sábado, 30 de junho de 2012

O verdadeiro paganismo

Ser sensato é a maior excelência, sabedoria é dizer a verdade e proceder de acordo com a natureza.
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 O que distingue o paganismo greco-romano é o carácter firmemente objectivo que nele transparece, efeito de uma mentalidade que, embora diferente nos dois povos, tinha de comum a tendência para colocar na Natureza exterior, ou num princípio, embora abstracto, derivado dela, o critério da Realidade, a base para a especulação e para a interpretação da vida. (...) O ideal, a especulação, são extraídos da realidade pelos gregos, não lhe são impostos nem por dentro, como no sistema índio, nem por fora como no de Cristo.

 Mas mesmo que os vários pagãos à força da nossa civilização cristã tivessem tido a noção clara do que constitui a essência do paganismo, não quer isso dizer que imediatamente passariam a ser pagãos, neo-pagãos ou re-pagãos. Essas coisas, compreendidas só com a inteligência, nada são e nada valem. Tem o indivíduo que nascer com a inteligência para compreendê-las colocada no centro da sua sensibilidade. Tem o indivíduo que nascer pagão para ser pagão. Nascitur non fit, como o poeta, e, afinal, como tudo o que é estável neste mundo. 

Ricardo Reis, Prosa, Assírio & Alvim, 2003.

sexta-feira, 29 de junho de 2012

A vida como um livro que se fechou

Apagámos todas as letras
E a afirmação mantém-se vagamente,
Como uma inscrição sobre a porta de um banco,
Com números romanos difíceis de decifrar,
E que, à sua maneira, talvez digam de mais.

Não estávamos a ser surrealistas? E porque é que
No bar estranhos observavam o teu cabelo
E as tuas unhas, como se o corpo
Não procurasse e encontrasse a posição mais confortável,
E a tua cabeça, essa coisa estranha,
Não ficasse cada vez mais problemática de cada vez que alguém fechava a porta?

Falámos um com o outro,
Levámos cada coisa só até onde podíamos,
Mas na ordem certa, e assim ela é música,
Ou qualquer coisa como música, falando da distância.
Temos apenas algum saber
E mais que a ambição necessária
Para o transformar num fruto feito de nuvem
Que nos protegerá até desaparecer.

Mas o seu sumo é amargo,
Não temos disso nos nossos jardins,
E tu devias subir até onde mora o saber
Com esse sarcasmo desprendido, para aí alguém
Te dizer de vez: não está aqui.
Só fica o fumo,
E o silêncio, e a velhice
Que fomos construindo como uma paisagem,
De alguma maneira, e a paz bate todos os recordes,
E o cantar no campo, um prazer
Que há-de vir e não nos conhece.


John Ashbery, Uma Onda e Outros Poemas, trad. colectiva revista, completada e apresentada por João Barrento, Quetzal Editores, 1992.

September Song

Be not too hard for life is short
And nothing is given to man.
Be not too hard when he is sold and bought
For he must manage as best as he can.
Be not too hard when he gladly dies
Defending things he does not own.
Be not too hard when he tells lies
And if his heart is sometimes like a stone,
Be not too hard, for soon he dies,
Often no wiser than he began.
Be not too hard for life is short
And nothing is given to man.

Christopher Logue, Selected Poems, Faber & Faber, 1996

Terms

The place put you at risk.
Stone buildings and a few bleak clumps of birch
ranged out along the low escarpments.
The house was still your territory though.
For a while I thought you'd be content
idling amid your grimcrack jewellery,
your ancient skills,
believing everything I said.

David Harsent, do livro After Dark in Selected Poems:1969-2005, Faber & Faber.

quarta-feira, 27 de junho de 2012

Two short poems about nature

You and I are in words.
We belong to the same book.
The ashes upon you are mine,
and in the shadows we are
the only two witnesses, victims,
two short poems about nature
waiting for the devastation to finish its feast.

Mahmud Darwish, de "The Raven's Ink", in Unfortunately it was Paradise: Selected Poems, Munir Akash et al. (trad.), Frienses Corporation (Printer), s.d.

A brief history of John Baldessari

terça-feira, 26 de junho de 2012

On fire

(Chorus) Nothing vast enters the lives of mortals without ruin
But of course there is hope Look here comes hope
Wandering in
To tickle your feet
Then you notice the soles are on fire

Antigonick (Sophokles), "translated" by Anne Carson, illustrated by Bianca Stone (Bloodaxe Books, 2012).

segunda-feira, 25 de junho de 2012

but I resemble nothing

but I resemble nothing
As if there were no room on earth
for those pitiful, sick lyricists, descendants of demons, who
when they dream their beautiful dreams,
breach all borders and teach love poetry to parrots.

Mahmud Darwish, de "Mural", in Unfortunately it was Paradise: Selected Poems, Munir Akash et al. (trad.), Frienses Corporation (Printer), s.d.

domingo, 24 de junho de 2012

Diz Zeus a Hera

'First Heart,' God said, 'do not forget
I am at least a thousand times
Raised to that power a thousand times
Stronger than you, and your companion gods.
What I have said will be, will be,
Whether you know of it, or whether not.
Sit down. Sit still. Ad no more mouth.
Or I will kick the breath out of your bones.'

