segunda-feira, 31 de maio de 2010

Uma cena de «The Big Heat» de Fritz Lang, 1953



O que eu gosto de Film-noir. Qual é o mais votado podia ser uma votação. Eu voto no «The Big Sleep».

Tarkovski, "Andrei Rublev" (1966)

Romance Sónambulo

A Gloria Giner
y a Fernando de los Ríos


Verde que te quiero verde.
Verde viento. Verdes ramas.
El barco sobre la mar
y el caballo en la montaña.
Con la sombra en la cintura
ella sueña en su baranda,
verde carne, pelo verde,
con ojos de fría plata.
Verde que te quiero verde.
Bajo la luna gitana,
las cosas la están mirando
y ella no puede mirarlas.

Verde que te quiero verde.
Grandes estrellas de escarcha,
vienen con el pez de sombra
que abre el camino del alba.
La higuera frota su viento
con la lija de sus ramas,
y el monte, gato garduño,
eriza sus pitas agrias.
¿Pero quién vendrá? ¿Y por dónde?
Ella sigue en su baranda,
verde carne, pelo verde,
soñando en la mar amarga.

--Compadre, quiero cambiar
mi caballo por su casa,
mi montura por su espejo,
mi cuchillo por su manta.
Compadre, vengo sangrando,
desde los puertos de Cabra.
--Si yo pudiera, mocito,
este trato se cerraba.
Pero yo ya no soy yo,
ni mi casa es ya mi casa.
--Compadre, quiero morir,
decentemente en mi cama.
De acero, si puede ser,
con las sábanas de holanda.
¿No ves la herida que tengo
desde el pecho a la garganta?
--Trescientas rosas morenas
lleva tu pechera blanca.
Tu sangre rezuma y huele
alrededor de tu faja.
Pero yo ya no soy yo,
ni mi casa es ya mi casa.
--Dejadme subir al menos
hasta las altas barandas,
¡dejadme subir!, dejadme
hasta las verdes barandas.
Barandales de la luna
por donde retumba el agua.

Ya suben los dos compadres
hacia las altas barandas.
Dejando un rastro de sangre.
Dejando un rastro de lágrimas.
Temblaban en los tejados
farolillos de hojalata.
Mil panderos de cristal
herían la madrugada.

Verde que te quiero verde,
verde viento, verdes ramas.
Los dos compadres subieron.
El largo viento dejaba
en la boca un raro gusto
de hiel, de menta y de albahaca.
--¡Compadre! ¿Dónde está, dime?
¿Dónde está tu niña amarga?
¡Cuántas veces te esperó!
¡Cuántas veces te esperara,
cara fresca, negro pelo,
en esta verde baranda!

Sobre el rostro del aljibe
se mecía la gitana.
Verde carne, pelo verde,
con ojos de fría plata.
Un carámbano de luna
la sostiene sobre el agua.
La noche se puso íntima
como una pequeña plaza.
Guardias civiles borrachos
en la puerta golpeaban.
Verde que te quiero verde,
verde viento, verdes ramas.
El barco sobre la mar.
Y el caballo en la montaña.

Federico García Lorca, in Romancero Gitano (Revista de Occidente, Madrid, 1928), Obra Poética, José Bento (trad.), Relógio d'Água, 2007.

Pasolini entrevista Ungaretti

Longings

Juan Ramón Jimenez

No branco infinito,
neve nardo e salina,
perdeu sua fantasia.

A cor branca move-se
sobre uma muda alfombra
de plumas de pomba.

Sem olhos nem um gesto,
imóvel sofre um sonho.
Porém, treme por dentro.

Lá no branco infinito
que pura e longa ferida
deixou sua fantasia!

No branco infinito.
Neve. Nardo. Salina.

Federico García Lorca, in Três Retratos com Sombra, Obra Poética, José Bento (trad.), Relógio d'Água, 2007

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Deut.20

Quem está na península da felicidade
que seja poupado pela morte.
Aquele que plantou uma vinha
mas não lhe provou ainda os frutos,
aquele que construiu uma casa
mas ainda não viveu nela
aquele que arranjou mulher
mas ainda não dormiu com ela.
Aquele que tem um caderno vazio, um
lápis por usar ou um lenço limpo.
Aquele que vê que vai chover.

Mas quem conhece o caminho numa cidade,
sabe assobiar num caule de erva
ou quem se entricheirou num grão de areia
e o vê como se fosse o mundo, não enxuga
o seu cavalo depois de uma cavalgada, não limpa
os óculos embaciados, viu a chuva cair,
usou o seu lenço, chorou as suas lágrimas -
Ou quem anseia voltar para o passado
para desenterrar os ossos enterrados
dar vida a coisas mortas ou juntá-las;
uma folha de Outono, um bilhete de cinema,
um pêlo púbico -
Podem mandá-lo para o campo de batalha, se for preciso,
sozinho - mas não esperem dele uma vitória.

