domingo, 31 de outubro de 2010
sábado, 30 de outubro de 2010
Todo o Anjo é terrível
Se eu gritar, quem poderá ouvir-me, nas hierarquias
dos Anjos? E, se até algum Anjo de súbito me levasse
para junto do seu coração: eu sucumbiria perante a sua
natureza mais potente. Pois o belo apenas é
o começo do terrível, que só a custo podemos suportar,
e se tanto o admiramos é porque ele, impassível, desdenha
destruir-nos. Todo o Anjo é terrível.
dos Anjos? E, se até algum Anjo de súbito me levasse
para junto do seu coração: eu sucumbiria perante a sua
natureza mais potente. Pois o belo apenas é
o começo do terrível, que só a custo podemos suportar,
e se tanto o admiramos é porque ele, impassível, desdenha
destruir-nos. Todo o Anjo é terrível.
Rainer Maria Rilke in «Primeira Elegia», As Elegias de Duíno, Maria Teresa Dias Furtado (trad.) Assírio & Alvim, 2002
sexta-feira, 29 de outubro de 2010
Falemos da hostilidade
Falaremos da hostilidade que Bloom,Gonçalo M. Tavares, Uma Viagem à Índia, Canto I, 10
o nosso herói,
revelou em relação ao passado,
levantando-se e partindo de Lisboa
numa viagem à Índia, em que procurou a sabedoria
e o esquecimento.
E falaremos do modo como na viagem
levou um segredo e o trouxe, depois, quase intacto.
quinta-feira, 28 de outubro de 2010
Na parede havia um calendário
Na parede havia um calendário parado em julho de mil novecentos e trinta e cinco, daguerreótipo que o bolor devorara, lamparinas de azeite, santinhos, uma ovelha de barro ao centro da mesa a passar o seu oval de crochet, até eu juntar dinheiro para uma casa na Cuca, meter cinco dias de férias e te levar comigo para uns lençóis como estes em que definho à tua espera, submergido pela bronquite do marujo e por barlaventos e sotaventos que ignoro e me angustiam, por brisas de tempestade, por promontórios intactos procurados pela tremura exaltada das bússolas.
António Lobos Antunes, As Naus, D. Quixote, 2006.
quarta-feira, 27 de outubro de 2010
Lixboa
mas palavra que nunca pensei que Lixboa fosse este dédalo de janelas de sacada comidas pelos ácidos do Tejo, as vacas sagradas destes rebanhos de eléctricos, estas mercearias de saquinhos de amêndoas e de garrafas de licor, palavra que imaginava obeliscos, padrões, mártires de pedra, largos percorridos pela brisa sem destino da aventura, em vez de travessas gotosas, de becos reformados e de armazéns nauseabundos, palavra que imaginava uma enseada repleta de naus aparelhadas que rescindiam a noz-moscada e a canela, e afinal encontrei apenas uma noite de prédios esquecidos a treparem para um castelo dos Cárpatos pendurados no topo, uma ruína com ameias em cuja hera dormiam gritos estagnados de pavões.
António Lobo Antunes, As Naus, D. Quixote, 2006
terça-feira, 26 de outubro de 2010
Apontamentos, um post grande
Diz que D. João V gostava de fazer as coisas em grande. No que toca a embaixadas, ficou famosa a que enviou ao Papa Clemente XI, entre 1712 e 1718, encabeçada num primeiro momento por Rodrigo de Meneses, marquês de Fontes, e na recta final por André de Mello e Castro, que mais tarde seria conde de Galveias e Vice-Rei do Brasil.
But I digress. Convém só dizer que o Mello e Castro estava já em Roma antes mesmo de começar oficialmente a embaixada, como enviado especial, a tentar arranjar maneira de compensar o orgulho ferido do monarca - por não ter conseguido meter o bedelho diplomático na salganhada do rescaldo da Guerra da Sucessão Espanhola - com qualquer coisa jeitosa e que brilhasse, tipo a promoção da diocese de Lisboa a igreja patriarcal, o que a bem dizer dá sempre jeito. Algo assim.
