segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

The Blessings of Madness

Professor Oesterreich once chewed a large quantity of laurel leaves in the interest of science, and was disappointed to find himself no more inspired than usual.

E.R. Dodds, The Greeks and the Irrational, «The Blessings of Madness», University of California Press, Berkeley and Los Angeles, 1951

'Mondscheinsonate' (Beethoven/ Daniel Barenboim)

Berlim




































Daqui.

Livro

O livro de Robert Duncan sobre H. D.

domingo, 30 de janeiro de 2011

Ponte de Spoleto

Sob os claros arcos da ponte romana
Onde ressoa ainda o passo das legiões imperiosas
Lá em baixo o leito do rio
Selvático e penumbroso
Interior às memórias insondáveis da alma

Maio de 1994

Sophia, Musa, Caminho, 2004

Elegia

Aprende
A não esperar por ti pois não te encontrarás

No instante de dizer sim ao destino
Incerta paraste emudecida
E os oceanos depois devagar te rodearam

A isso chamaste Orpheu Eurydice -
Incessante intensa lira vibrava ao lado
Do desfilar real dos teus dias
Nunca se distingue bem o vivido do não vivido
O encontra do fracasso -
Quem se lembra do fino escorrer da areia na ampulheta
Quando se ergue o canto
Por isso a memória sequiosa quer vir à tona
Em procura da parte que não deste
No rouco instante da noite mais calada
Ou no secreto jardim à beira-rio
Em Junho

1994
Sophia, Musa, Caminho, 2004

sábado, 29 de janeiro de 2011

Uma questão geracional

No primeiro diálogo entre Electra e Orestes, quando ela ainda não sabe quem ele é, Electra diz, ao recordar Clitemnestra, que as mulheres amam os seus homens, não os seus filhos. É um verso que nomeia a motivação para a crueldade  e para o pragmatismo que Clitemnestra exibe para com os dois filhos depois de lhes ter morto o pai e ao mesmo tempo fala da condição desgraçada a que foram condenados os dois irmãos (um tem de abandonar, ainda muito jovem, a cidade para escapar à morte, a outra é unida a um camponês, na versão de Eurípides pobre mas honesto, muito abaixo da sua condição para que a sua linhagem não venha a ameaçar os futuros filhos de Clitemnestra e Egisto). Este único verso é toda uma explicação. 
O que importa notar, contudo, é que na explicação encontrada por Electra  não  se alude à maldição que pesava sobre a casa dos Tantálidas, a uma força maior que tenha condenado Clitemnestra a agir, isto é, a  matar Agamémnon porque este antes tinha sacrificado a sua filha Ifigénia. Sucede, contudo, que quando Agamémnon sacrifica Ifigénia, para que em Áulis soprem vento favoráveis que permitam à armada partir para Tróia, há um momento em que Agamémnon hesita e conclui que «sorte pesada é não obedecer» aos deuses. A visão que Electra tem do acto da mãe é de outra índole. Pode-se argumentar que não podia ser outra, porque qualquer outra poderia ser uma forma de justificar ou desculpar Clitemnestra, despir o crime praticado da sua forma de crime, torná-lo outra coisa, que, consequentemente, tornaria também Clitemnestra outra coisa
A forma como Electra vê Clitemnestra é apenas lúcida e pragmática. Nenhum deus a determinou, ela, como todas as mulheres, amou mais a um homem do que aos seus filhos. E sublinhe-se ainda que Egisto não vale metade da sombra de Clitemnestra, dos dois ela é mais complexa, mais inteligente, mais desafiante (parece-me que isto é válido tanto em Ésquilo quanto em Eurípides). Mas entre estas palavras de Electra e quem Electra é para Eurípides há o espaço para o sorriso de amarga, e ao mesmo tempo quase terna, ironia do dramaturgo. Electra, proporcionalmente, é uma filha que ama mais os seus homens (primeiro o pai, Agamémnon, e depois o irmão, Orestes, morto o pai garante da perpetuação da linhagem) do que ama a mãe. A medida com que ela julga Clitemnestra teria servido para a julgar a ela própria. O motivo pelo qual ela condena a outra mulher serviria para condená-la a ela. Mas há este desfazamento no tempo, Clitemnestra teve o seu tempo e agora é o tempo de Electra.

