domingo, 12 de maio de 2013

Um quarto as coisas a cabeça

Mesmo que fosse mais do que este quarto a minha vida
à volta da cabeça pronta a rebentar
mesmo que fossem quatro apenas as paredes
quatro paredes são de mais para uma vida
e há palavras horríveis ó meu deus sintagma da gramaticalidade
pura pura negação da vida três palavras onde
se apoia há muito o homem que afinal só fala por falar
e eu me apoio agora em holocausto ao ritmo à vibração verbal
há dizia eu palavras pavorosas que não são precisamente o adjectivo
que substituo por razões de métrica mas são palavras como
por exemplo vida e há muito haver deixado a minha infância
coisa talvez que só por havê-la deixado alguma coisa significa
e ser não já profissional qualificado mas pessoa crescida
que não leva talvez gravata mas que tem vida privada
gulosamente devassada por vizinhos companheiros de trabalho
e tem outras pessoas e tem horas e tem ruas ó meus deus
ó forma essencialmente vocativa do meu grito grande merda esta vida
Talvez haja a janela haja árvores e céu
talvez se eu caminhar ao longo do comprido corredor
que talvez una uns com os outros estes dias
talvez se houve uma entrada ao fundo haja uma saída
Hei-de passar a merda desta vida à procura de papéis?
Sempre em mim e ao que chamam coisas há-de haver palavras
e dirão que há-de haver não só algum sentido para as coisas
mas um sentido seja ele qual for para a merda da vida
onde nasce de súbito um pequeno imenso monstro descendente de um tirano
e a mãe desse tirano descendente que podia ser tamanha como simples mãe
é mãe por profissão por pose pela posição da tão tonta cabeça
multiplicada pelas capas das estúpidas inúmeras revistas
forma mais fugitiva de fugir à fome à alegria própria ao real
cabeça digo não apenas sem ideias mas cabeça onde já nada começa
criança que sabe quantos quilos pesa que cor tinha
a primeira e menos metafórica das merdas que cagou
e o pai da criança que horrorosamente se apresenta como pai profissional
como marido inteiramente a par das regras da mulher
meu deus que merda metafórica esta merda desta vida
E ter eu de passar a vida à procura da chave
e procurar abrir e não saber da chave
e não existir nunca porta ou chave
e chave ser palavra ambígua ter sentido
e haver muitas palavras e muitíssimos sentidos
e a vida ser só uma e ser a vida
e haver mãos para as coisas gestos para as mãos
e não haver que porra uma saída
E esta cara esta cabeça susceptível de ser vista
e tudo quanto faço interpretado e comentado
e haver nomes e eu ser isto e não aquilo
e eu sentir-me em nomes encerrado
Quero dormir não ter esta doença de pensar
estender-me sob o céu o mais possível ao comprido
e que bastante terra cubra o meu comprido corpo
e eu seja terra apenas e a terra nada seja
Que eu durma ó meu nada e tu meu nada existas só
para na noite ouvir quem como eu é isso apenas que deseja

Ruy Belo, Transporte no Tempo, Moraes Editores, Lisboa, 1973

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Amanhã






































Dois poemas do novo livro da Artefacto aqui.

Via Nazionale

If I remind him of that walk along the Via Nazionale, he says he remembers it, but I know that he is lying and that he remembers nothing; and I sometimes ask myself if it was us, these two people, almost twenty years ago on the Via Nazionale, two people who conversed so politely, so urbanely, as the sun was setting; who chatted a little about everything perhaps and about nothing; two friends talking, two young intellectuals out for a walk; so young, so educated, so uninvolved, so ready to judge one another with kind impartialitty; so ready to say goodbye to one another for ever, as the sun set, at the corner of the street.

Natalie Ginzburg, He and I

quinta-feira, 9 de maio de 2013

quarta-feira, 8 de maio de 2013

restless restless

De "Breve programa para uma iniciação ao canto"

Escrever é desconcertar, perturbar e, em certa medida, agredir. Alguém se encarregará de instuticionalizar o escritor, desde os amigos, os conterrâneos, os companheiros de luta, até todas aquelas pessoas que abominou e combateu. Acabarão por lhe encontrar coerência, evolução harmoniosa, enquadramento numa tradição. Servir-se-ão delem, utilizá-lo-ão, homenageá-lo-ão. Sabem que assim o conseguirão calar, amordaçar, reduzir.
É claro que falo do poeta e não do poetrasto, do industrial e do comerciante de poemas, do promotor da venda das palavras que proferiu. Falo do homem que nunca repousou sobre o que escreveu, que recusou a servir-se a si e a servir, que constantemente se sublevou.
Falo do homem que, ombro a ombro com os oprimidos, empunhando a palavra como uma enxada ou uma arma, encontrou ou pelo menos procurou na linguagem um contorno para o silêncio que há no vento, no mar, nos campos.

