segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Há pessoas cujos cabelos a dor

Há pessoas cujos cabelos a dor
embranquece de um dia para o outro
e pessoas que morrem um mês
uma semana depois de finadas
as pessoas que adoram
e ouvi mesmo falar de um cão cuja
vida acabou debaixo
do caixão de seu dono
Não vejo como algo
assim poderia acontecer comigo:
é pelas beiradas
(como tudo)
que a dor me come.

Simone Brantes in A Poesia Andando: Treze Poetas no Brasil: Antologia, Marília Garcia e Valeska de Aguirre (org.), Colecção de Poesia Inimigo Rumor, Edições Cotovia, 2008

Da cidade

Na pior das hipóteses
ainda há a chuva
que, de vez em quando,
cai sobre esse declínio civilizado.
sobre essas palavras que saem ocas.
sobre essas máquinas.

mas a chuva ainda não é nada.
a chuva atrasa, sempre.

o distúrbio dos espaços em
nosso campo de visão é minimizado.
um exasperado estrangulamento de tempo.
essa é a língua. pior: essa é a linguagem.

(ainda hoje,
no estacionamento da faculdade,
as árvores floridas
seqüestraram,
por um momento menos que mínimo,
minha atenção. e nada ficou.
nem uma cor. nem uma brisa.)

Fabiano Calixto in A Poesia Andando: Treze Poetas no Brasil: Antologia, Marília Garcia e Valeska de Aguirre (org.), Colecção de Poesia Inimigo Rumor, Edições Cotovia, 2008

Em vez de vaguear

Queria, em vez de vaguear pelas capitais embandeiradas, viver num tempo limpo e sem exasperação, em que eu pudesse ler os versos de Neruda sem me ocultar dos que têm o coração alvo demais; ou que pudesse entrar numa igreja sem que me chamem reaccionária. Porque é que uma rã, de ventre redondo e húmido, canta livremente nos arrozais e não lhe dizem: «Qual é o teu partido, o teu credo, o teu clã?» Eu não quero ser outra coisa, senão esse pequeno verde, sem gramática demasiado oficial, sem copiosos sentimentos além das estações, o medo das águias imorredoiras ou das cobras meio adormecidas.

Agustina Bessa-Luís, Embaixada a Calígula, Manuel Vieira da Cruz e Luís Abel Ferreira (fixação de texto), Guimarães, 2009.

domingo, 27 de fevereiro de 2011

Laranjópolis

Aonde estará você,
quando eu vestir o corpo
num velho sem motivos?

Nos encontraremos na fila
do filme americano?

Ou em degraus quentes
de arquibancada?

Felipe Nepomuceno in A Poesia Andando: Treze Poetas no Brasil: Antologia, Marília Garcia e Valeska de Aguirre (org.), Colecção de Poesia Inimigo Rumor, Edições Cotovia, 2008

"The King's Speech" de Tom Hooper


































O que eu achei deste filme é que ele era uma espécie de pequeno apontamento sobre os bastidores da História, pequenos pormenores que só acontecem nas antecâmaras e que são decisivos. Um rei que é gago e que precisa de discursar. Mais do que um filme sobre ultrapassar uma dificuldade pareceu-me ser um filme sobre quão vital se torna um dom de oratória quando não é possível possuí-lo e é preciso a todo o custo alcançá-lo. Está toda a gente competentemente bem, mas não vi nenhum dos actores ultrapassar-se a si próprio. À parte isso, gosto sempre de ver Londres sob o nevoeiro. E gosto do Colin Firth.

"True Grit" dos Irmãos Coen, 2010



























Uma coisa que amo nos filmes dos irmãos Coen é a fotografia. A fotografia é sempre perfeita, é sempre certa. Escolham um filme, qualquer um serve. Neste há aquele plano do Matt Damon a acender o cachimbo, sentado no alpendre, ou o corpo do pai sob a neve.

Detalhes

Te encontrar no cinema
no verso menor de um poema

numa festa na casa de amigos
em certos hábitos adquiridos:

conversar lavando pratos
cultivar um pequeno cacto

no gesto de apagar o cigarro
passar a noite dentro do carro

para te perder em seguida
em avenidas remissivas

e a sensação de nunca estar pronto
amor feito de saudade e desencontro

Augusto Massi in A Poesia Andando: Treze Poetas no Brasil: Antologia, Marília Garcia e Valeska de Aguirre (org.), Colecção de Poesia Inimigo Rumor, Edições Cotovia, 2008

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

De uma sessão em que apresentaremos o n.º2 da Ítaca e falaremos um pouco do 3 (que está quase quase)

Esta apresentação será integrada no Evento «Solar» que está a decorrer em Torres Vedras, entre 23 e 26 de Fevereiro. Mais informação aqui.

quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Frederico de Montefeltro, Duque de Urbino*