But I digress. O essencial é que o tal Mello e Castro vivia ao pé da Piazza Argentina, actual Largo di Torre Argentina (nada a ver com o país, parece que vivia lá um mestre de cerimónias papal chamado Giovanni Burcardo -vá-se lá saber o nome verdadeiro do homem - que era de Estrasburgo, aka Argentoratum), onde há ainda hoje um certo Teatro Argentina (falta de imaginação).
But I digress. O que é mesmo importante é que parece que esse teatro só foi inaugurado em 1732 mas que antes havia aí alguma coisa vagamente reminiscente de um teatro. Ora, tendo em mente a má fama de tais casas por essa altura, sou capaz de começar a pensar que o pré-conde de Galveias era, afinal, um pândego, se tiver também em conta que o dito organizou uma série de festas e espétaculos na tal espécie de teatro pelos anos em que pedinchava um patriarcado ao papa.
But I digress. O busílis está no facto que sua Excelência o Enviado Especial quase Embaixador gostava de convidar os amigos todos para esses eventos - leia-se, tudo o que fosse português e se encontrasse em Roma ou lá perto - , naturalmente implicando-se uma borla. E mais: fazia saber por todos os meios possíveis a sua nobre e patriótica intenção. Era só aparecer à porta, explicar que se era português, e entrar.
O desfecho, como seria aliás de se prever, é que Roma no século XVIII revelou ter mais portugueses do que Paris em 69 ou Lisboa anteontem. Não invejo o porteiro que teve que aturar infinitos "ma' io sou potoghesh! Lisboa! Amália! Mourinho! Cucujães!" versão barroco tardio a resvalar para o neoclássico.
Um par de séculos depois, a expressão "fare il portoghese", em italiano corrente, quer dizer "entrar nalgum sítio sem pagar", ou em vernáculo do nosso: "ser penetra". Note-se, "fare il" tanto pode signicar "fingir ser" como "ter por profissão", como em "babbo fa il CEO di Microsoft". But I digress.
O que queria mesmo dizer é que um bocadinho de erudição poupa muito dinheiro no psiquiatra ou no bar da esquina quando se é um português que 1) vive em Bolonha 2) anda sempre de autocarro sem passe ou bilhete 3) lê isto no jornal local.
But I digress. Convém só dizer que o Mello e Castro estava já em Roma antes mesmo de começar oficialmente a embaixada, como enviado especial, a tentar arranjar maneira de compensar o orgulho ferido do monarca - por não ter conseguido meter o bedelho diplomático na salganhada do rescaldo da Guerra da Sucessão Espanhola - com qualquer coisa jeitosa e que brilhasse, tipo a promoção da diocese de Lisboa a igreja patriarcal, o que a bem dizer dá sempre jeito. Algo assim.
But I digress. O essencial é que o tal Mello e Castro vivia ao pé da Piazza Argentina, actual Largo di Torre Argentina (nada a ver com o país, parece que vivia lá um mestre de cerimónias papal chamado Giovanni Burcardo -vá-se lá saber o nome verdadeiro do homem - que era de Estrasburgo, aka Argentoratum), onde há ainda hoje um certo Teatro Argentina (falta de imaginação).
But I digress. O que é mesmo importante é que parece que esse teatro só foi inaugurado em 1732 mas que antes havia aí alguma coisa vagamente reminiscente de um teatro. Ora, tendo em mente a má fama de tais casas por essa altura, sou capaz de começar a pensar que o pré-conde de Galveias era, afinal, um pândego, se tiver também em conta que o dito organizou uma série de festas e espétaculos na tal espécie de teatro pelos anos em que pedinchava um patriarcado ao papa.
But I digress. O busílis está no facto que sua Excelência o Enviado Especial quase Embaixador gostava de convidar os amigos todos para esses eventos - leia-se, tudo o que fosse português e se encontrasse em Roma ou lá perto - , naturalmente implicando-se uma borla. E mais: fazia saber por todos os meios possíveis a sua nobre e patriótica intenção. Era só aparecer à porta, explicar que se era português, e entrar.
O desfecho, como seria aliás de se prever, é que Roma no século XVIII revelou ter mais portugueses do que Paris em 69 ou Lisboa anteontem. Não invejo o porteiro que teve que aturar infinitos "ma' io sou potoghesh! Lisboa! Amália! Mourinho! Cucujães!" versão barroco tardio a resvalar para o neoclássico.
