sexta-feira, 4 de junho de 2010
Lope, em sua casa III
a madeira. As roupas penduradas. O cobertor
que dá calor ainda. Olhai-os: os brinquedos são
[meninos,
a mãozinha de bronze. O candeeiro. Mais espelhos...
A liberdade foi amor e acabou em prisões.
Preso ou livre um homem é conforme lhe diz a
[sua alma.
Em suas cadeias solto forjou o destino tornando-se
quem entre muros sempre viveu, venceu: entregou-se.
Liberdade mais que amor foi Lope, e assim brilha
perpetuamente livre: mais livre hoje faz o homem.
Como Moisés é o velho
Cada homem pode ser aquele
e mover a palavra e erguer os braços
e sentir como do seu rosto a luz varre
o velho pó dos caminhos.
Porque ali está a aposta.
Olha para trás: a aurora.
Adiante: mais sombras. E as luzes despontavam!
E ele agita os braços e proclama a vida,
desde a sua morte a sós.
Porque como Moisés, morre.
Não com as tábuas vãs e o ponteiro, e o raio nas
......................................................................[alturas,
mas desfeitos os textos na terra, ardidos
os cabelos queimados os ouvidos pelas palavras
....................................................................[terríveis,
e alento ainda nos olhos, e nos pulmões a chama,
e a luz na boca.
Para morrer basta um ocaso.
Uma porção de sombra na linha do horizonte,
Um formigar de juventudes, esperanças, vozes.
E além na sucessão, a terra: o limite.
O que os outro verão.
quinta-feira, 3 de junho de 2010
Epitáfio
ardente corpo que na terra aguardas
como um deus o esquecimento, aqui te chamo,
limite de uma vida, aqui, exacto
corpo que ardeu. Não sepulcro, terra livre.
Lançai ao passar vosso olhar lento,
o que uma dura pedra vos pedisse,
ou o que pede uma árvore sem pássaros,
casta na noite, em nua vigília.
Nunca o rumor de um rio aqui se escute,
Sob a profunda terra o morto vive
como absoluta terra.
Homem, passa:
não sobre um peito soarão teus passos.
Vicente Aleixandre, Antologia de Vicente Aleixandre, Selecção, tradução e notas de José Bento, Editorial Inova, 1977
Juan Rulfo, Pedro Páramo, Rui Lagartinho e Sofia Castro Rodrigues (trad.), Cavalo de Ferro, 2007.
Mark Twain
To know Twain fully, you first have to know the river. He was raised on its banks, but their acquaintance goes much further; having spent his early 20s dabbling in printing and newspapers elsewhere, Twain returned to Hannibal and trained as a steamboat pilot, studying 2,000 miles of the river before he was awarded his licence in 1859. He knew these waters intimately; he loved them, was reassured and inspired by them. Even his pen name was a piece of riverboat terminology—the boatman’s cry of “mark twain!” meant that the water was two fathoms deep and it was safe to proceed. It was already a pseudonym before Twain came along: he says in “Life on the Mississippi” that it had been used by another riverman, Captain Isaiah Sellers, upon whose death he breezily “confiscated” it.
O Corpo de Deus de 1647
A coisa conta-se em poucas palavras, e, apesar de quase completamente ignorada pela historiografia contemporânea, é fundamental na propaganda da Restauração. Mais, até ao século XIX ainda era fonte de inspiração de obras literárias, como "O Regicida", de Camilo Castelo Branco, e indirectamente as suas sequelas "A filha do regicida" e "A caveira da mártir".No dia de Corpo de Deus de 1647, que nesse ano calhou a 20 de Junho, D. João IV comungou e foi à procissão, que percorria o que é hoje a Baixa de Lisboa. Alegadamente acoitado numas casas que teria alugado e cujas paredes teria derrubado para poder ter vista para os dois lados da rua, Domingos Leite Pereira esperava a passagem do rei para, alegadamente a mando de Castela, matar D. João IV (*). O rei lá foi à procissão, e voltou, imagino, para o regaço da sua Luisinha de Gusmão, no fim da dita. Então não houve tiroteio? Pois não. Alegadamente, Domingos Leite Pereira ter-se-á arrependido à última da hora, ao ver uma "majestade divina" pairando sobre o rei e que lhe teria paralisado os membros, impedindo-o de alvejar o Bragança - o que veio mesmo a calhar à propaganda quinto-imperista, que se fartou de escrever sobre isto. Confessou isto tudo em interrogatório, ou pelo menos assim diz a a crónica oficial, que acrescenta que o regicida frustrado, terá entoado loas a D. João IV, qual Saulo, aliás Paulo, depois da Estrada de Damasco.
