quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011
terça-feira, 8 de fevereiro de 2011
A arte dialéctica é mais bela quando
toma uma alma apta e nela planta e semeia discursos com entendimento – discursos capazes de vir em socorro de si mesmos e de quem os plantou, não improdutivos mas possuidores de gérmen, de que mais discursos nascem em outros temperamentos e podem tornar para sempre essa semente imortal, e assim conceder ao seu detentor o mais alto grau de felicidade que um ser humano pode ter.
Platão/Sócrates, Fedro, 277a, José Ribeiro Ferreira (trad.), Edições 70, 1997.
segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011
domingo, 6 de fevereiro de 2011
estate violenta
para Joseph K., tendo em conta que, como disse
Kierkegaard, citado por Agustina,
«Quando alguém escreve acerca dos acontecimentos
da sua própria vida, é regra de delicadeza
não dizer nunca a verdade, mas reservá-la para si
e permitir que só se reflicta de diversos ângulos.»
Kierkegaard, citado por Agustina,
«Quando alguém escreve acerca dos acontecimentos
da sua própria vida, é regra de delicadeza
não dizer nunca a verdade, mas reservá-la para si
e permitir que só se reflicta de diversos ângulos.»
I
como no poema de eugenio montale pensas agora
que subiram milhares de escadas de braço dado
imaginas nunca estarás certo que baste que dançaram
juntos através de todas as salas vazias destes
palácios desfeitos pela manhã os teus braços
em torno da sua cintura as mãos dela sobre os teus ombros
II
imaginas que talvez tivessem conversado entre intervalos
de música ou que já aí tivesses pressentido que o mar te cercava
que estava em torno de toda a casa que a árdua respiração
do vento àquela hora lançava contra as janelas mãos de areia
que a música te impedia de ouvir mas o que acontecia
era apenas a rapariga a segurar-te pelos ombros
III
como as marés no princípio das manhãs
as coisas que tememos esvanecem-se vão
para outros lugares tornaremos apenas a convocá-las
mais tarde todo esse exército de soldadinhos de chumbo
que de manhã afundaremos em água e deixaremos bater no fundo
IV
tornaremos a convocá-las apenas em caso de extrema necessidade
mas o que é a extrema necessidade de uma coisa que nos fira
não poderias dizê-lo não é sobre nada vantagem não é conhecimento
não tem a leveza de pés de rapariga que dançassem em
rasos sapatos pretos é um húmus que sobre o nosso chão está
e nada daí poderia ter nascido é uma maneira de noite
por isso de noite erras pela cidade atravessas as linhas de comboio
até ao mar em que quarto vazio poderias estar a dançar agora?
V
pensas que terão dançado como as personagens daquele filme de zurlini
conservamos o corpo depois de ter dançado mas o poema
depois de lido como disse leonard cohen contra homero
esvanece-se mas leonard cohen enganou-se um pouco porque
em algum lugar deve continuar a ser verdade que desci milhares
de escadas de braço dado contigo que em algum lugar o outro verso
de montale tal como o corrompemos continua a fazer sentido
«eu sei que devo perder-te [de novo] e não posso»
pois nem tudo se perde ficará a consolação de saber
que alguns poemas nos explicam
VI
e pensas que é estranho que não te possam exonerar
de sentir dor é estranho que algumas palavras não cumpram
a higiénica função de nos vestir que nos deixem mais sós
mais diante de nós nos espelhos palavras
que de toda a porcaria nos dispam nos deixem mais junto
ao coração da vida que como todos sabemos fica no chão
por isso encostas o ouvido ao solo como nos westerns
os fugitivos à espera de ouvir o comboio
de antecipar um sinal do que se segue
a angústia às vezes parece-se com isto
coisas que não podemos ouvir nem ver mas que
fatalmente em algum lugar sabemos que nos esperam
como os pés dela nos sapatos pretos baixos contra o chão
quando dançaram como personagens de zurlini ou apenas
como gente porque quanto menos significado melhor e o melhor
às vezes é que não nos assemelhemos a nada a ninguém
VII
e podes continuar a sentir-te cercado pelo mar
sem que nenhum mar te cerque podes esgotar
todos os caminhos da noite antes de tudo recomeçar
virá a manhã como um resgate e o café feito de novo
e terás na boca um gosto amargo que em breve se sumirá
à medida que enches de água a cafeteira e deitas café
no filtro e vês na janela uma mulher a estender em cordas lençóis
e todas as coisas que recordas se somem e tu respiras
como se estivesses em casa de novo e pela primeira vez
e nenhuma palavra te tivesse sido escrita na testa
e nenhum sinal pudesse permitir um reconhecimento
futuro e assim deo gratias é tarde terminemos
Tatiana Faia
sábado, 5 de fevereiro de 2011
sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011
Pequena raça
Little race living for a day
clamorous with pain,
see how fate presses
steadily against your hopes!
With length of years
a man runs trough his share of sorrows -
to live is to have
no certainty
Eurípides, «Orestes», The Complete Euripides, vol. II, John Peck & Frank Nisetich, Oxford University Press, 2010.
quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011
Ver
Menelaos: What is it? What sickness is destroying you?
Orestes: My own mind. It sees what I did.
Μενέλαος: τί χρῆμα πάσχεις; τίς σ᾽ ἀπόλλυσιν νόσος;*
Ὀρέστης: ἡ σύνεσις, ὅτι σύνοιδα δείν᾽ εἰργασμένος.
