terça-feira, 8 de março de 2011

Metamorfoses X.298-502

A história é contada por Ovídio, em Metamorfoses X.298-502.




http://glynnisfawkes.com/the-story-of-myrrha/

Oscar para a melhor cena num livro

Foi para o lavatório. Onde, diante do grande silêncio dos ladrilhos, gritou aguda, supersônica: Estou sozinha no mundo! Nunca ninguém vai me ajudar, nunca ninguém vai me amar! Estou sozinha no mundo!
Estava ali perdendo a terceira aula, no longo banco do lavatório, em frente a várias pias. "Não faz mal, depois copio os pontos, peço emprestado os cadernos para copiar em casa - estou sozinha no mundo!", interrompeu-se batendo várias vezes a mão fechada no banco. O ruído de quatro sapatos de repente como uma chuva miudinha e rápida. Ruído cego, nada se reflectiu nos ladrilhos brilhantes.

Clarice Lispector, "Preciosidade", Laços de Família, Livros Cotovia, 2008

Ter esperado

Como recuar, e depois nunca mais esquecer a vergonha de ter esperado em miséria atrás de uma porta?

Clarice Lispector, "Preciosidade", Laços de Família, Livros Cotovia, 2008

segunda-feira, 7 de março de 2011

(Segunda-feira)

...i have to get out:
exit biology, remain in my body

Chus Pato, "and now the panopticon is a ruin", Erín Moure (trad.), New European Poets, Wayne Miller, Kevin Pruffer (eds.), Graywolf Press, 2008

12th Man: Sport City London



























Mais aqui.

sábado, 5 de março de 2011

senador euzébio, 29

Para Ferreira Gullar

Data de 1945, ano de O engenheiro,
o edifício ligeiramente deslocado
em seu lote. O corte, a cortesia
do ângulo cavalheiresco: como que

deslizou no esquadro exato para
dar lugar à murta, suas flores miúdas,
brincos brancos cujo perfume
desvia a igreja, o sol, a rua.

Eucanaã Ferraz, Cinemateca, Edições Quasi, 2009

Mimnermo

Tinha amigos que me diziam, antes de eu ler esse livro, que o Guerra e Paz era o romance perfeito. Havia nessa altura uma série de outros romances que eu achava, mesmo sem ter lido esses livros de Tolstói, que, de certeza, eram tão bons ou melhores, a começar pelo facto de a maior parte das obras em que pensava terem um só volume. Inferia que onde há mais economia, há necessariamente um domínio melhor do que se está a fazer, o que, claro, não é uma regra exacta. Uma certa impressão de pudor sempre me impediu de contradizer esses amigos, primeiro por respeito, depois porque em certos casos compreendia que, mais do que ofendê-los por discórdia desinformada, lhes infligiria uma certa mágoa. Não sei se o romance perfeito existe. Espero que não.
Ontem falávamos de personagens do Guerra e Paz. Concluí que me lembro de episódios como a morte de Pétia Rostov, a morte do pai Bolkonsky ou de coisas que me fazem rir, como, no Livro I, o episódio do urso e do guarda. A memória da maior parte destas coisas, com o passar do tempo, ecoa numa parte da consciência que só guarda uma impressão de proximidade, uma aparência de vida. Mas há dois episódios que para mim ficam isolados. A descrição do primeiro encontro entre Maria Bolkonskaia e Nikolai Rostov, numa revolta de camponeses em Lissie Górie, e a última vez que Andrei olha para Natasha. Porque há uma continuidade enternecedora nas coisas que se fecham, que se cumprem. Andrei morre, nunca casará com Natasha, não verá crescer o filho que teve, parece que a vida dele falha. Mas penso que se cumpre, porque, segundo me lembro, e lembro-me tão mal, na última vez (e há esta passionalidade muito usada de ser a última, mas tinha de ser a última, sabia-o Tolstói e nós também) em que ele a olha, essa é a única vez em que a vida é inteira, não perfeita, e nisso está a redenção, um olhar de relance em que se fica pacificado mas sem o peso por vezes humilhante e amargo da resignação, como se Andrei finalmente tivesse percebido o que teimava em escapar-lhe e tivesse percebido que isso áxion esti, como diriam os Gregos, que era digno e tinha valido a pena, o que quer que isso fosse. Além disso, pensava na altura que Andrei tem de morrer porque Andrei é Tolstói e não pode haver dois Tolstóis no mesmo romance.
A felicidade que deveria ser de Andrei desloca-se lentamente para outras personagens, desloca-se sobretudo para Nikolai e Maria. E isto prova, para lá de toda a dúvida, que a ideia para o argumento original de Guerra e Paz estava já contida naqueles versos de Mimnermo, roubados por sua vez à Ilíada, que diz assim como as folhas criadas na estação florida da primavera,/ que subitamente crescem sob raios de sol,/ assim os homens. Porque Mimnermo falava de efemeridade, falando também de continuidade.

sexta-feira, 4 de março de 2011

terceto

Não há matéria para se fazer a tristeza
nessa manhã, manhã perfeita
se a mão que me deu maio fosse a tua.

