sexta-feira, 1 de abril de 2011
quinta-feira, 31 de março de 2011
I want to tell what speaks to me most
I want to tell what speaks to me most -
My little neighbor, the son of village drunkards,
a bright young boy,
by the gas-lamp - for we have no electricity - he
writes each evening a verse about freedom.
He is no Raznai and no Baradulin and certainly he is
no Dudarai,
but I tell you, we will hear of him one day!
With these optimistic words I want to end
the difficult evening
in our immeasurable Belarus.
Victar Shalkevich, New European Poets, traduzido do bielorrusso por Ilya Kaminsky e Kathryn Farris, Kevin Pruffer (eds.), Graywolf Press, 2008
My little neighbor, the son of village drunkards,
a bright young boy,
by the gas-lamp - for we have no electricity - he
writes each evening a verse about freedom.
He is no Raznai and no Baradulin and certainly he is
no Dudarai,
but I tell you, we will hear of him one day!
With these optimistic words I want to end
the difficult evening
in our immeasurable Belarus.
Victar Shalkevich, New European Poets, traduzido do bielorrusso por Ilya Kaminsky e Kathryn Farris, Kevin Pruffer (eds.), Graywolf Press, 2008
E é isso
É possível que tudo quanto é belo seja interrogativo; mas o que deveras se comunica não precisa de devassar-se para ser presente e aceite.
Agustina Bessa-Luís, Conversações com Dmitri e Outras Fantasias, Relógio d'Água, 1992
Agustina Bessa-Luís, Conversações com Dmitri e Outras Fantasias, Relógio d'Água, 1992
segunda-feira, 28 de março de 2011
Brindisi
Foi em Brindisi. Não sei se me expliquei bem, as letras não servem às vezes o coração da realidade. Mas penso que um rosto humano é feito de momentos assim, de continuidade, de paixão que não serve aos homens senão para que resistam ao seu grande espanto de viver. Assim é. Vejo Brindisi ao cair da tarde, cidade portuária e desenganada, com grandes bonecas encaixadas às portas, vestidas de azul e rosa. Como meretrizes honestas e sem alma. E os inglesinhos de compridos cabelos, de queixos agudos, feios. A excentricidade deles, os moços de bordo em mangas de camisa, a fuligem nos bancos do convés, a partida de Brindisi à noite e o rulho do mar à noite. E aquele imóvel rosto, aquela recusa fria, o sádico encanto do amor que resistia a participar e a ser. E a beleza, prodígio para sempre pobre e desamparado, não embarcara em Brindisi. Não embarcava em parte nenhuma, eu tinha a certeza disso.
Agustina Bessa-Luís, Conversações com Dmitri e Outras Fantasias, Relógio d'Água, 1992
Agustina Bessa-Luís, Conversações com Dmitri e Outras Fantasias, Relógio d'Água, 1992
domingo, 27 de março de 2011
A certain tree in powazki Cemetery
All memory we owe to objects
which adopt us for life and
tame us with touch, smell
and rustle. That's why it's so hard
for them to part with us: they guide us
till the end, through the world.
till the end they use us, surprised
by our coolness and the ingratitude
of that famous spinner Mnemosyne.
Piotr Sommer, New European Poets, traduzido do polaco por Hakina Janod e John Ashberry, Kevin Pruffer (eds.), Graywolf Press, 2008
which adopt us for life and
tame us with touch, smell
and rustle. That's why it's so hard
for them to part with us: they guide us
till the end, through the world.
till the end they use us, surprised
by our coolness and the ingratitude
of that famous spinner Mnemosyne.
Piotr Sommer, New European Poets, traduzido do polaco por Hakina Janod e John Ashberry, Kevin Pruffer (eds.), Graywolf Press, 2008
sábado, 26 de março de 2011
sexta-feira, 25 de março de 2011
A Infância de Parménides
para Electra Haviaris
Por perguntar, porquê a existência
Em vez do nada?
O professor manda o pequeno rufia
Ao gabinete do Reitor.
Infelizmente, ainda não têm nenhum.