Domingos Leite Pereira terá então fugido para Madrid, onde alegadamente terá prometido a Filipe IV que tentaria de novo matar o homem - e aqui não bate a bota com a perdigota: então se a criatura viu a tal majestade divina sobre o rei e lhe entoou louvores, então porque raio resolve que afinal vai tentar matar o homem de novo, o tal a quem entoou louvores e que viu ser protegido pelo seu Deus? Bom, mas é assim que reza a crónica oficial, e quem sou eu para contrariar Frei Francisco Brandão. (o Camilo arranjou uma versão muito melhor, mas o Camilo é o Camilo, eu sou eu).
Seja como for, em finais de Julho de 1647 Domingos Leite Pereira está de novo em Portugal, alegadamente para tentar matar D. João IV, outra vez. A tentativa não passa disso mesmo. Traído pelo companheiro, Roque da Cunha, é preso no dia 31 de Julho de 1647. Parece que confessou logo tudo, inclusive a história da majestade divina, que tão bem aproveitada seria pela propaganda do Quinto Império. Foram encontradas no lugar do crime que não aconteceu a escopeta e as balas embebidas em veneno. O que é muito conveniente, e revelador de que o moço era bastante distraído. Como a justiça naqueles tempos era célere, talvez demasiado célere, foi executado com requintes de crueldade no dia 21 de Agosto de 1647, apenas 2 meses depois do crime que não chegou a cometer.
O lugar onde não aconteceu o atentado está hoje em parte visível na Rua dos Fanqueiros, pois a rainha D. Luísa de Gusmão mandou que as casas fossem derrubadas e ali se fizesse um convento. Hoje apenas restam partes da igreja do convento, destruído em 1755.

A crónica oficial do acontecimento saiu logo em 1647, e é uma delícia propagandística. Recomendo vivamente os passos em discurso directo, sobretudo os atribuídos a D. João IV.
Um dos muitos textos que então se escreveram sobre o caso foi um sermão de Frei Luís de Sá, lente na Universidade de Coimbra, e que tem este delicioso título:
«Sermão que pregou o doutor Fr. Luís de Saa religioso da ordem de S. Bernardo, Lente da Cadeira de S. Thomas, e Gabriel da Universidade de Coimbra na procissão solemne que o Reverendíssimo Cabido do próprio bispado instituiu. Pro gratiarum actione, de Deus haver livrado a sua Majestade da admirável treição, que contra ele por ordem de Castela se tinha maquinado em dia de Corpus Christi.»
Foi pronunciado em Coimbra em 8 de Setembro de 1647, e publicado no mesmo ano - naquela época não se brincava em serviço, não havia cá as molezas e procrastinações dos nossos dias. Transcrevo dois parágrafos, modernizando a ortografia, mas conservando os casos em que a escrita denuncia formas de pronunciar diferentes das contemporâneas.
«Eu não me espanto por não ter este Salmo Autor ao certo, porque como é de um ânimo agradecido, e há tão poucos no mundo, não é novo não se lhe saber o nome, e acrescento que visto não ter este Salmo conhecidamente Autor, levado do protentoso milagre porque vimos render hoje as graças a esta santa Sé Catedral de Coimbra, com pública procissão, tão autorizada, que são estas palavras do Anjo Custódio do nosso Rei e Reino, falando expressamente com ele no Santíssimo dia de Corpus, defronte de nossa Senhora da Palma de Lisboa, quando Castela toda sempre falsa, com parte de Portugal traidor, capitaneados ambos do Diabo merediano, intentaram fazer alvo de suas setas, e tiros no pino do meio dia, a quem ia coberto do escudo da maior verdade, a custódia e âmbula do Santíssimo Sacramento.