Um par de séculos depois, a expressão "fare il portoghese", em italiano corrente, quer dizer "entrar nalgum sítio sem pagar", ou em vernáculo do nosso: "ser penetra". Note-se, "fare il" tanto pode signicar "fingir ser" como "ter por profissão", como em "babbo fa il CEO di Microsoft". But I digress.
O que queria mesmo dizer é que um bocadinho de erudição poupa muito dinheiro no psiquiatra ou no bar da esquina quando se é um português que 1) vive em Bolonha 2) anda sempre de autocarro sem passe ou bilhete 3) lê isto no jornal local.
El Portava i Scarp del Tennis
O indivíduo que canta - em dialecto milanês - licenciou-se em medicina na Universidade de Milão em 1954, tendo de seguida emigrado para a África do Sul onde se especializou em cardiologia. Já na Cidade do Cabo veio a integrar a equipa de Christiaan Barnard, autor do primeiro transplante de coração. Após um breve período nos Estados Unidos, regressou a Itália para gravar 28 álbuns. É cinturão negro de karaté.
segunda-feira, 25 de outubro de 2010
E recordei-me de quantas vezes
Segui a pé, de sombrinha aberta, na direcção das escadas que os relâmpagos mostravam para tudo recair depois numa noite triste e enervada. O aparelho correu ao longo da pista quase sem luzes e ergueu-se acima da nódoa opaca do mar. Quer dizer: não se topava o que quer que fosse salvo o reflexo de nós próprios nas janelas mas eu sabia que era o mar, e recordei-me de quantas vezes, em pequeno, olhei aquelas ondas a lembrar-me de Goa.
António Lobo Antunes*, As Naus, D. Quixote, 2006
*a.k.a. «the big dark giant Lobos (sic) Antunes», como lhe chamou Steiner, quando há um ano atrás falou na sua cerimónia de doutoramento honoris causa da U.L. A primeira frase deste excerto das naus lembra-me uma cena do The Big Sleep.
(kaddish)
Ei-los. Aí jazem
Os meus frente ao tempo,
Terra na terra,
Esquecimento no esquecimento.
Foram matéria e vida para ti,
Eles formaram parte da tua trama,
Da rede que te expressa e que tecemos
Com esses fios frágeis
Que a morte quebra
Com o menor puxão das suas rudes mãos.
Acolhe-os, Senhor, em teu regaço,
Nessa tua matriz a que tudo regressa.
José Luis Puerto, Protecção das Sílabas: Antologia Poética, Licorne, 2010
Os meus frente ao tempo,
Terra na terra,
Esquecimento no esquecimento.
Foram matéria e vida para ti,
Eles formaram parte da tua trama,
Da rede que te expressa e que tecemos
Com esses fios frágeis
Que a morte quebra
Com o menor puxão das suas rudes mãos.
Acolhe-os, Senhor, em teu regaço,
Nessa tua matriz a que tudo regressa.
José Luis Puerto, Protecção das Sílabas: Antologia Poética, Licorne, 2010
domingo, 24 de outubro de 2010
Ítaca, n.º 2
A todos os que ontem estiveram presentes no lançamento da Ítaca e encheram as salas da Livraria Fábrica Braço de Prata, a todos os que divulgaram o lançamento, a todos os que connosco fazem e acreditam neste projecto: muito obrigada.
Mais novidades em breve...
sábado, 23 de outubro de 2010
sexta-feira, 22 de outubro de 2010
Atravessaram as cidades
Atravessaram as cidades:
Procuraram o lugar em que os deuses
Escondem o segredo da felicidade.
Só encontraram cinzas
Perpétuos labirintos em que tudo se esfuma.
José Luis Puerto, Protecção das Sílabas: Antologia Poética, Manuel Silva-Terra (trad.), Licorne, 2010
Procuraram o lugar em que os deuses
Escondem o segredo da felicidade.
Só encontraram cinzas
Perpétuos labirintos em que tudo se esfuma.
José Luis Puerto, Protecção das Sílabas: Antologia Poética, Manuel Silva-Terra (trad.), Licorne, 2010
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