Só há o Rei Minos e o seu labirinto,
E ainda Philemon, que está quase a morrer de riso
Ao ver um burro a comer figos.
Charles Simic, Previsão de Tempo para Utopia e Arredores, trad. de José Alberto Oliveira, Assírio & Alvim, Lisboa, 2002
consoada de uma mulher sozinha
chegas a casa com as mãos
cheias de sacos e vincadas
pelo esforço. o silêncio é escuro
antes de acenderes a luz; depois
o silêncio é o mesmo, mas ilumina
a solidão nos objectos da casa. largas tudo
logo à entrada. acendes a luz fria da casa
de banho. pegas no elástico, agarras os
cabelos, escuros. e lavas o rosto. ele
vai ficando na água. até que o faças
escorrer pelo ralo: sem nenhum som.
Bruno Béu, A Sul de Nenhum Norte, n.º1
cheias de sacos e vincadas
pelo esforço. o silêncio é escuro
antes de acenderes a luz; depois
o silêncio é o mesmo, mas ilumina
a solidão nos objectos da casa. largas tudo
logo à entrada. acendes a luz fria da casa
de banho. pegas no elástico, agarras os
cabelos, escuros. e lavas o rosto. ele
vai ficando na água. até que o faças
escorrer pelo ralo: sem nenhum som.
Bruno Béu, A Sul de Nenhum Norte, n.º1
litoral
Não me queixava quando me
desejavas apenas poucas horas
da antemanhã, sob escuro espesso,
olhos fechados e membros cerzidos.
Era que eu também desejava mas
que me visses em luz monocórdia,
ao olímpico gesto de tatear as tuas costas
de navio ao erro do exílio
e
se nisto eu encontrava estirpe
para os olhos ou abrigo de titânio para
o rosto
ou simplesmente um modo de te fazer
ficar por mais horas até que o pavor
me dissipasse a água e enfim fôssemos
iguais na condição da chuva e o teu
marco no meu tronco fosse algo
que nunca mais pudesses levar ou tomar
de volta.
Tatiana Pequeno, A Sul de Nenhum Norte, n.º1
desejavas apenas poucas horas
da antemanhã, sob escuro espesso,
olhos fechados e membros cerzidos.
Era que eu também desejava mas
que me visses em luz monocórdia,
ao olímpico gesto de tatear as tuas costas
de navio ao erro do exílio
e
se nisto eu encontrava estirpe
para os olhos ou abrigo de titânio para
o rosto
ou simplesmente um modo de te fazer
ficar por mais horas até que o pavor
me dissipasse a água e enfim fôssemos
iguais na condição da chuva e o teu
marco no meu tronco fosse algo
que nunca mais pudesses levar ou tomar
de volta.
Tatiana Pequeno, A Sul de Nenhum Norte, n.º1
Saudades de Jerusalém
Penso que, na saudade que podemos guardar de uma pessoa, de um lugar, de uma circunstância, de uma coisa, há dois tipos de sentimento que nela se contêm. Um é uma espécie de nostalgia, que é uma palavra que à letra significa dor do regresso, que guardamos das coisas, outro é a nossa solidão, uma solidão como uma espécie de nudez, perante elas. Na nostalgia está o inevitável desejo de regressar a uma coisa que está num lugar irreversível, porque o tempo sobre ela lançou negra mão, perdeu-se, não regressa sobre a forma como ainda a queremos. Na parte de solidão estão duas coisas, este modo de cantar em silêncio, para nós, privadamente, a elegia que guardamos para aquilo que nos falta, é aquilo que nos falta que é o objecto da nossa saudade, sempre, mas também o termos ficado sós do que se perdeu: alguém que deixa de fumar e que sente falta não só do tempo em que fumava mas da companhia do tabaco; o amado, que mesmo partindo por um espaço de tempo muito curto, de quem temos saudade porque temos solidão; uma pessoa cuja companhia amámos e se perdeu; uma cidade e o tempo em que nela vivemos e que para nós se perdeu, a nossa solidão de uma cidade.