Aquelas cujos ombros se extinguiram

Aquelas cujos ombros se extinguiram
Contra os muros dum quarto misterioso
Onde há uma janela voltada para longe

Aquelas em cujos olhos não há cor
À força de fitarem o vazio
Que vai e vem entre o horizonte e elas

Aquelas cujo desespero cai
De todo o céu a pique sobre a terra,
Imutável e completo, igual
Ao silêncio do mar sobre os naufrágios.

Elas são aquelas que esperaram
Que todas as promessas se cumprissem
E nos deuses cegos confiaram.

Sophia, Dia do Mar, Caminho, 2005

quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Tarde

O que eu queria dizer-te nesta tarde
Nada tem de comum com as gaivotas.

Sophia, No Tempo Dividido, Caminho, 2005

V Inverno

Parece que eternamente sobre a terra
Choverá desolação e frio
A mesma neve de horror desencarnada
A mesma solidão dentro das casas

Sophia, No Tempo Dividido, Caminho, 2005

IV

Na minha vida há sempre um silêncio morto
Uma parte de mim que não se pode
Nem desligar nem partir nem regressar
Aonde as coisas eram uma intimamente
Como no seio morno de uma noite

Sophia, No Tempo Dividido, Caminho, 2005

quarta-feira, 26 de janeiro de 2011

Leonard Cohen, Entrevista

Não pode recordar-se

Pensei naqueles versos no Hino Homérico a Dioniso ...οἱ δέ σ᾽ ἀοιδοὶ/ ᾁδομεν ἀρχόμενοι λήγοντές τ᾽: οὐδέ πῃ ἔστι/ σεῖ᾽ ἐπιληθομένῳ ἱερῆς μεμνῆσθαι ἀοιδῆς... em que se diz «que nós os poetas, começando e terminando todos te cantamos, quem quer que te esqueça não pode recordar-se de um canto sagrado (a tradução é mais ou menos esta, com uma ou outra pequena variação)». Homero diz que um poeta não pode recordar o caminho do canto se se esquecer do deus das colheitas, do vinho, da loucura, da dança, da origem do teatro. As coisas concretas (o vinho, as colheitas) de que Dioniso era o deus tutelar eram coisas rituais, ligadas à passagem das estações na terra. Também a dança, a loucura ritual eram coisas investidas de um carácter tão sagrado e inexplicável como o tempo que passa e consigo traz de novo o momento das colheitas, a força que brota da terra quando ela caminha para o ocaso, para o tempo do outono. Mas esta é uma força ambígua, porque ambíguo é Dioniso, deus estrangeiro, duas vezes nascido, filho secreto de Zeus e de Sémele. Uma força que tem uma parte de destruição e morte e ao mesmo tempo uma infinita sedução, uma promessa de belo, renovação, gestos rituais, por vezes nem saberíamos dizer porquê, coisas que nos afastam um pouco dos nossos lugares no mundo para que com ele infalivelmente nos tornemos a encontrar. Homero quando escreveu aqueles versos, pensei que falava também desta força de atracção.

Caderno I

Quando me perco de novo neste antigo
Caderno de capa preta de oleado -
Que um dia rasguei com fúria e que um amigo
Folha a folhar recolou com vagar e paciência -

Tudo me dói ainda como faca e me corta
Pois diante de mim estão como sussurro e floresta
As longas tardes as misturadas noites
Onde divago e divagam incessantemente
Os venenosos perfumes mortais da juventude

E dói-me a luz como um jardim perdido

Sophia, O Nome das Coisas, Caminho, 2004

terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Regressarei

Eu regressarei ao poema como à pátria à casa
Como à antiga infância que perdi por descuido
Para buscar obstinada a substância de tudo
E gritar de paixão sob mil luzes acesas

Sophia, O Nome das Coisas, Caminho, 2004

"Penny Lane"

Esteira e cesto

No entrançar de cestos ou de esteira
Há um saber que vive e não desterra
Como se o tecedor a si próprio se tecesse
E não entrançasse unicamente esteira e cesto

Mas seu humano casamento com a terra

Sophia, O Nome das Coisas, Caminho, 2004

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011


An object

This thing, that hath a code and note a core,
Hath set acquaitance where might been affections,
And nothing now
Disturbed his reflections.

Ezra Pound, Personae: The Collected Shorter Poems, Faber & Faber, 1990.