sexta-feira, 10 de dezembro de 2010
quinta-feira, 9 de dezembro de 2010
(uma imagem)
a vertigem imóvel do adolescente desenterrado
que irrompe à minha frente enquanto escrevo
e caminha de novo, multisó na sua solidão, por
ruas e praças desmoronadas mal as digo
e se perde de novo em busca de tudo e de todos,
de nada e de ninguém
Octavio Paz, "1930: Fixos Desígnios", Árvore Adentro, Luís Alves da Costa (trad.), Vega, 1994
que irrompe à minha frente enquanto escrevo
e caminha de novo, multisó na sua solidão, por
ruas e praças desmoronadas mal as digo
e se perde de novo em busca de tudo e de todos,
de nada e de ninguém
Octavio Paz, "1930: Fixos Desígnios", Árvore Adentro, Luís Alves da Costa (trad.), Vega, 1994
A diferença inicial que separa a noite da madrugada
Quando só uma visão mil vezes mais aguda do que a pode dar a natureza seria capaz de distinguir no oriente do céu a diferença inicial que separa a noite da madrugada, o almuadem acordou. Acordava sempre a esta hora, segundo o sol, tanto lhe fazendo que fosse verão como inverno, e não precisava de qualquer artefacto para medir o tempo, nada mais que uma mudança infinitesimal na escuridão do quarto, o pressentimento da luz apenas adivinhada na pele da fronte, como um ténue sopro que passasse sobre as sobrancelhas ou a primeira e quase imponderável carícia que, (continuem a ler por vós, que isto está na pág. 17)
José Saramago, História do Cerco de Lisboa, Caminho, 2008 (8ª edição).
Lobo Antunes tem um momento parecido com este, ao dizer, nem me lembro já onde, «acordo ao som da luz».
Este lado
A Donald Sutherland
Há luz. Não a tocamos nem vemos.
Nas suas ocas claridades,
repousa o que vemos e tocamos.
Eu vejo com as polpas dos dedos
o que palpam meus olhos:
------------------sombras, mundo.
Com as sombras, desenho mundos,
dissipo mundos com as sombras.
Oiço pulsar a luz do outro lado.
Nas suas ocas claridades,
repousa o que vemos e tocamos.
Eu vejo com as polpas dos dedos
o que palpam meus olhos:
------------------sombras, mundo.
Com as sombras, desenho mundos,
dissipo mundos com as sombras.
Oiço pulsar a luz do outro lado.
Octavio Paz, Árvore Adentro, Luís Alves da Costa (trad.), Vega, 1994
quarta-feira, 8 de dezembro de 2010
Almuadem
A verdade histórica, aprenda-o, é que os almuadens eram escolhidos entre os cegos, não por humanitária política de emprego ou encaminhamento profissional fisiologicamente adequado, mas para que não pudessem devassar a intimidade dos pátios e açoteias que, do alto da almádena, em figura. O revisor já não se recorda de como o soube, certamente o terá lido em livro digno de confiança, que o tempo não emendou, por isso pode insistir agora que os almuadens eram cegos, sim senhor. Quase todos. Apenas, quando em tal lhe acontece pensar, não consegue repelir de si uma dúvida, se a esses homens não lhes furariam os olhos lúcidos, como se fazia e talvez se faça ainda aos rouxinóis, para que da luz não conhecessem outra manifestação que uma voz ouvida nas trevas, a sua, ou, porventura, a daquele Outro que não sabe mais que repetir as palavras que vamos inventando, estas com que tentamos dizer tudo, bendição e maldição, até o nome que não terá nunca, inominável.
José Saramago, História do Cerco de Lisboa, Caminho, 2008 (8ª edição).
IV
Para esperar a noite, estendi-me
à sombra de uma árvore de palpitares.
A árvore é mulher, e em sua folhagem,
ouço o mar pela tarde a rolar.
Como seus frutos com sabor a tempo,
frutos de olvido e conhecimento.
Sob a árvore, olham-se e tocam-se
imagens, ideias e palavras.
Pelo corpo voltamos ao começo,
espiral de quietude e movimento.
Sabor, saber mortal, pausa finita,
tem princípio e fim - e nula medida.
A noite entra e cobre-nos de marés;
repete-lhe, já negras, o mar as suas sílabas.
Octavio Paz, Árvore Adentro, Luís Alves da Costa (trad.), Vega, 1994
à sombra de uma árvore de palpitares.
A árvore é mulher, e em sua folhagem,
ouço o mar pela tarde a rolar.
Como seus frutos com sabor a tempo,
frutos de olvido e conhecimento.
Sob a árvore, olham-se e tocam-se
imagens, ideias e palavras.
Pelo corpo voltamos ao começo,
espiral de quietude e movimento.
Sabor, saber mortal, pausa finita,
tem princípio e fim - e nula medida.
