sexta-feira, 9 de abril de 2010

La Mediterranée a son tragique solaire qui n'est pas celui des brumes. Certain soirs, sur la mer, au pied des montagnes, la nuit tombe sur la courbe parfaite d'une petite baie et, des eaux silencieuses, monte alors une plénitude angoissée. On peut compreendre en ces lieux qui si les Grecs ont touché au désespoir, c'est toujours à travers la beauté, et ce qu'elle a d'opressant.

Albert Camus, L'été, Gallimard, 2010


As cidades morrem lentamente
os telhados partem
como cabeleiras
ou como olhares de crianças
que envelhecem - que vêem
templos nos muros
ou fantasmas nos cúmulos.

No fundo isso nada quer dizer.
Um carvalho sozinho
diz mais - diz outra coisa
ou faz um sinal misterioso
que sai do dia - que caminha
e que o vento
aguenta até ao infinito.

Jean Paul Mestas
, Poema Esquecido na Madrugada, Cybelli Wanderley e Fernanda Barbosa (trads.), Ulmeiro, s.d.

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Catulo XV

confio-me ao teu cuidado, eu e os meus amores,
Aurélio: peço modesto favor,
que, se algo em teu coração desejaste
que quisesses puro e íntegro,
me guardes este rapaz castamente, 5
não digo do povo (em nada tememos
esses que na praça de um lado para o outro
passam ocupados nos seus negócios),
na verdade é de ti que tenho medo e da tua pila
infesta tanto para rapazinhos bons como maus. 10
tu onde te agradar, como te agradar, dá-lhe uso,
quanto quiseres, fora de portas, quando se proporcionar a ocasião;
só a este faço excepção, pedido razoável, ao que me parece.
mas se a tua mente depravada e a tua lascívia sem freio
te levar, ó celerado!, à falta tamanha 15
de o nosso menino com artifícios tentares,
ai!, então, miserável, espera-te um mau fim,
que de pés atados pela porta aberta
te atravessem rabanetes e mugens!

janela


não sobrou nada:
só a ferida da memória.
e o ponto de encontro
e o cheiro das folhas em livros usados.

da janela:
uma canção entoa um amor antigo.

Como se fosse escrever o livro dos mortos -
torna-se a noite no seu costume.

Como se para brincar com uma tristeza que o acompanha -
dança sozinho na noite.

Hassan Najmi
(Marrocos - n. 1959)

Tradução: André Simões
Revisão: Nádia Bentahar
النافذة

لم يبق شيء:
جرح الذكرى فقط.
ومكان اللقاء.
ورائحة الورق في كتب مستعملة.

من النافذة:
صوت أغنية حب قديم.

كأنما سيكتب كتاب الموتى -
صار الليل عادته.

كأنما ليداعب حزنا يرافقه -
يرقص وحيدا، في الليل

quarta-feira, 7 de abril de 2010

Ítaca na Câmara Clara

A Ítaca na Câmara Clara: pode ver-se aqui. (Minuto 5:24)


Pêssegos


Ó tu que dás pêssegos à tua amada,
_____ bem-vinda a que traz alegria às almas.
Imita a mama da donzela a sua redondeza,
_____ mas envergonha as cabeças das pilas.

Muhja al-Qurṭubiyya
Tradução: André Simões


يا متحفا بالجوخ أحبابه_____ أهلا به من مثلج للصـدور
حكى ثدي الغيد تفليكـــه_____ لكنه أخزى رؤوس الأيـور

---
De Muhja quase nada se sabe. Foi contemporânea de Wallâda, em Córdova. Era de origem humilde, filha de um vendedor de figos. Foi protegida de Wallâda, que lhe proporcionou educação literária. Há quem diga que foi mais do que protegida, e que não foi só literária a educação que recebeu da princesa. Ficou conhecida pela sua língua afiada.

terça-feira, 6 de abril de 2010

La médiocrité veut durer par tous les moyens, y compris le bronze. On lui réfuse ses droits à l'éternité et elle les prend tout les jours.