Quando falamos da saudade que um Judeu de Alexandria no séc. I podia sentir de Jerusalém, lembro-me daquelas palavras que Fílon de Alexandria põe na boca, salvo o erro de José, no De Iosepho, em que o faz dizer eu pertenço a Deus. Penso que um homem que possa dizer isto, e cada um tem a sua forma privada de deus, não necessariamente coincidente com o Deus de Israel, pode ser deus um livro, ou o amor a um detalhe, ou a alguém, ou num poema esconder-se deus, ou simplesmente no hábito de fazer alguma coisa todos os dias, admitamos que deus pode ser muitas coisas e muitas delas muito profanas, muito pagãs, não poderia acreditar num deus que não dançasse, dizia o outro, admitamos que qualquer homem possa dizer eu pertenço a deus.
Esta ideia, eu pertenço a alguma coisa, penso que para o judeu grego de Alexandria o eximia para sempre da saudade de Jerusalém, porque pertencendo a deus, só estaria só se esse deus lhe dissesse pessoalmente, ou de forma muito veemente lhe mostrasse que, tu estás só. Assim sendo, e com uma eventual falha neste argumento, Jerusalém é uma cidade construída no coração do sábio de Alexandria, mais do que o lugar aonde ele precise de ir. Porque Jerusalém é o lugar de Deus e ele pertence a Deus. A sua pátria pode ser uma cidade grega à vontade, porque a cidade-mãe é e não é a cidade do Templo, haverá sempre o Templo e a cidade onde regressar enquanto ele pertencer a Deus, Deus garantirá que assim seja. Por isso acho que no Salmo 137 quando se diz mais coisa menos coisa se eu te esquecer Jerusalém que apodreça a minha mão direita, que a minha língua se cole ao palato, se eu não te elevar acima da minha maior alegria, Jerusalém. Não é sobre uma cidade de pedra que estas frases são ditas. Então, somos livres nas coisas que mais determinadamente amamos, naquelas para as quais reservamos uma saudade constante mas também uma saudade que é impossível de saldar.
Quando falamos da saudade que um Judeu de Alexandria no séc. I podia sentir de Jerusalém, lembro-me daquelas palavras que Fílon de Alexandria põe na boca, salvo o erro de José, no De Iosepho, em que o faz dizer eu pertenço a Deus. Penso que um homem que possa dizer isto, e cada um tem a sua forma privada de deus, não necessariamente coincidente com o Deus de Israel, pode ser deus um livro, ou o amor a um detalhe, ou a alguém, ou num poema esconder-se deus, ou simplesmente no hábito de fazer alguma coisa todos os dias, admitamos que deus pode ser muitas coisas e muitas delas muito profanas, muito pagãs, não poderia acreditar num deus que não dançasse, dizia o outro, admitamos que qualquer homem possa dizer eu pertenço a deus.
Esta ideia, eu pertenço a alguma coisa, penso que para o judeu grego de Alexandria o eximia para sempre da saudade de Jerusalém, porque pertencendo a deus, só estaria só se esse deus lhe dissesse pessoalmente, ou de forma muito veemente lhe mostrasse que, tu estás só. Assim sendo, e com uma eventual falha neste argumento, Jerusalém é uma cidade construída no coração do sábio de Alexandria, mais do que o lugar aonde ele precise de ir. Porque Jerusalém é o lugar de Deus e ele pertence a Deus. A sua pátria pode ser uma cidade grega à vontade, porque a cidade-mãe é e não é a cidade do Templo, haverá sempre o Templo e a cidade onde regressar enquanto ele pertencer a Deus, Deus garantirá que assim seja. Por isso acho que no Salmo 137 quando se diz mais coisa menos coisa se eu te esquecer Jerusalém que apodreça a minha mão direita, que a minha língua se cole ao palato, se eu não te elevar acima da minha maior alegria, Jerusalém. Não é sobre uma cidade de pedra que estas frases são ditas. Então, somos livres nas coisas que mais determinadamente amamos, naquelas para as quais reservamos uma saudade constante mas também uma saudade que é impossível de saldar.
quinta-feira, 24 de março de 2011
terça-feira, 22 de março de 2011
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