terça-feira, 26 de outubro de 2010

El Portava i Scarp del Tennis

O indivíduo que canta - em dialecto milanês - licenciou-se em medicina na Universidade de Milão em 1954, tendo de seguida emigrado para a África do Sul onde se especializou em cardiologia. Já na Cidade do Cabo veio a integrar a equipa de Christiaan Barnard, autor do primeiro transplante de coração. Após um breve período nos Estados Unidos, regressou a Itália para gravar 28 álbuns. É cinturão negro de karaté.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

"Divorzio all'italiana" de Pietro Germi, 1961


O admirável mundo dos coelhos suicidas

Mais aqui.

E recordei-me de quantas vezes

Segui a pé, de sombrinha aberta, na direcção das escadas que os relâmpagos mostravam para tudo recair depois numa noite triste e enervada. O aparelho correu ao longo da pista quase sem luzes e ergueu-se acima da nódoa opaca do mar. Quer dizer: não se topava o que quer que fosse salvo o reflexo de nós próprios nas janelas mas eu sabia que era o mar, e recordei-me de quantas vezes, em pequeno, olhei aquelas ondas a lembrar-me de Goa.

António Lobo Antunes*, As Naus, D. Quixote, 2006

*a.k.a. «the big dark giant Lobos (sic) Antunes», como lhe chamou Steiner, quando há um ano atrás falou na sua cerimónia de doutoramento honoris causa da U.L. A primeira frase deste excerto das naus lembra-me uma cena do The Big Sleep.

(kaddish)

Ei-los. Aí jazem
Os meus frente ao tempo,
Terra na terra,
Esquecimento no esquecimento.
Foram matéria e vida para ti,
Eles formaram parte da tua trama,
Da rede que te expressa e que tecemos
Com esses fios frágeis
Que a morte quebra
Com o menor puxão das suas rudes mãos.
Acolhe-os, Senhor, em teu regaço,
Nessa tua matriz a que tudo regressa.

José Luis Puerto, Protecção das Sílabas: Antologia Poética, Licorne, 2010

Outono

na Rússia.

domingo, 24 de outubro de 2010

Ítaca, n.º 2

A todos os que ontem estiveram presentes no lançamento da Ítaca e encheram as salas da Livraria Fábrica Braço de Prata, a todos os que divulgaram o lançamento, a todos os que connosco fazem e acreditam neste projecto: muito obrigada.
Mais novidades em breve...

sexta-feira, 22 de outubro de 2010

No outro lado da cidade
Habitam certas etnias
De duvidosas cores,
Com esse estranho e continuado hábito
Da melancolia
Quando o sol, pela tarde,
Ilumina os telhados
De um outro menino perdido.

José Luis Puerto, Protecção das Sílabas: Antologia Poética, Manuel Silva-Terra (trad.), Licorne, 2010

Atravessaram as cidades

Atravessaram as cidades:
Procuraram o lugar em que os deuses
Escondem o segredo da felicidade.
Só encontraram cinzas
Perpétuos labirintos em que tudo se esfuma.

José Luis Puerto, Protecção das Sílabas: Antologia Poética, Manuel Silva-Terra (trad.), Licorne, 2010

Tão estranha

Tão estranha pra mim
esta rosa, este doce brotar
esta ausência pensativa
ou luz sobre uma face que se furta...
Como um dia de primavera
quando se pressente qualquer coisa e se prende bem
por um instante, um segundo
imutável
qualquer coisa que nunca será verão

Gunnar Ekelöf, Antologia Poética, Vasco Graça Moura (trad.), Quetzal Editores, 1992

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

Pett the kitty






































































O resto está aqui.

Fim

Cadmo trouxera para a Grécia «dádivas dotadas de mente»: vogais e consoantes unidas em sinais minúsculos, «modelo gravado de um silêncio que não se cala»: o alfabeto. Com o alfabeto, os Gregos passariam a ser ensinados a viver os deuses no silêncio da mente e não na sua presença plena e normal, como ainda lhe coubera a ele, no dia das suas núpcias. Pensou no seu reino destruído: filhas e netos assassinados e assinos, feridos com água fervente, trespassados, afogados. Tebas também era um montão de ruínas. Mas já ninguém podia destruir aquelas letras minúsculas, aquelas pegadas de mosca que Cadmo, o fenício, espalhara pela terra grega, para onde os ventos o tinham empurrado em busca de Europa, raptada por um touro surgido do mar.