Eucanaã Ferraz, Cinemateca, Edições Quasi, 2009

A responsabilidade

Entendo a responsabilidade como responsabilidade por outrem, portanto, como responsabilidade por aquilo que não fui eu que fiz , ou não me diz respeito; ou que precisamente me diz respeito, é por mim abordado como rosto.

Emmanuel Levinas, Ética e Infinito, João Gama (trad.), Edições 70, 2007

a costureira

para Danielle Jensen

Ela ouve o tecido, ela pousa
o ouvido, ela ouve com os olhos.
À fibra e ao feixe interroga

sobre o que se entrelaçara,
distinguindo a linha, o intervalo,
o vão, o entreato, atenta

para o que na fala geométrica
e repetida dos fios é um outro
vazio: o de antes da trama, ato

anterior ao enredo; óculos
postos para a escuta, a escuta
desfia-se no vento, o olho

flutua, folha, flor, agulha;
fecha os olhos; ouve
com as pontas dos dedos;

indaga do tecido o modo,
os limites, a função, a oficina,
a forma que ele quer ter,

a coisa, a casa que ele quer ser;
e costura como quem à mão
e à máquina descosturasse

o dicionário, rasgando em moles
móbiles seus hábitos, o vinco
de sua farda.

Eucanaã Ferraz, Cinemateca, Edições Quasi, 2009

A consciência das línguas que falamos

Meu aluno por uma aula apenas, pequeno de mal chegar à cadeira, disse-me com toda a certeza do universo, e com pinta de estar disposto a bater-se por ela, que o alentejano era uma das línguas que tinha vindo do latim.

quinta-feira, 3 de março de 2011

Lapidar

A questão do bem depara-se-nos já sempre numa situação irreversível: vivemos.

Dietrich Bonhoeffer, Ética, Artur Morão (trad.), Assírio & Alvim, 2006

jerusalém

Electra: No terror one can name —
no suffering of any kind, no not even
affliction sent by a god, is so terrible
that human nature can't take it on.


Eurípides, Orestes
John Peck & Frank Nisetich (trads.)


I

precisavas de uma linha de tempo que fosse
como aquelas rodas imperfeitas que meninos
conduzem em aprumos de aros de arame
por imperfeitas ruas de pedra cada oscilação
o eco de pequenos oráculos prováveis traços
de riscar o chão ecos de apostas mentais
curva de obstinado voo e consequente queda


II

curvas-te de mãos atrás das costas ajeitas no rosto
os óculos narciso curvando-se na direcção
de um espelho branco de água com uma urgência
desesperada com uma urgência com a vida nela
costurada como no quadro de waterhouse

III

a rapariga lê com um livro no colo quem
poderia dizer o que lhe diz o poema
o ar que respiramos e que como cor ou
estilhaço nos atravessa que cor nos espera
ao fim de cada dia penso mãos sobre esta
mesa negra de mármore onde me sento
para escrever outros poderiam entrar
pelos dias dizer que não te chega a tocar
minha mão direita e ela que apodrecesse
jerusalém se eu te esquecesse

IV

mas que consolo haverá na memória de uma cidade
quando já varámos todo o espaço que nos foi dado
tudo o que desejámos e o que nos restava e numa
volta de twisted plot a única coisa que entre as mãos
ainda te corre é já areia se não é cinza essa areia

V

mas na verdade a voz do outro lado do telefone
teima apenas em dizer coisas de rito estudado
tom de voz tão prático que enerva o verso
era grata la voz del agua/ a quien abrumaron
negras arenas desejaste tantas vezes perante
o eco que a resposta fosse sem gratidão

VI

o telefone por vezes é como bomba
com relógio incorporado pode explodir
a qualquer instante assim explodir
nas mãos a tua voz plena de cor
dispersando-se como noite de verão
em parque de diversões as cores
de um fogo de artifício púrpura e amarelo
e vermelho como se a elegia fosse alguém
que se despedisse acenando com um sorriso
um gesto cujo peso não nos pudesse ferir


VII

assim a phala por vezes se converte numa forma
de cabeça contra ombro e olhos fechados
como par que dançasse as pequenas oposições
dos corpos enantiao como diriam os gregos
que quer dizer eu oponho-me eu ofereço
uma pequena resistência aquela que o peso
do corpo sobre o chão permite não mais que isso

VIII

e assim fincarás os pés nas marcas das tuas próprias
pegadas fixarás o olhar nas casas vermelhas na linha
do sol que os teus dedos terão talvez afagado
também esta superstição quase pretensiosa
de que uma parte de nós fica presa fica em suspenso
no que com muita intenção tocamos mas nisto
esconde-se uma forma de noite nunca saberemos
como soam nos corações dos outros as nossas intenções