A noite entra e cobre-nos de marés;
repete-lhe, já negras, o mar as suas sílabas.
Octavio Paz, Árvore Adentro, Luís Alves da Costa (trad.), Vega, 1994
terça-feira, 7 de dezembro de 2010
an unmirrored, unreflected innocence of heart and mind
This story took no more than perhaps ten minutes to tell, and when it was over -- the senseless, needed destruction of twenty-seven years in tewnty-four hours -- one thought foolishly: Everyone, everyone should have his day in court. Only to find out, in the endless sessions that followed, how difficult it was to tell the story, that -- at least outside the transforming realm of poetry -- it needed a poetry of soul, an unmirrored, unreflected innocence of heart and mind that only the righteous possess.
Hannah Arendt, Eichmann in Jerusalem: A Report on the Banality of Evil, Penguin Classics, 2006
segunda-feira, 6 de dezembro de 2010
Primavera
Primavera que a mim me não agradas, quero
de ti dizer que passando a esquina
de uma rua, o teu presságio me feria
como uma lâmina. A sombra ainda leve
dos ramos nus na terra ainda
nua perturba, como se também eu pudesse
devesse
renascer. A tumba
parece insegura quando tu te apressas, antiga
primavera, que mais do que qualquer estação
cruelmente ressuscitas e matas.
Umberto Saba, Poesia, Tradução de José Manuel de Vasconcelos, Assírio & Alvim, 2010.
de ti dizer que passando a esquina
de uma rua, o teu presságio me feria
como uma lâmina. A sombra ainda leve
dos ramos nus na terra ainda
nua perturba, como se também eu pudesse
devesse
renascer. A tumba
parece insegura quando tu te apressas, antiga
primavera, que mais do que qualquer estação
cruelmente ressuscitas e matas.
Umberto Saba, Poesia, Tradução de José Manuel de Vasconcelos, Assírio & Alvim, 2010.
domingo, 5 de dezembro de 2010
ao engano
para Ana de Sousa Vitorino
devagar estou desfazendo como um gato o novelo mas
sem a fúria pertinaz do gato vem e dá-me pelo pescoço
mão que sufoca ou poeira para uma distância levando-me
hesitante por um braço dia de muito calor
na berma da estrada o aprumo que mostram
os velhos nos seus negros coletes lendo o jornal
ficaram nas aldeias de onde subimos à cidade
de lisboa que não é mais que uma escada que desce junto ao rossio
os limoeiros deixámos e viemos eles quando florescendo
guardaram-nos uma alegria terna de flores como se alguém que dançando
tropeçasse nos próprios pés pisasse no risco de giz o chão
como tu que a música sobre a laje um pouco mais alta
pisas e dás por ti de novo subindo o azul nas escadas
com modos furtivos como para roubar qualquer coisa
o quê não importa e eu digo que me vendesses qualquer coisa
porque minha é uma alma comercial dessas que se alegram
na troca de pequenas ninharias como lápis de cor e penas coloridas
ou por exemplo a moeda em êleusis trocada por outra moeda
eu teria já um óbolo ao engano como a mão crispada
no bolso cerzido em êleusis traição perpetrada quando somos
ao engano o princípio do mistério somos nós
bafejando baixo na mão um novelo de linhas
amarelo mas sempre outra coisa outra coisa
com toleráveis fios de lã nos ataram as mãos o vinho amargo na boca
nunca havemos nós de tolerar o destino que nos foi imposto
Tatiana Faia
Mediterrânea
Penso num longíquo mar, num porto, nas secretas
ruas desse porto; no que outrora neles era,
e no que hoje aqui sou, e aos deuses as mãos
suplicantes ergo, para que me não castiguem
por uma última vitória que desejo tanto
(mas o coração, por doçura, mal sentia);
penso na sereia sombria
- beijos, embriaguez, delírio -; penso em Ulisses
que aí de um leito triste se levanta.
Umberto Saba, Poesia, Tradução de José Manuel de Vasconcelos, Assírio & Alvim, 2010.
ruas desse porto; no que outrora neles era,
e no que hoje aqui sou, e aos deuses as mãos
suplicantes ergo, para que me não castiguem
por uma última vitória que desejo tanto
(mas o coração, por doçura, mal sentia);
penso na sereia sombria
- beijos, embriaguez, delírio -; penso em Ulisses
que aí de um leito triste se levanta.
Umberto Saba, Poesia, Tradução de José Manuel de Vasconcelos, Assírio & Alvim, 2010.
sábado, 4 de dezembro de 2010
Contovello
Um homem rega o campo. Depois desce
tão inclinada no monte uma escadinha,
e que parece, quando avança, vizinha,
do vazio. O mar a seus pés num corropio.
Aparece de novo. Afadiga-se ainda à volta
do retalho de cinzenta terra, juncada
de tojo, à flor da rocha. Sentado
na taberna, bebo este àspero vinho.