Albert Camus, L'été, Gallimard, 2010

Petrónio, legado da Síria

Em 39-40, Calígula ordenou que se erguesse uma estátua sua no Templo em Jerusalém. Este acto, em si, implicava a profanação da sinagoga, que deixava automaticamente de ser um espaço sagrado.
Tendo ordenado ao legado da Síria, Petrónio, que procedesse às diligências necessárias para a construção da estátua, este imediatamente se apercebeu que a comunidade judaica de imediato se revoltaria contra este acto.
Petrónio era um homem prudente e resolveu atrasar o mais possível a colocação da estátua no Templo. Ordenou a escultores em Sídon que produzissem uma estátua magnificente. Disse-lhes que o tempo não era problema. Entretanto, destacou duas legiões e uma imensa força para auxiliar estas e deslocou-se a Ptolemaïs. Não é possível determinar a data exacta em que Petrónio terá chegado a esta cidade com o seu exército. Muito provavelmente no Inverno de 39.
Milhares de judeus de todas as classes sociais dirigiram-se a Ptolemaïs para implorar a Petrónio que não violasse os costumes dos seus antepassados. Disseram-lhe que, se ele estava determinado a cumprir a ordem de Calígula, eles preferiam ser mortos pelos soldados romanos a submeterem-se à violação das suas leis ancestrais. Disseram-lhe que enquanto estivessem vivos não aceitariam semelhante profanação. Petrónio encolerizou-se: que não era ele o imperador e que era obrigado a cumprir as ordens que lhe eram dadas.
Os judeus responderam-lhe que, tal como ele não podia desobedecer às ordens do imperador também eles não podiam violar um mandamento de Deus.
A história acaba bem. Instado pelo rei Agripa I, seu amigo de longa data e neto de Herodes (o Grande), Calígula acabou por ceder, ordenando que, se a estátua ainda não tivesse sido colocada no Templo até à chegada do emissário com a ordem que anulava o primeiro decreto, não fosse de todo colocada. Se já lá estivesse, deveria ficar onde estava.
Vamos florir as pontes que se lançam
de língua para língua.
Visitemos rendados e cidades,
protejamos soleiras e ameixas.
Eis o Junho sem sono
que cose os dias e as noites.
Os irmãos comuns das brumas
são iguais de pés e mãos.
Líquido vermelho amor
que grita, uiva e amotina
mil vertigens, mil crianças.

Jacques Izoard, Jardins Mínimos e Outros Poemas, Fernando Pinto do Amaral (coord.), Quetzal Editores, 1994

Apontem nos vossos blocos de notas

Hoje, às 23h20, aparecerá uma pequena entrevista feita ao André sobre a Ítaca no programa Câmara Clara, da RTP2.
O vazio debaixo das palavras.
Belo abismo com que me deleito.
Haverá outros lábios sob os meus?
Resvala pelo meu braço adentro
Um braço de ferro que me petrifica
o gesto e o coração.
E é o afluxo poeirento
desse infame silêncio opaco.

Jacques Izoard
, Jardins Mínimos e Outros Poemas, Fernando Pinto do Amaral (coord.), Quetzal Editores, 1994

segunda-feira, 5 de abril de 2010

Bebedeira (II)

a taberna

na taberna aqui ao lado
vi a minha sombra a beber um copo de vinho
..........
e eu aqui:
agarra-me a bebedeira
tremem-me as palavras


Hassan Najmi (n. 1959)

Tradução: André Simões
الخان

في الخان المُجاور ـ

رأيت ظِلّي يشرب كأس نبيذ

..........

وأنا هنا ـ

يُداهِمُني السُكْر

تترنح كلماتي
Quem sonha com e contra tudo
detém maravilhas e vertigens.
E no casulo do corpo
eis os marinheiros a dormir,
as aves do alto mar,
os viajantes mortos de cansaço.
Baques. Balanços. Passadiços.
Ali está uma criança a desenhar
um coração de vidro
num sol de água clara.


