segunda-feira, 10 de janeiro de 2011

Pouca gente

O homem que, um dia, em tribunal, entre o enfadado e o colérico, exclamou "Emma Bovary c'est moi", escreveu também, numa carta a uma senhora chamada Louise Coulet: "Peu de gens devineront combien il a fallu être triste pour ressusciter Carthage". Flaubert fala nesta citação do seu romance realista e, o que é aparentemente paradoxal, histórico, Salammbô. Ao falar desta uma tristeza colocada ao serviço da tarefa de ressuscitar uma cidade inteira, não a imaginação, Flaubert fala de uma coisa vital. 
Conta-nos talvez Políbio, que caminhou por quase tudo o que foi destruição no seu tempo e esteve com Cipião, o Africano, no cerco desta cidade, que (depois de conquistada, mortos os homens e as crianças, violadas as mulheres, tudo lançado ao fogo) o exército romano salgou toda a terra em redor das muralhas, para que nada voltasse a crescer. É um gesto de tanto ódio. 
Do sal, do ódio, da cinza ergue Flaubert o espectáculo feérico de uma cidade inteira, apenas para que esta torne a perecer, a ser arrasada, como se convocar a cidade convocasse de novo o tempo da sua destruição, daí talvez essa precisa tristeza de que ele falava.

Isto para um tipo bater a bota é do melhor



Tirado daqui.

Rising

domingo, 9 de janeiro de 2011


Por vezes, muito raramente

Quando pouco na vida nos consola
do tempo, esse verdugo indiferente,
por vezes, muito raramente, na monotonia da noite,
entre repetidos sonhos, surge uma imagem
que reflecte o desejo que deixamos aí
e um rosto - a sua remota aparência - reconstrói
um intenso instantâneo da felicidade.
Quando tão misterioso privilégio nos chega,
acordar em seguida é viver o inferno:
não aquele jogo grotesco de chamas e demónios,
mas o demónio da luz de novo,
o fogo do primeiro cigarro.

Juan Luis Panero, Poemas, Joaquim Manuel Magalhães (tradução e prefácio), Relógio d'Água, 2003.

sábado, 8 de janeiro de 2011

O comboio do esquecimento

(Homenagem a Max Ophüls)

Eu que fui quase uma rainha, sim, fui uma rainha!,
e tive a Baviera e o seu rei a meus pés.
Eu, a condessa de Lansfeld, Lola Montes para outros,
por quem Franz Liszt havia sonhado no seu piano,
como haviam sonhado tantos e esse sonho os redime,
avanço agora, será que avanço?, neste comboio,
por paragens inóspitas, lamaçais e pós.
Não soam aos meus ouvidos os violinos de Munique,
nem os pássaros do entardecer nas folhagens romanas,
apenas portas que rangem, vidros que estremecem
e as pesadas rodas que fustigam o metal.
Chegaremos a um povoado - todos são iguais -
sujidade e ruído, bêbados e bastardos
são a essência e o símbolo desta nova fronteira.
Mineiros e camponeses, pistoleiros e jogadores de profissão
beijarão as minhas mãos, hão-de querer tocar-me,
por um mínimo preço, aproximar-me dos deuses.
Neste comboio de madeira e miséria
que vem do nada e para lado nenhum vai,
entre campos monótonos e aldeias de barracas,
eu, Lola Montes, condessa de Lansfeld,
ensaio a única expressão que aprendi na vida:
um ricto de desprezo e uns olhos sem tempo,
que se perdem na noite, no comboio do esquecimento.

Juan Luis Panero, Poemas, Joaquim Manuel Magalhães (tradução e prefácio), Relógio d'Água, 2003.

Kagemusha (1980)


Se eu tivesse de dar nota daria, hmm, digamos, um 9/10.

Também as capas são perfeitas







sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Arte poética

A longa, lenta língua da morte
lambeu a mão daquele que escreve,
lucidez ou loucura, ninguém sabe:
só restam palavras, palavras que se desfazem.