And Hera did as she was told.

It was so quiet in Heaven that you could hear
The north wind pluck a chicken in Australia.

Christopher LogueKings in Logue's Homer: War Music, Faber & Faber, 2001

sábado, 23 de junho de 2012

let's dance

































Algures em 1948.

of love not

Kreon: Enemy is always enemy Alive or dead
Antigone: I am born of love not hartred

Antigonick (Sophokles), "translated" by Anne Carson, illustrated by Bianca Stone (Bloodaxe Books, 2012).

P.S. Este livro é simplesmente brilhante. Everything about it.
'I love you, child. But we are caught.
You will die soon. As promised. And alone.
While I shall live for ever with my tears.
Keep your hate warm. God will agree', his mother said

And walked into the waves.    
As he went up the beach towards his ship.
Towards the two great armies. All asleep.

Christopher Logue, Kings in Logue's Homer: War Music, Faber & Faber, 2001

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Mais logo

























Às 21.30 na Cossoul de Santos vai ser lançado o mais recente livro de Nuno Dempster.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Lembra-me um sonho lindo

O mal da poesia, Catarina

O poeta tem o direito de dever o que lhe apetecer, com quem lhe apetecer, quando lhe apetecer, sem que alguém devesse pensar poder policiá-lo por isso, mas não temos tido essa sorte, ou talvez as barreiras estejam só na nossa cabeça e por isso valham muito pouco, são afinal ultrapassáveis (é dar-lhes uns pontapés). Premissas do género de «o poeta deve» deviam aplicar-se só em caso de saldo negativo na conta do banco do mencionado poeta. O poeta deve o que deve àquilo que ele sabe que deve fazer e, nesse sentido, «faz o que deves aconteça o que acontecer» é a disciplina do poeta. Para isso tens de ter uma consciência. A sinceridade poética no seu sentido mais estreito é uma grande treta (ainda hei-de ouvir quem diga «era um bom poeta, porque era um gajo muito sincero», como se não houvesse valor nenhum naquilo que temos de agarrar às vezes com um esforço da nossa inteligência, cobarde é querer dizer que há errado e certo para uma coisa que não tem uma fórmula, um poema é uma arte de caminhar sobre o abismo, hoje acredito mesmo que os melhores poemas são isto, coisas que te ensinam a respirar, que alargam o horizonte em que vives, como é que pode haver um dever e um não dever para isto, caramba?). O poeta deve ser fiel à sua consciência literária (coisas não fixas, que são afinal aquilo que lhe apeteça dever), à sua ética, às coisas por que tem paixão, essa coisa indefinível que quando real (luz acesa dentro) está ligada por um fio vital a um amor à arte e a um amor ao mundo (o que quer que esse mundo seja), que é o primeiro impulso para escrever o primeiro verso, acho que é desse lugar que vem o primeiro verso. Isto pode parecer ingénuo, nostálgico. Mas aí talvez o poeta possa pensar que pôs os pés no lugar certo. Mas não se deve sentir muito contente consigo próprio por isso. Para mim, hoje, este é o modo como isto funciona.
Estou tão zangado com o mundo, disse Pamuk uma vez e tinha razão. 
O mal da poesia não existe, Catarina. O inferno somos nós. 

quarta-feira, 20 de junho de 2012

Um verso

Antigone: And when my strength is gone I'll stop

Antigonick (Sophokles), "translated" by Anne Carson, illustrated by Bianca Stone (Bloodaxe Books, 2012).

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Water binds me to your name

Water binds me to your name.
Nothing is left of me except you.
Nothing is left of you except me -
a stranger caressing the thighs of a stranger.
O stranger, what will we do with what's left
of the stillness and the brief sleep between two myths?
Nothing carries us: neither path nor home.
Was this the same path from the beginning?

Mahmud Darwish, "Who am I, without Exile?", Unfortunately it was Paradise: Selected Poems, Munir Akash et al. (trad.), Frienses Corporation (Printer), s.d.

And here's to the few who forgive what you do



domingo, 17 de junho de 2012

wo man nicht mehr lieben kann, da soll man - vorübergehn!

    Ad ascoltarli er' io del tutto fisso,
quando 'l maestro mi disse: «Or pur mira,
che per poco che teco non mi risso!».
     Quand' io 'l senti' a me parlar con ira,
volsimi verso lui con tal vergogna,
ch'ancor per la memoria mi si gira.
     Qual è colui che suo dannaggio sogna,
che sognando desidera sognare,
sí che quel ch'è, come non fosse, agogna,
     tal mi fec' io, non possendo parlare,
che disïava scusarmi, e scusava
me tuttavia, e nol mi credea fare.
     «Maggior difetto men vergogna lava»,
disse 'l maestro, «che 'l tuo non è stato;
però d'ogne trestizia ti disgrava.
     E fa ragion che fortuna t'accoglia
dove sien genti in simigliante piato:
     ché voler ciò udire è bassa voglia.»

Dante. Comedìa. Inferno, XXX 130-148.