Umberto Saba, Poesia, Tradução de José Manuel de Vasconcelos, Assírio & Alvim, 2010.
tão inclinada no monte uma escadinha,
e que parece, quando avança, vizinha,
do vazio. O mar a seus pés num corropio.
Aparece de novo. Afadiga-se ainda à volta
do retalho de cinzenta terra, juncada
de tojo, à flor da rocha. Sentado
na taberna, bebo este àspero vinho.
Umberto Saba, Poesia, Tradução de José Manuel de Vasconcelos, Assírio & Alvim, 2010.
sexta-feira, 3 de dezembro de 2010
Três cidades
1 Milão
Entre as tuas pedras e as tuas brumas estou
em vilegiatura. Descanso na Piazza
del Duomo. Em lugar
de estrelas
todas as noites se acendem palavras.
Nada descansa tanto da vida como
a vida.
2 Turim
Regressarei à cercadura amável
dos teus montes, às ruas que se prolongam
como sons vibrantes. Logo depois num estranho
silêncio fugirei de reuniões, de amigos.
Mas procurarei o soldado Salamano,
o mais duro em palavras, o mais agarrado
ao dever, que em si mostra a tua virtude como um espelho.
Procurarei a oficina onde ele vai ficando velho.
3 Florença
Para abraçar o poeta Montale
- bem generosa é a sua tristeza - estou
na cidade que me foi querida. É como
se cada pedra que o pé pisa fosse
o meu coração, a minha dor
de outrora. Mas não sinto saudade.Nasce
- outra constelação - uma outra idade.
Umberto Saba, Poesia, Tradução de José Manuel de Vasconcelos, Assírio & Alvim, 2010.
Entre as tuas pedras e as tuas brumas estou
em vilegiatura. Descanso na Piazza
del Duomo. Em lugar
de estrelas
todas as noites se acendem palavras.
Nada descansa tanto da vida como
a vida.
2 Turim
Regressarei à cercadura amável
dos teus montes, às ruas que se prolongam
como sons vibrantes. Logo depois num estranho
silêncio fugirei de reuniões, de amigos.
Mas procurarei o soldado Salamano,
o mais duro em palavras, o mais agarrado
ao dever, que em si mostra a tua virtude como um espelho.
Procurarei a oficina onde ele vai ficando velho.
3 Florença
Para abraçar o poeta Montale
- bem generosa é a sua tristeza - estou
na cidade que me foi querida. É como
se cada pedra que o pé pisa fosse
o meu coração, a minha dor
de outrora. Mas não sinto saudade.Nasce
- outra constelação - uma outra idade.
Umberto Saba, Poesia, Tradução de José Manuel de Vasconcelos, Assírio & Alvim, 2010.
quinta-feira, 2 de dezembro de 2010
Lugar de Fruta
Verduras, fruta, cores da bela
estação. Algumas cestas onde à sede
se revelam doces polpas cruas.
Entra um miúdo com as pernas nuas,
altivo, mas logo foge.
.................................Escurece
a humilde lojeca, envelhece qual
uma mãe.
..................................E lá fora, ele, ao sol,
afasta-se ligeiro com a sua sombra atrás.
Umberto Saba, Poesia, Tradução de José Manuel de Vasconcelos, Assírio & Alvim, 2010.
estação. Algumas cestas onde à sede
se revelam doces polpas cruas.
Entra um miúdo com as pernas nuas,
altivo, mas logo foge.
.................................Escurece
a humilde lojeca, envelhece qual
uma mãe.
..................................E lá fora, ele, ao sol,
afasta-se ligeiro com a sua sombra atrás.
Umberto Saba, Poesia, Tradução de José Manuel de Vasconcelos, Assírio & Alvim, 2010.
mais vos dirá o seco Tucídides, do que o artificioso Xenofonte*
Parece que finalmente acabaram os rumores. No próximo dia 16 de Dezembro, por volta das 18h30, no Museu Calouste Gulbenkian, será lançada a primeira tradução portuguesa, feita a partir do original grego, da (única) obra de Tucídides - História da Guerra do Peloponeso. A tradução foi feita por Raul Miguel Rosado Fernandes e por M. Gabriela P. Granwehr.
Esta notícia em termos futebolísticos equivalerá eventualmente a isto:
*É um verso de Giánnis Ritsos.
quarta-feira, 1 de dezembro de 2010
O que tu tens da andorinha, disse-o Umberto Saba
O que tu tens da andorinha
é a errância pouco austera;
o que para mim, que me sentia e era
velho, anunciava uma outra primavera.
Umberto Saba, Poesia, Tradução de José Manuel de Vasconcelos, Assírio & Alvim, 2010.
é a errância pouco austera;
o que para mim, que me sentia e era
velho, anunciava uma outra primavera.
Umberto Saba, Poesia, Tradução de José Manuel de Vasconcelos, Assírio & Alvim, 2010.
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