Jacques Izoard
, Jardins Mínimos e Outros Poemas, Fernando Pinto do Amaral (coord.), Quetzal Editores, 1994
C'est que la force et la violence sont des dieux solitaires. Ils ne donnent rien au souvenir. Ils distribuent, au contraire, leurs miracles à pleines poignées dans le présent. Ils sont à la mesure de ce peuple sans passé qui célèbre ses communions autour des rings. Ce sont des rites un peu difficiles, mais qui simplifient tout. Le bien et le mal, le vainqueur et le vaincu: à Corinthe, deux temples voisinaient, celui de la Violence et celui de la Nécessité.

Albert Camus, L'été, Gallimard, 2010

«The deer hunter» de Michael Cimino, 1978


Este filme ainda é do tempo em que o De Niro fazia bons filmes.
Arma o arco da língua
e pronuncia «sono», «sonhador»,
diz «junquilho», grita «cogula»!
Abandona a tua pele
ao olhar dos outros.
Segue-se a bela morte
de tudo o que nos une.

Jacques Izoard, Jardins Mínimos e Outros Poemas, Fernando Pinto do Amaral (coord.), Quetzal Editores, 1994

Problema

Il n'y a plus de déserts. Il n'y a plus d'îles. Le besoin pourtant s'en fait sentir. Pour compreende le monde, il faut parfois se détourner: pour mieur servir les hommes, les tenir un moment à distance. Mais où trouver la solitude nécessaire à la force, la longue respiration où l'esprit se rassemble et le courage se mésure?

Albert Camus in Le Minotaure ou La Halte d'Oran, L'été, Gallimard, 2010

Este livro custou-me 2€. Os franceses têm livros de bolso da Gallimard a 2€, em que publicam textos com uma dimensão de cerca de 130 pp., com um tamanho de letra impecável, a pensar em gente míope como eu, e em papel de boa qualidade. As capas não são feias e nesta colecção publica-se autores como Camus, Vérlaine, Le Clézio, Proust, entre outros. Por que motivo em Portugal não se publica coisas destas? Por que razão é que, por exemplo, aqueles livros que pertencem ao Plano Nacional de Leitura e que vêm com uma etiqueta a dizer Ler+ não se vendem com alguma espécie de desconto, pelo menos a estudantes? Por que motivo são estas diatribes inúteis?
Eu até achava que os franceses podiam e deviam cobrar mais caro para que um tipo pudesse ler Camus no original.

Bebedeira


Não esquecerei certa noite passada
_____deitado a beber de dois odres.
E dormi bêbedo entre um e outro,
_____
menino que finge que dorme entre dois peitos.

Abû Tammâm de Calatrava
Tradução: André Simões

لم أَنْسَ ليلاً قِطْعةٌ وأنــــــا __ مُتَّكئٌ لاِصْطِحابِ زَقَّــيْنِ
وَنَمْتُ سَكْرانَ بَينَ ذاكَ وذا
_ تَناوُمَ الطِّفْلِ بَينَ ثَدْيَـيْنِ

---

Trata-se de uma khamriyya, um poema sobre vinho (khamr), tema muito popular na poesia árabe clássica.

sábado, 3 de abril de 2010

Ce poème ne t'aime pas
car celui qui l'écrit te désire.

Ce poème se tord
comme un serpent blessé
se tourne contre toi - prends garde.

Il sait trés bien que si tu gagnes
il perdra l'esclave qui l'écrit
et ses bras migrateurs
et restera infirme.

Ce poème - prends garde
il m'échappe et rôde en liberté -
veut te tuer. Il sait
qu'il ne peut trouver autrement
descendants fin tranquille et pages blanches
où paîtra une main noir - la mienne -
tandis que je poursuivrais ce poème
voué à se prostrener devant toi.

Mihalis Ganas in Ballade. Anthologie de la poèsie grecque contemporaine: 1945:2000, Michel Volkovitch (trad.), Gallimard, 2000.