Juan Luis Panero, Poemas, Joaquim Manuel Magalhães (tradução e prefácio), Relógio d'Água, 2003.

quinta-feira, 6 de janeiro de 2011

To return again

Ela passava - cerimoniosamente - as páginas de um jornal
- um jornal em espanhol, comprado em Victoria Station -.
Ele olhava pela janela para os últimos bairros,
a cidade apagando-se por detrás, a precária luz de outono.
Ela lia - minuciosamente - a página da necrologia,
ele olhava agora o campo: cavalos e ovelhas,
o vento nos ramos, paisagens de Constable.
Ela comentava histórias de imprensa, os casos do dia,
ele recordava uma criança atónita, em silêncio,
- havia séculos, numa casa de Eaton Square.
Noutro tempo, com outra mulher,
a passagem do Tamisa na margem cinzenta.
Passavam as páginas do jornal
e passavam corpos e camas,
uma mulher despida que se ria
com hálito de vodka e tabaco.
O comboio chegava ao seu destino e ela acabou a leitura.
Debaixo do assento daquele comboio
- entre Londres e Dover - ficaram abandonados
um amarrotado jornal em desordem
e cinquenta anos da vida de um homem.

Juan Luis Panero, Poemas, Joaquim Manuel Magalhães (tradução e prefácio), Relógio d'Água, 2003.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Onde dormitavam tardes

Em manhãs de muita luz, Adélia voltava abrasada como Pomona, regressava do esplendor do dia e despejava o cesto com todas as belezas coloridas do sol. Começava pelas cerejas brilhantes, inchadas de água por baixo da pele fina e transparente, as misteriosas ginjas negras com um sabor que não cumpria todas as promessas do cheiro, os damascos de polpa amarela onde dormitavam tardes longas e abrasadoras (...)
Bruno Schulz, As Lojas de Canela, Aníbal Fernandes (trad.), Assírio & Alvim, 1987.

Antes que chegue a noite

Antes que chegue a noite sobre o mar
e atire o vento da nortada
as minhas húmidas cinzas para o nada.
Antes que os gastos gestos se dissolvam,
tal como um sorriso que se transforma em esgar
ou os cansados espasmos de um amor extinto.
Antes, ainda, como este sol sobre as ilhas,
tenaz ponto de luz, cor intensa,
que minhas palavras desenhem meu fantasma,
salvo e perdido, na pura intensidade da vida.

Juan Luis Panero, Poemas, Joaquim Manuel Magalhães (tradução e prefácio), Relógio d'Água, 2003.

terça-feira, 4 de janeiro de 2011

O que tu tens da andorinha (II)


«O que tu tens da andorinha/ é a errância pouco austera;/ o que para mim, que me sentia e era/ velho, anunciava uma outra primavera.» Umberto Saba

O que há para amar nestes versos é a maneira como neles se insinuam, sem se anularem, três formas de movimento, o facto de ser tua a errância pouco austera da andorinha, o que com tanta concisão fala da forma leve e quase leviana como te moves e é uma evocação de juventude mas também de inconstância, a forma como isso contrasta comigo, que me «sentia e era velho», eu com a minha imobilidade de pedra de velho, e, afinal e por remate, como deste contraste se ergue a visão inteira e intacta da primavera. Por meio desta densa concisão se demonstra que era Umberto Saba grande poeta. Mas, na verdade, tudo isto serve apenas para dizer que nunca mais é Março.

Apesar dos contínuos avisos

«a resistência da poesia em desaparecer, apesar dos contínuos avisos de morte próxima que se repetem há dois mil anos. Quem sabe se nesta longa agonia, que já dura tanto quanto o nosso mundo e a nossa civilização, não está a chave da sua existência e do interesse que alguns poetas despertam.»
Juan Luis Panero, excerto de Los Mitos e las Máscaras, in Poemas, Joaquim Manuel Magalhães (tradução e prefácio), Relógio d'Água, 2003.

domingo, 2 de janeiro de 2011

os pensamentos traduzidos

entreguemo-nos à aparente clareza dos actos, que são os pensamentos traduzidos, ainda que na passagem destes para aqueles sempre algumas coisas se tirem e se acrescentem, o que finalmente virá a significar que sabemos tão pouco do que fazemos como do que pensamos.
José Saramago, História do Cerco de Lisboa, Caminho, 2008 (8ª edição).

"Six feet under", série 3, episódio 4














Russel: But what is success? Is it just money or fame? Or is it the critics loving you? Or is it you knowing that you've done good work...

Capella Strozzi

Analfabetos, entendiam
sem esforço os bonequinhos
na parede, os episódios
aludidos nas vinhetas,
seus ditados e sinais.
Tudo claro, para eles,
tudo íntimo e solene,
nutritivo como pão.

Nós,letrados, percebemos
só depois de compulsar
o Amador Hagiográfico
ou catálogos de símbolos.
Para nós é tudo vago,
duvidoso. Só as formas
nos consolam, e as cores,
a impostura da beleza.

José Miguel Silva, Erros Individuais, Relógio d'Água, 2010.