Querem dizer as palavras do Anjo Custódio deste Reino falando com o Sereníssimo Rei nosso senhor Dom João o IV. A verdade do Senhor vos servira de escudo em toda a vida, não tendes que temer sombras nocturnas, nem setas que se derijam contra vós todos os dias: não façais caso de conselhos, e juntas de traidores, que no segredo da noite se maquinam contra vossa pessoa, que são acções de quem vive em trevas co juízo; finalmente tende grande ânimo, quando ao pino do meio dia vos virdes cometer do Diabo merediano com incurso diabólico.»
Fonte: impresso na Biblioteca Nacional, com a cota TR5661/19p
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quarta-feira, 2 de junho de 2010
Às vezes um verso (ou dois)
que pranto escuto às vezes quando és só uma lágrima
Vicente Aleixandre, Antologia de Vicente Aleixandre, Selecção, tradução e notas de José Bento, Editorial Inova, 1977
Sempre
De fronte, os delfins ou a espada.
A certeza de sempre, os não-limites.
Esta delicada cabeça não amarela,
esta pedra de carne que soluça.
Areia, areia, teu clamor é meu.
Por minha sombra não existes como seio,
não finjas que as velas e que a brisa,
que um aquilão, um vento furibundo
vai empurrar teu sorriso até à espuma,
ao sangue roubando os seus navios.
Amor, amor, detém teus pés impuros.
Vicente Aleixandre, Antologia de Vicente Aleixandre, Selecção, tradução e notas de José Bento, Editorial Inova, 1977
Princípio
Juan Rulfo, Pedro Páramo, Rui Lagartinho e Sofia Castro Rodrigues (trad.), Cavalo de Ferro, 2007.
terça-feira, 1 de junho de 2010
Segunda-feira, quarta-feira e sexta-feira
Eu fui.
Mas não sou.
Eu era...
(Oh fauce maravilhosa
a do cipreste e sua sombra!
Ângulo de lua cheia.
Ângulo de lua sozinha.)
Eu fui...
A lua estava a brincar
ao dizer que era uma rosa
(Com uma capa de vento
meu amor jogou-se às ondas.)
Mas não sou...
(Junto à vidraça partida
cozo minha roupa lírica.)
In the shadow of the Patriarch
I.
Many years later, in the course of writing his memoirs, Gabriel García Márquez was to remember that distant afternoon in Aracataca, in Colombia, when his grandfather set a dictionary in his lap and said, "Not only does this book know everything, it’s the only one that’s never wrong." The boy asked, "How many words are in it?" "All of them," his grandfather replied.
A lua surge
perdem-se os sinos
e aparecem as sendas
impenetráveis.
Quando sai a lua,
o mar cobre a terra
e o coração sente-se
ilha no infinito.
Ninguém come laranjas
sob a lua cheia.
É preciso comer
fruta verde e gelada.
Quando sai a lua
de cem rostos iguais,
a moeda de prata
soluça na algibeira.
Federico García Lorca, in Canções de Lua, Obra Poética, José Bento (trad.), Relógio d'Água, 2007.
Baco
A figueira estende-me nos seus braços.
Como uma pantera, sua sombra,
espreita minha lírica sombra.
A lua conta os cães.
Engana-se e começa de novo.
Ontem, amanhã, negro e verde,
rondas meu cerco de loureiros.
Quem te amaria como eu
se mudasses o meu coração?
...E a figueira grita-me e avança
terrível e multiplicada.
Federico García Lorca, in Três Retratos com Sombra, Obra Poética, José Bento (trad.), Relógio d'Água, 2007