Eurípides, «Orestes», The Complete Euripides, vol. II, John Peck & Frank Nisetich, Oxford University Press, 2010.
*O texto grego reproduzido é o da edição de Gilbert Murray, o mesmo utilizado pelos tradutores.
Uma moeda de prata
Numa das cenas da Electra (de Eurípides), Orestes, pouco antes de ser reconhecido, diz ao antigo tutor do seu pai: «porque estudas o meu rosto como uma moeda de prata?». Na cena imediatamente anterior, Electra é tentada pelo camponês a quem fora confiada a reconhecer uma semelhança entre ela e o irmão em três objectos diferentes: a madeixa de cabelo que instantes antes fora depositada por um piedoso anónimo no túmulo de Agamémnon; no rasto de pegadas aí deixado; em qualquer peça de roupa que ela lhe pudesse ter dado quando ambos eram ainda crianças. Electra não encontra em nada disto semelhança rigorosamente nenhuma: o cabelo das mulheres cresce de modo diferente do dos homens; os pés dos homens são maiores; quando ela e o irmão se separaram eram tão jovens que nenhuma roupa que pudessem ter trocado lhe serviria agora.
Na procura de um sentido para o sinal de uma presença, Electra não vê nada e, sobretudo, não alimenta esperança nenhuma. É o ancião, que estuda o rosto de Orestes como se fosse «uma moeda de prata», que o há-de reconhecer, por meio de uma cicatriz no rosto, ferida feita em criança, numa qualquer brincadeira com Electra.
Penso que a cicatriz, assunto que pende entre os dois irmãos, tem um sentido duplo: ao mesmo tempo remete para proximidade entre ambos que existia já quando eram crianças e que fora interrompida (como uma ferida que se abre) e ao mesmo tempo é a marca quase invisível que torna Orestes inconfundível para quem o conhecesse. Os outros sinais que o acompanham, que o pudessem unir a Electra, tamanho dos pés, cabelo, roupa, são transitórios, contingentes. Orestes não poderia ser reconhecido em Argos por outra coisa que não uma marca na pele, um corte outrora feito na carne. E nisto penso que há uma semelhança, vaga, muito remota, com a forma como Ulisses é reconhecido em sua própria casa (a cicatriz no joelho, a este propósito cf. Erich Auerbach: «A cicatriz de Ulisses»). Uma forma perfeita de dizer que muito poucas coisas são de facto essenciais para que em tua casa te reconheçam. Por isso a Electra de Eurípides é este objecto ambíguo, oscilando entre o terrível (o acto por que/ para que estes dois irmãos se juntam de novo) e o terno (o amor que os une: cf. os versos em que se despedem um do outro), é, em última análise, um poema perfeitamente escrito na linha divisória entre a noite e o dia.
quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011
Nenhum terror
Electra: No terror one can name -
no suffering of any kind, no not even
affliction sent by a god, is so terrible
that human nature can't take it on.
Eurípides, «Orestes», The Complete Euripides, vol. II, John Peck & Frank Nisetich, Oxford University Press, 2010
Καλός καλός καλός
Electra: Hold me close, brother, let me hold you.
Oh how I love you!
One from the other, both from our home,
we're torn (...)
Oh how I love you!
One from the other, both from our home,
we're torn (...)
Ἠλέκτρα: περί μοι στέρνοις στέρνα πρόσαψον,
σύγγονε φίλτατε:
διὰ γὰρ ζευγνῦσ᾽ ἡμᾶς πατρίων
μελάθρων (...)
σύγγονε φίλτατε:
διὰ γὰρ ζευγνῦσ᾽ ἡμᾶς πατρίων
μελάθρων (...)
Estes são os versos com que Electra se despede de Orestes, na Electra de Eurípides. A tradução é a de Janet Lembke e Kenneth J. Reckford (The Complete Euripides, vol. II, Oxford University Press, 2010), o texto grego utilizado pelos tradutores é o de James Diggle (Oxford Classical Texts, 1981), nós reproduzimos aqui o que foi fixado Gilbert Murray e se encontra disponível no Perseus Digital Library (vv. 1321-1324). O grande defeito desta nova edição das tragédias completas de Eurípides feita pela Oxford, tanto quanto me parece, é o facto de não ser bilingue, o que, por outro lado, acarreta a vantagem de os livros não se tornarem demasiado volumosos (i.e., são transportáveis). Até agora, das tragédias lidas, diria que não só as traduções se lêem como óptima poesia (porque todas as traduções são em verso, há uma preocupação com manter um certo ritmo, etc.) como me parecem ser perfeitamente representáveis em língua inglesa.
terça-feira, 1 de fevereiro de 2011
Chorus:
I wish you joy. To spend life's fleeting days
mid joy that never meets an evil hour
is to be blessed beyond compare.
Estes são os três últimos versos da Electra de Eurípides, na tradução de Janet Lembke e Kenneth J. Reckford, em edição publicada pela Oxford University Press (The Complete Euripides, vol. II) no ano de 2010.
Orpheu e Eurydice
Juntos passavam no cair da tarde
Jovens luminosos muito antigos
Sophia, Musa, Caminho, 2004
Jovens luminosos muito antigos
Sophia, Musa, Caminho, 2004
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