a embriaguez vasta dos espaços
a canção inquieta do amor as
alturas coloridas do outono
Não se pode dizer muito melhor
na monstruosa veemência dos sentidos
e sinto-me perdido de tristeza
entre esses longos nomes das mulheres casadas
Houveram morte às minhas mãos as cartas
os aviões nos distribuem por países
saem de um centro partem nas mais várias direcções
farejam na distância os seus destinos
retalham-nos o espaço em sulcos divisórios
Por onde corre agora a fonte das suaves raparigas?
Ficou na casa o meu lugar vazio
levo a desgraça como um braço ao peito
e árvores ao vento neste dia
e sombra ao sol deste meu dia
Queimam as folhas no parque del'oeste
o tecto é baixo o sol está quase a pôr-se
tenho nas minhas mãos três notas do país amado
Esta manhã falavam-me de málaga
e de súbito no meio desta névoa
abriu-se o céu de há anos no verão
Éramos tão jovens nesse tempo
que não sabíamos sequer que nos amávamos assim
e discutimos junto ao porto e regressámos separados
ao hostal onde estávamos aboletados
E tu de olhos no chão reflectias o vulto entre as águas
e não havia os filhos éramos os dois apenas
mas enfim foi há pouco posto que inda hoje brilha
a moeda nesse ano posta em circulação
e que acabo de ter nas minhas mãos no bar
Não me farto de contemplar
o braço esquerdo e a perna direita
que cortados de mim não me pertencem mais
Tu foste sempre reino sobre ti
e o meu desejo é seguir do alto o tejo
Que depressa se esfuma uma cidade no ar
não são sequer as nuvens nem o vasto espaço
basta um golpe de asa que roçando limpe
o pára-brisas próximo horizonte
Pensar é estar alguma coisa a mais
pensar é o que sobra da respiração
pensar é o que não nos leva às coisas
pensando se antecipa a própria morte
O receio da morte é a fonte da arte

Madrid, 24/V/1977


Ruy Belo, Despeço-me da Terra da Alegria, Editorial Presença, 1978

domingo, 2 de junho de 2013

Um Mitternacht


Um Mitternacht
Hab' ich gewacht
Und aufgeblickt zum Himmel;
Kein Stern vom Sterngewimmel
Hat mir gelacht
Um Mitternacht.

Um Mitternacht
Hab' ich gedacht
Hinaus in dunkle Schranken.
Es hat kein Lichtgedanken
Mir Trost gebracht
Um Mitternacht.

Um Mitternacht
Nahm ich in Acht
Die Schläge meines Herzens;
Ein einz'ger Puls des Schmerzens
War angefacht
Um Mitternacht.

Um Mitternacht
Kämpft' ich die Schlacht,
O Menschheit, deiner Leiden;
Nicht konnt' ich sie entscheiden
Mit meiner Macht
Um Mitternacht.

Um Mitternacht
Hab' ich die Macht
In deine Hand gegeben!
Herr, über Tod und Leben,
Du hältst die Wacht
Um Mitternacht!

Friedrich Rückert