Por vezes a mera evocação força-nos a recordar uma coisa que para nós não existe e a sua consequente descrição. Talvez isto seja uma definição apta de imaginação ou talvez devesse servir para ser a evocação sem melancolia de coisas que nunca veremos, que passaram ou que estão fora do nosso tempo já. Assim Agustina Bessa-Luís, quando evoca Frederico de Montefeltro em Embaixada a Calígula e dele diz: «Este Frederico de Montefeltro, Duque de Urbino, com o seu olho de rapina e a tez de mouro, foi com certeza alguém que levou preocupações aos cidadãos pisanos...» Este é também um exercício de rigor, de contenção, como se nestas duas linhas se pudesse guardar o que é vital sobre o carácter de um homem pela mera alusão a um modo de olhar ou à cor de uma tez. Pensei que assim somos muito exíguos às vezes. Um curto espaço de tempo e emoção, no caso do Duque de Urbino nem sequer belo. Mas sem melancolia, como se não nos aproximássemos muito do espelho e deste modo a desilusão, a dissolução não fossem nunca possíveis ou fossem intimamente sentidas como um pequeno golpe de coração, só a mim isto aconteceu, a mais ninguém, tu nunca o saberás. Assim fica Frederico de Montefeltro, Duque de Urbino, pendurado num quadro de museu em Florença, ninguém poderia já dizer quantas dores de cabeça trouxe ele aos pisanos. A compensação é que penso que até no quadro, quando já nada se pode saber, ele continua a ser aquilo que foi, ou uma réstia do que. E ser aquilo que foi é literatura, mais do que é história. Como na descrição feita duas ou três páginas antes de uma outra personagem que penso que interessou muito mais a Agustina do que Frederico de Montefeltro, Savonarola, de quem ela escreveu: «Pode-se dizer que a Renascença inteira teve uma parte de inspiração, não nas palavras, mas na força desesperada de Savonarola.»
E não me importa que esta definição (porque não é uma afirmação sobre) de Savonarola seja discutível ou não. Quem poderia querer definir com argumentável precisão o que seja uma força desesperada?

* Sempre quis fazer um post cujo título fosse o nome deste senhor e o seu perfil de nariz adunco. Uma destas duas coisas não era possível, enfim.

Nova passante

1. sobre
esta pele branca
um calígrafo oriental
teria gravado sua escrita
luminosa
- sem esquecer no entanto
a boca: um
ícone em rubro
tornando mais fogo
suor e susto
tornando mais ácida e
insana a sede
(sede de dilúvio)

2. talvez
um poeta afogada num
danúbio imaginário dissesse
que seus olhos são duas
machadinhas de jade escavando o
constelário noturno:
a partir do que comporia
duzentas odes cromáticas
- mas eu que venero (mais que o ouro verde
raríssimo) o marfim em
alta-alvura de teu andar em
desmesura sobre uma passarela de
relâmpagos súbitos, sei que
tua pele pálida de papel
pede palavras de luz

3. algum
mozárabe ou andaluz
decerto
te dedicaria
um concerto
para guitarras mouriscas
e cimitarras suicidas
(mas eu te dedico quando passas
no istmo de mim a isto
este tiroteio de silêncios
esta salva de arrepios)

Carlito Azevedo in A Poesia Andando: Treze Poetas no Brasil: Antologia, Marília Garcia e Valeska de Aguirre (org.), Colecção de Poesia Inimigo Rumor, Edições Cotovia, 2008

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

Fim de dia

Aristóteles

Pertenço a um restrito conjunto de gente tarada que se levanta às seis da manhã para ler a Retórica de Aristóteles. O professor com quem estou a estudar a Retórica disse numa aula que Aristóteles era uma máquina de pensar. Quando ele lhe chamou «máquina de pensar» eu estava ligeiramente distraída, a pensar na morte da bezerra, evidentemente, e pensei que o que ele queria dizer é que Aristóteles era muito fértil em ideias. Mas agora que me pus a reler a Retórica é muito evidente porque é que é legítimo chamar a Aristóteles «máquina de pensar». A primeira ideia, às vezes até só a partícula mínima de uma ideia, arrasta consigo incontáveis roldanas, rodas dentadas que por sua vez servem para pôr outras em movimento. Ele tem uma noção e define-a até ao infinito, em todas as suas ínfimas aplicações e consequências, para em seguida definir o contrário delas, para as rodear de exemplos e para neste jogo ficarmos com o cerne das coisas. Uma coisa arrasta sempre outra. Até Aristóteles se devia fartar do carácter excessivamente lógico e analítico de Aristóteles. O que me assusta é como de forma tão lógica alguém possa definir tão claramente o que seja sentir medo em todas as suas variantes e circunstâncias, ou ira, ou calma, ou vergonha, ou piedade, coisas que pelo seu carácter são excessivamente vastas e vagas. Um dia alguém devia escrever um romance retirado ao Livro II da Retórica. Digo que não é uma ideia tão idiota quanto parece. Ou uma pequena peça de teatro. Alguém?

