terça-feira, 6 de julho de 2010

William Faulkner



























New Albany, 25 de Setembro de 1897 - Byhalia, 6 de Julho de 1962: entre uma data e outra escreveu um dos livros que mais amo.

Não era mais conspícuo que os montes de flores

Lavou-se da cabeça aos pés, de pé no canto fresco e esquecido do campo, onde ninguém o veria nem de dia, de modo que, agora, no tom cinzento do luar, não era mais conspícuo que os montes de flores. A noite parecia-lhe nova e diferente: não se lembrava de alguma vez ter visto o brilho cinzento lustroso, nem de ter reparado em como as luzes pareciam vitais, como gente viva habitando os espaços de prata.

D. H. Lawrence, O Amor no Feno e Outros Contos, Maria Teresa Guerreiro (trad.), Assírio & Alvim, 1988

segunda-feira, 5 de julho de 2010

«O Jardim dos Finzi-Contini» (2)


















[Giorgio] I just wanted to see you again. That's all. I love you. It's never happened to me before. And I know it never will again.
[Micol] But I don't love you! Lovers have a drive to overwhelm one another. But the way we are, alike as two drops of water... how could we ever overwhelm or tear each other to pieces?
Serravam os ramos em que se sentavam
E gritavam uns aos outros as suas experiências
Como se podia serrar mais rápido, e despenhavam-se
Abanavam as cabeças ao serrar e
Continuavam a serrar.

Bertolt Brecht, Poemas, Paulo Quintela (trad.), Asa, 2007.

domingo, 4 de julho de 2010

«O Jardim dos Finzi-Contini» de Vittorio De Sica, 1970






































O mais terrível de tudo é o peso da sorte que estas duas personagens predestinam para si próprias. O mais terrível a seguir a isso é a forma como condicionam os seus actos a partir dessa ideia. Porque agem de acordo com uma premissa inexistente, são excluídos de qualquer lógica, ou só têm aquela que lhes é concedida pela sua interpretação das circunstâncias, que por sua vez é condicionada pela imagem que de si guardaram para o futuro.
Tudo neste filme, Il Giardino dei Finzi-Contini, é cruel. E, contudo, é tão belo.

Gosto das capas





















E dos livros também.

sábado, 3 de julho de 2010

Os jovens estão debruçados sobre os livros.

Os jovens estão debruçados sobre os livros.
Pra que é que aprendem?
Nenhum livro ensina
Como, dependurado do arame farpado,
se consegue água.
*
As raparigas à sombra das árvores da aldeia
Escolhem os namorados.
A morte escolhe também.

Talvez
nem sequer as árvores fiquem com vida.

Bertolt Brecht, Poemas, Paulo Quintela (trad.), Asa, 2007.

Também o céu

Também talvez o Céu às vezes se estilhaça
Quando estrelas caem sobre a Terra.
Fazem-na em cacos e a todos nós com ela.
Pode ser já amanhã que isto passe.

Bertolt Brecht, Poemas, Paulo Quintela (trad.), Asa, 2007.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Prémio Strega 2010

O vencedor foi Antonio Pennacchi.

As tetas da loba


«O latim é uma língua muito subtil, toda de sons e de sentidos condensados, rebelde à grosseira tendência perifrástica das nossas línguas vulgares, que têm a mania de trocar tudo em miúdos. O célebre 'dente de coelho' dos padres-mestres não passa de um atestado da sua ignorância e preguiça. Bem dizia o meu mestre de latinidade, em Liège: "O latim não está no Magnum Lexicon: é cá uma coisa do sangue". Nem parece senão que o estou a ouvir: "La Louve tend ses tétines. Prends-y ton bien".»

Vitorino Nemésio, Mau Tempo no Canal

quinta-feira, 1 de julho de 2010

Como diz Pearl Bailey e todos sabemos

No entanto, alguma coisa me diz que ele estava para lá de qualquer possibilidade de ajuda, para lá de qualquer coisa que pudesse ter feito por ele, e que a única coisa que transpareceu entre nós nessas escassas horas foi o facto de ele me ter levado - forçado poderá ser mais exacto - a olhar para o meu próprio abismo; e nada é o resultado de nada, como diz Pearl Bailey, e todos sabemos por experiência própria.

Raymond Carver, O que sabemos do Amor (Beginners), João Tordo (trad.), Quetzal, 2010

Sons

Mais tarde, no Outono,
Instalam-se nos choupos grandes bandos de gralhas,
Mas duramente durante o Verão apenas ouço,
Porque a região não tem pássaros,
Sons de homens a mexer-se.
Estou de acordo.

Bertolt Brecht, Poemas, Paulo Quintela (trad.), Asa, 2007.

Nabokov em Berlim


















Jardim florido

Junto ao lago, mergulhando entre choupos e pinheiros,
Protegido dum muro e de arbustos, um jardim
Plantado de flores mensais tão sabiamente
Que floresce desde Março até Outubro.

Aqui pela manhã, não muitas vezes,
Venho sentar-me e desejar também,
Sempre e em vários tempos, bons e maus,
Poder mostrar isto ou aquilo de aprazível.

Bertolt Brecht, Poemas, Paulo Quintela (trad.), Asa, 2007.