Judith Herzberg
, O que resta do dia: Antologia de Poesia com um Texto em Prosa, Ana Maria Carvalho (trad.) Cavalo de Ferro, 2008.

"The art of translation"

Two grades of evil can be discerned in the queer world of verbal transmigration. The first, and lesser one, comprises obvious errors due to ignorance or misguided knowledge. This is mere human frailty and thus excusable. The next step to Hell is taken by the translator who intentionally skips words or passages that he does not bother to understand or that might seem obscure or obscene to vaguely imagined readers; he accepts the blank look that his dictionary gives him without any qualms; or subjects scholarship to primness: he is as ready to know less than the author as he is to think he knows better. The third, and worst, degree of turpitude is reached when a masterpiece is planished and patted into such a shape, vilely beautified in such a fashion as to conform to the notions and prejudices of a given public. This is a crime, to be punished by the stocks as plagiarists were in the shoebuckle days.
Um texto de Vladimir Nabokov, continuar a ler aqui.

Enterrado

As agulhas do calor e do tédio
espetadas na minha roupa emprestada
quando um dia de Verão temos de entregá-lo
por baixo de árvores experientes,
os açougueiros embuçados de negro
torsos embalsamados, costas recurvadas,
que páram o cortejo
com um último passo rotineiro
enquanto os cangalheiros - oito longas
patas de aranha seguem
com ele, o coração morto,
colina acima, rangendo
exactos, solenes, impassíveis.

E nós ali de pé, meio desamparados,
com a esperança em fuga desenfreada
e uma pressa incompreensível;
os últimos dez minutos
antes de uma amputação.

Judith Herzberg, O que resta do dia: Antologia de Poesia com um Texto em Prosa, Ana Maria Carvalho (trad.) Cavalo de Ferro, 2008.

Cinquenta capas de livros que marcaram uma época













Ver o resto aqui.

On smoking

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Do tocar e do coçar

Frei António das Chagas (1631-1682)

Exercicio de Mortificação para toda a Semana

Sexta feira


Mortifique o sentido do Tacto, pondo pela manhaã cilicio atè o jantar, se tiver saude; à noite disciplina por espaço de hum Miserere. Não se toque, nem se coce de advertencia. Não se veja ao espelho, nem parte alguma sua. Jejue, se puder, a pão, & agua; & visite tres vezes o Santissimo Sacramento, fazendo por ter dor de seus pecados; faça por andar cuidando este dia nas dores de meu Senhor Jesu Christo Crucificado.



Obras Espirituaes Posthumas do Veneravel Padre Fr. Antonio das Chagas ...
Lisboa, 1684.

Transcrevo respeitando a orthographia do impresso original, que consultei com reverência. Sobre este injustamente esquecido frade franciscano seiscentista, cuja biografia resumida se pode ler aqui, e cuja sepultura se pode pisar no convento do Varatojo, em Torres Vedras, escreve o seu contemporâneo Pe. António Vieira, em carta a Duarte Ribeiro de Macedo, datada de 1 de Janeiro de 1675:

"... e é que, poucos dias antes do último correio, partido aos 13 de Novembro, se tinha ouvido em Lisboa um Jonas pregando: Adhuc quadraginta dies et Niniue subuertetur. Este homem, que pode ser que seja conhecido de V. S.ª, é um capitão, grande poeta vulgar, chamado antigamente António da Fonseca, o qual se meteu frade de S. Francisco haverá oito ou dez anos, e hoje se chama frei António das Chagas. Haverá dois ou três anos começou a pregar apostolicamente, exortando a penitência, mas com cerimónias não usadas dos Apóstolos, como mostrar do púlpito uma caveira, tocar uma campainha, tirar muitas vezes um Cristo, dar-se bofetadas, e outras demonstrações semelhantes, com as quais, e com a opinião de santo, leva após si toda Lisboa"


António Vieira, Cartas, ed. J. Lúcio de Azevedo, vol. III, INCM, 1997.
p. 144

Istambul, Constantinopla

Bosque

Caminhando a falar de coisas que nós mais tarde -
Viver é mover-se e mover-se é
muito longe e muito lentamente estremecer.
Por cima de nós árvores fustigadas retesam os ramos.
Por baixo deste bosque pendurado sem vento
um bosque ao contrário, branco, sem luz
com árvores sem cor onde bichos escamosos
se encontram raramente e a mente.

Judith Herzberg, O que resta do dia: Antologia de Poesia com um Texto em Prosa, Ana Maria Carvalho (trad.) Cavalo de Ferro, 2008.

Amantes amantes

Piores que as crueldades cometidas por inimigos
são as crueldades entre amantes.
Como resistir de cabeça erguida
ao invasor que a saqueia? Um inimigo
não chega tão fundo, arremete contra a superfície.

Judith Herzberg, O que resta do dia: Antologia de Poesia com um Texto em Prosa, Ana Maria Carvalho (trad.) Cavalo de Ferro, 2008

Qualquer coisa, Caetano Veloso