Tire uma hora para ouvir falar de um Judeu de Alexandria que esteve nas Origens da Cultura Ocidental

Na próxima quinta-feira, dia 24 de Fevereiro, pelas 14.30 na sala 5.2 da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, a professora Sofía Torallas Tovar, da Universidade Complutense de Madrid, dará uma lição subordinada ao tema «Língua e Cultura em Fílon de Alexandria». Esta conferência realiza-se no âmbito do Projecto «Fílon de Alexandria nas Origens da Cultura Ocidental» (FCT/CEC-FLUL).

Linguagem

soçobrando corro
ao encontro do seu horizonte
à luz das palavras
através de anos-sombra

o horizonte recua
perante o mundo
nenhuma queda livre no silêncio
por detrás assomam as palavras
chamam
pelo poema aos teus mortos

Eva Christina Zeller, Sigo a Água, Maria Teresa Dias Furtado (trad.), Relógio d'Água, 1996

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Sonho

Ardem os campos
o lago bebe brasas
chove cinza na aldeia
sem estrelas a noite dilui-se
nenhuma pedra fala
em silêncio levanta-se o vento

escapei
recordo que esqueci

Eva Christina Zeller, Sigo a Água, Maria Teresa Dias Furtado (trad.), Relógio d'Água, 1996

domingo, 20 de fevereiro de 2011

find words the way one finds blackberries in the woods

Uma vez ouvi uma entrevista, penso que de Dylan Thomas, em que ele dizia que era de desconfiar de todo o jovem poeta que dissesse que escrevia por sentir ter alguma coisa a dizer ao mundo. Porque ter alguma coisa a dizer era secundário, a primeira coisa era sempre a alegria de juntar palavras, de ver o que acontecia quando determinadas palavras eram colocadas lado a lado. A imagem que me ocorreu foi a de Penélope ao tear, juntando muitos e coloridos fios, fazendo e desfazendo até ao infinito a sua teia.
A entrevista de Dylan Thomas recordou-me uma outra, de Borges, dada à Paris Review, em que o autor dizia que a poesia é uma coisa anterior à inteligência. Comparando Frost e Eliot, Borges dizia que achava o primeiro melhor poeta do que o segundo, ainda que o segundo fosse um poeta mais inteligente.
Creio que o que Borges queria dizer (e penso até que isso é verbalizado nessa mesma entrevista, que pode ser lida no volume de entrevistas da Paris Review publicado pela Tinta-da-China) não é, evidentemente, que não houvesse espaço para inteligência em poesia, é que a poesia era uma coisa anterior a isso. Penso que esta ideia é já muito antiga, é intrínseca aos poemas homéricos e, de forma mais vaga e mais difícil de explicar, aos primeiros livros da Bíblia, está implícita na teorização de Platão sobre poesia na República (o poder pressentido que faz Platão considerar a poesia algo de perigoso) e é confirmada talvez pela argumentação de Lukács em certos passos da Teoria do Romance, quando ele descreve porque é que a filosofia vem dar o golpe final na possibilidade da épica.
É deste fascínio, que Borges fala, quando diz: But I would like to make it clear that if any ideas are to be found in what I write, those ideas came after the writing. I mean, I began by the writing, I began by the story, I began with the dream, if you want to call it that. And then afterwards, perhaps, some idea came of it. But I didn’t begin, as I say, by the moral and then writing a fable to prove it.
As palavras de Dylan Thomas, no entanto, falam de oficina. Do poeta enquanto criador, só depois dessa primeira prova, talvez, é que podemos ver se há alguma coisa a ser dita, alguma coisa que valha a pena ser ouvida por alguém. Tentei opor exemplos às palavras de Dylan Thomas, exemplos que as refutassem. Lembrei-me de Brecht e da sua poesia mais comprometida - campo por excelência do querer dizer alguma coisa. Mas depois pensei num poema chamado «Recordando Marie A.» que, entre outros, demonstra que também em Brecht está a primeira, anterior à inteligência, necessária alegria de juntar palavras. Pensei então em dois versos de um livro que li esta semana: Beyond the beastly din, beyond human vanity,/ find words the way one finds blackberries in the woods. Milan Djordjevic. Encontrar palavras como quem encontra amoras pelos bosques, tacteando o que quer encontrar por entre espinhos. A conclusão a que quero chegar é evidentemente a de que Dylan Thomas e Milan Djordjevic falavam ambos do mesmo. I am a gatherer of fruit, escrevia Lawrence Ferlinghetti noutro poema. E é isto.

Quai du Louvre, Paris, 1955