Ruy Belo, Transporte no Tempo, Moraes Editores, 1973.

segunda-feira, 6 de maio de 2013

o purgatório acabou

   ela estendida na cama a coçar a barriga da perna e eu a hesitar se a atirava ou não pela varanda para assistir aos nove andares da queda, ao remoinho das saias, aos molinetes dos braços, eu, após o baque no alcatrão, a tirar um espumante comemorativo da despensa, a informar o bicho

- Podes sair do reposteiro, gato, que o purgatório acabou

   finalmente dona do meu tempo, finalmente silêncio, finalmente sossego, o regresso a casa sem promessa de inferno, sem lágrimas nem gritos a aguardarem-me


António Lobo Antunes, A morte de Carlos Gardel

Na ordem do dia


domingo, 5 de maio de 2013

Espaço para uma canção

As noites desmedidas de novembro
abertas sobre a queixa rígida das árvores
inauguram o outono sobre a terra
Adeus ó meu verão impiedoso
ó limpidez da água sobre as pedras
ó inúmeros galos da manhã
ó tempestade agreste de alegria
É o país da música é a fome da noite
impossível estar só razoável rapaz
meu príncipe da própria juventude
Nos cabelos de vento do mar morto do destino
fundo antigo de água conchas e areias
no centro solitário deste solo
ante a solenidade sensual do sono
eu olho os paralelipípedos do nada
não me detenho nos umbrais das trevas
caminho numa mesma direcção
Onde o cheiro da esteva sobre a vila
o trigo para o campo do olhar
as estrelas abertas pelo céu?
Ponho os pés sobre as folhas no asfalto
espero por dezembro mês para morrer
evoco a luz discreta das doenças de outrora
Aqui os cisnes são da cor da cinza
e o vento devasta o país dos pauis
quando perto do chão a última cigarra
anuncia a definitiva solidão
Que é momentos puros de outra vida
da luminosa luz como ferro em fusão
do silêncio como a nossa melhor obra?
Eu te saúdo outono punitivo
sinal desse silêncio que me não permite
desistir de cantar enquanto vivo
Que o vento a névoa a folha e sobretudo o chão
caibam dentro do espaço da minha canção

Ruy Belo, Transporte no Tempo, Moraes Editores, 1973

"Ikiru" de Akira Kurosawa, 1952


sábado, 4 de maio de 2013

The Arrival, Shaun Tan


Eu ia escrever que ler, ver, este livro a um sábado de manhã é como voltar a ter sete ou oito anos, mas The Arrival  é tão mais que isso.

sexta-feira, 3 de maio de 2013

     e no entanto as trevas acumulavam-se na sala a partir da praia lá em baixo (o nosso andar fica quase todo o tempo muito acima do sol), as sombras das gaivotas deslocavam-se no tecto, devorando a lâmpada na trança do fio como uma lágrima inflamada e eu aqui, com medo da noite, sozinha à tua espera, com medo do rumoroso silêncio sem arbustos que a noite traz consigo, atenta ao assobio do elevador, ao som da chave na porta, à tua voz

António Lobo Antunes, A morte de Carlos Gardel

What to leave behind

Go on, move, go and embrace the waves and the air
and lift with your eyelashes lightning and clouds.
Let them shatter
our mirror then, and the vessel of years.
And leave for us behind you -
No, no, leave nothing behind
except some sorrow and some mud
and the blood dried up in veins.

Ah, go on, move. No, wait, you're
not leaving, are you?
If so leave for us behind you
your eyes, your tawny corpse, your clothes,
a poem for the strange,
the world borne of longing
holding in its eyelashes
your sky.

Adonis, Selected Poems (de Songs of Mihyar of Damascus, 1961), Khaled Mattawa (trad.), Yale/Margelios, 2010.

quinta-feira, 2 de maio de 2013

The fall

I live between fire and plague
with my language, with these mute worlds.
I live in an apple orchard and a sky,
in the first happiness and the drollness
of life with Eve,
master of those cursed threes,
master of fruit.

I live between clouds and sparks
in a stone that grows, in a book
that knows secrets, and knows the fall.

Adonis, Selected Poems (de Songs of Mihyar of Damascus, 1961), Khaled Mattawa (trad.), Yale/Margelios, 2010.

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Not a star

Not a star, not a prophet's inspiration
not a pious face worshiping the moon,
here he comes like a pagan spear
invading the land of alphabets
bleeding, raising his hemorrhage to the sun.
Here he comes wearing the stone's nakedness
thrusting his prayers into caves.

Here he comes
embracing the weightless earth.

Adonis, Selected Poems (de Songs of Mihyar of Damascus, 1961), Khaled Mattawa (trad.), Yale/Margelios, 2010.