Roberto Calasso, As Núpcias de Cadmo e Harmonia, Maria Jorge Vilar de Figueiredo (trad.), Livros Cotovia, 1990.

segunda-feira, 18 de outubro de 2010


Um poema de Leónidas de Tarento

Um recurvo anzol e uma cana longa,
linha e cestos para os peixes,
este ardil imaginado para emboscar os peixes que nadam,
invenção de gente que pelos mares vagueia lançando rede,
um rude tridente, de Posídon arma,
e um par de remos, ao barco tirados.
Eis o que o pescador Diofante consagrou ao deus do seu ofício,
penhor de justiça, sinais de uma antiga servidão.

Cá fica um poema que na edição das Belles Lettres da Anthologie Grecque está incluído no vol. 3, onde se colige o Livro VI da Antologia Palatina. Muito honestamente (como diria o Chico), não estou com pachorra para copiar o texto grego, pelo que vocês terão de acreditar que a minha tradução é das boas ou confrontá-la com o supra-referido volume. Se me der ganas mais logo lá copiarei o texto grego. Mais vos aviso que não contem com a tradução de mais poemas votivos, que alguns são giros mas a maior parte sofre do problema de precisar de cento e oitenta mil notas para o que existe de belo neles ser revelado com a nitidez que merece (ou isso ou um tradutor menos canhestro do que eu) e com uma certa imediatez que a beleza existente num poema precisa para respirar. 
A isto acresce o facto de me interessarem mais os Epigramas Báquicos, Satíricos e os poemas da Musa Paedika (quase basicamente as ordinarices, portanto), que são os que hão-de animar este blogue assim que o sacana que requisitou o Livro XII (tomo XI) o devolver à biblioteca ou assim que os gajos da Librairie Calepinus (La Librairie Latin-Grec) me fizerem chegar o meu. 
P.S. Podem, contudo, contar com mais uns quantos poemas de Leónidas de Tarento (eu e ele vamos à bola), também conhecido como Leónidas o Tarantino, eventualmente um distinto antepassado do Quentin.

sábado, 16 de outubro de 2010

How's that for a metaphor?

139
Achilles
This is what is said about a fable they tell in Africa: an eagle was hit with an arrow from the bow, saw the way it was flighted* and said, 'In this way we are vanquished, not by others, but with our own feathers!'
*viz. with eagle feathers.

139
ΑΧΙΛΛΕΥΣ

ὧδ’ ἐστὶ μύθων τῶν Λιβυστικῶν κλέος,
πληγέντ’ ἀτρακτῷ τοξικῷ τὸν αἰετὸν
εἰπεῖν ἰδόντα μηχανὴν πτερώματος•   
“τάδ’ οὐχ ὑπ’ ἀλλων, ἀλλὰ τοῖς αὑτῶν πτεροῖς
ἁλισκόμεσθα”

Ο texto grego e a tradução aqui apresentadas são os da (recente) edição  de A. H. Sommerstein preparada para a nova edição das obras completas de Ésquilo publicada pela Loeb Classical Library (Sommerstein [ed. & trad.], Aeschylus Fragments, vol. III, Loeb Classical Library, Harvard University Press, Cambridge - Massachusetts, London - England, 2008).
Este é um fragmento de uma tragédia perdida de Ésquilo, Mirmidões, e são cinco versos muito muito belos.  Terão sido proferidos por Aquiles quando ele é informado da morte de Pátroclo e se apercebe do seu erro (trágico), mas a forma como ele diz esta percepção é sublime: ele diz que se sente como a águia que compreende que a seta que a trespassa tem uma pena da sua própria asa. A águia é trespassada οὐχ ὑπ’ ἀλλων, ἀλλὰ τοῖς αὑτῶν πτεροῖς.

Bom dia, amigos