IX

as conversas no café rodeavam-te como uma luz
quando tornaste a erguer a cabeça e eu pude
finalmente ver o teu rosto isto é vê-lo com toda
a certeza com o peso da matéria que faz os corpos
embeberem-se de memória falo-te desta coisa
que esbate a solidão mesmo quando não podemos
saber que indelével marca deixam os dedos na pele
a única certeza é que nem todas as evocações são
feitas de mármore e que mesmo para essas
sempre haverá aqueles que contra o frio toque
da pedra se debatem sempre haverá aqueles

X

que sabem que sempre haverá uma música
que diga as primícias da primavera onde se prenda
a nossa impressão de familiaridade com as coisas
um rasto de vermelho contra verde na flor
que finalmente floresce a vaga evocação de
um som de uma conversa de alguém que
em sussurro falasse a memória de pouca luz
numa sala mal iluminada

XI

haverá sempre o gesto que te cante mesmo
quando não houver poesia mesmo onde e quando
chegarmos à memória de nada haverá sempre
cama onde te deites o fechar dos olhos o lento virar
do corpo uma última linha de tempo o faiscar da luz
na roda de arame a intacta promessa deste lugar aqui
e agora transferido para um pouco mais tarde
e sabes isto porque também tu chegaste
ao fim de todas as cidades e pudeste regressar


Tatiana Faia

quarta-feira, 2 de março de 2011

Pastilhas Brancas

Dormi calma por duas pastilhas brancas embalada,
como quem não tem ocupado a alma por tudo que dói.
Talvez apartada de mim, minha dor tenha andado por aí perdida
ou tenha ficado o tempo todo aqui bem próxima
estendida sobre a cadeira
como essas roupas que se despem na véspera
e se vestem sem pudor no dia seguinte.

Simone Brantes in A Poesia Andando: Treze Poetas no Brasil: Antologia, Marília Garcia e Valeska de Aguirre (org.), Colecção de Poesia Inimigo Rumor, Edições Cotovia, 2008

Falar hoje exige

Falar hoje exige
elidir a própria
voz as transações
inventivas entre
interno e externo
demandam
que a base venha
à tona e a
superfície seja
da profundidade da
história ímpeto
denotando o
centrífugo
o corpo público
que exibo como
palco fruto
da ansiedade
do remetente
o interno ao longo
da epiderme
como emily
dickinson terminando
um carta de minúcias
com "forgive
me the personality"

Ricardo Domeneck in A Poesia Andando: Treze Poetas no Brasil: Antologia, Marília Garcia e Valeska de Aguirre (org.), Colecção de Poesia Inimigo Rumor, Edições Cotovia, 2008

terça-feira, 1 de março de 2011

Don't explain



Caros senhores, a esta hora apetece-me perorar sobre esta música de Nina Simone, que na verdade e tanto quanto sei, foi primeiro cantada por Billie Holiday. Apetece-me perorar sobre ela como Cícero no exórdio do Pro Milone ou do Pro Archia. Mas sou desarmada pelo começo, o começo esmaga-me. Hush now, don't explain, there ain't nothing to gain. As coisas que mais verdadeiramente sentimos são as que confinam com o indizível, com o inexplicável. Também sobre isso é aquilo de que trata esse filme de Aronofsky, Black Swan. Daí também brotou a poesia, bela alegoria disso é a natureza tão dúplice de Apolo, deus de arco e lira. O que cura e mata, todas estas coisas que já alguém antes de mim notara.
O que dá cabo de mim a esta hora é aquele verso de Ruy Belo em Elogio de Maria Teresa, contigo fui cruel no dia a dia, tal como dito por Luís Miguel Cintra, as palavras lentas, arrastadas, pesando. Como se uma identidade mais verdadeira para o amor só se conquistasse a partir daí, por contigo ter sido cruel no dia a dia, Clara Rilke, escreveu Ruy Belo. Neste verso ele toca a natureza de uma coisa paradoxal, absurda, porque só as coisas absurdas podem ser absolutas, de outra forma explicar-se-ia o absoluto e ele estaria desmontado. É por isso que a poesia pode ser uma coisa total, é aí que está o seu poder e a sua possibilidade de nos mover. Aristóteles escreveu as pessoas são de um modo geral estúpidas, mas sempre as arrasta o belo. Eu penso que ele o diz sem crueldade. Que o diz com o espírito de dissecador de rãs que era. Nina Simone, a cantar esta música, não precisou de dar uma volta tão grande. Hush now, don't explain, there ain't nothing gain, I'm glad that you're back, don't explain. Alguém fora cruel com ela no dia a dia. Mas ela já estava para lá disso. Sei que já li poemas com essa mesma coreografia. Pensei que Ovídio, na minha metamorfose favorita, arrastou o indizível até à corporização da metáfora, uma mulher que por causa de uma brisa o próprio amante com um dardo trespassa e no último sopro que exala ela própria em brisa se converte. Suck that, Aristotle.