segunda-feira, 8 de março de 2010

Seasons

February, from a nook in the wall
the owl watches the movements
of the cold season.
He adapts naturally to wathever
necessity,
attentive to the sound of leaves,
to the signals of every small life.
He's fulfilled in his patient task.
Form, fate an name
wich will be rewarded.

Giampiero Neri in Italian Poetry: 1950 to 1990, Ridinger and Renello (eds.), Dante University Press, 1996.
Acho muito bem.
Agora sou o meu cadáver, um corpo no fundo de um poço. Há muito que soltei o último suspiro, que o meu coração parou de bater, mas, excluindo o patife que me matou, ninguém sabe o que me aconteceu. Ele, porém, esse desprezível pulha, para se certificar de que tinha acabado comigo, prescrutou-me a respiração, vigiou as minhas últimas palpitações, depois deu-me um pontapé nas costelas, em seguida arrastou-me até à beira de um poço para me atirar por cima do parapeito. A minha cabeça, já partida à pedrada, rebentou ao cair no poço; a cara, a testa e as faces esmagaram-se, apagaram-se; os meus ossos partiram-se, a minha boca encheu-se de sangue.

Orhan Pamuk, O Meu Nome é Vermelho, Filipe Guerra (trad.), Editorial Presença, 2007.

domingo, 7 de março de 2010

sábado, 6 de março de 2010

"The Notebook" de Nick Cassavetes, 2004




















"Stay with you? What for? Look at us, we're already fighting."
"Well, that's what we do. We fight."

(Um filme com uma história estereotipada, óptima fotografia e onde quase tudo acaba por resultar bem.)

quinta-feira, 4 de março de 2010

Enjeitados

Uma vez falei com a M. sobre o meu projecto sério de doutoramento (tenho outro projecto de doutoramento para além do sério mas ninguém acredita que seja um projecto de doutoramento a sério). A M. diz caralhadas em italiano enquanto lhe tento explicar a coisa, o que é giro, e pergunta-me se, indo trabalhar o tema, penso abordar a figura de José. E eu digo-lhe que não, que prefiro Moisés. E ela diz-me que detesta favoritos e eu digo-lhe que também, que prefiro os enjeitados. Mas fiquei a pensar nisso. O José não era um favorito, ou só em aparência. Favorito do pai talvez, o que entra na soma daquela sneaky little joke que os irmãos lhe fizeram, e a coisa não acabou lá muito bem para ele, pelo menos temporariamente. Aquelas horas todas dentro de uma cisterna?, ser vendido como escravo?, ele pagou bem o ser o favorito. Não se consegue na verdade simpatizar com José. Caramba. Eu pelo menos não consigo. Com o Benjamin sim, mas com o José? E, depois, o Moisés é brutal. Brutal. Ma che brutta chosa. Mas venho para casa a pensar nisto de Moisés ser um enjeitado. Mas o sacana era um favorito. Lixa-se no fim, é verdade. Mas tudo nele, desde a fuga do Egipto até se lixar, é βὲλτιστος (não temos em português um adjectivo que traduza isto, é qualquer coisa como excelentíssimo em tudo e extraordinário ao cubo).
Pronto. Eis uma coisa que eu e Fílon de Alexandria temos em comum. Uma admiração desmesurada por Moisés. Só que nele é uma visão filtrada por fé e adoração. Para mim é tudo literatura.
Poets writing today.

Landscape - opções de tradução

A wind-ridden night and an empty road where the army of the Prince of Parma
Left the horses' bodies behind
There atop the mountain blaze the bones of the newly razed castle
There is only stone sand dung and a colorless aimless wind

This is a landscape brought to life by a sharpened moon jammed in the sky
And grungy shadows down below
Along with a white gallows that dangles gaunt pods
Of flesh revived by the wind that shadowless cloudless wind

(O original)

Krajobraz

Jest wietrzna noc i pusta droga na której armia księcia Parmy
pozostawiła trupy końskie
na łysej górze świeca kości niedawno zdobytego zamku
jest tylko kamień piasek gnój i wiatr bez celu i koloru

To co ożywia ten krajobraz to księżyc ostro wbity w niebo
i trochę brudnych cień w dole
a także biała szubienica bo na niej wiszą chude strąki
ciał którym wiatr przywraca życie ten wiatr bez drzew i bez obłoków

Zbigniew Herbert

A versão portuguesa pode ser encontrada aqui. A versão inglesa foi tirada de um blogue que me deixa completamente puzzled, este.

quarta-feira, 3 de março de 2010

The Poetry of Roses, 5

Far far away voices, wailing...
Must you always repeat the same scenes,
false consciousness?
Trifles dispelled, roses in decay,
space broken down to the rare molecule or two,
it seems these proportions breed peace.
And before the nesting begins, the shrieking:
these mythical dead of yours will return,
opaque men bound to go homeless.

And meteorites of mental steel
spin over the continents, invade the force-fields of
drowsy roses, bend the frequencies of created objects,
make every atempt to be of help. The plane
skimming the cathedral tops make its attack,
rises, goes: it's not for us.
I lived here, where one night of reducing the century to ashes
persuades me and kills me off slowly and I tremble.

Franco Fortini, in Italian Poetry: 1950 to 1990, Ridinger and Renello (eds.), Dante University Press, 1996.
Are intellectuals all bad?

Elogy of our times

There's no overdoing
the importance of the world
(ours I mean)
probably the only one
where killing can be an art and where
art work is created to live
for the length of a morning,
even if one of milleniums or more.
No, there's no glorifying it enough.
Only now we must hurry because
the hour seems near
when to much will be inflated
according to a noted apologist,
the frog.

Eugenio Montale, in Italian Poetry: 1950 to 1990, Ridinger and Renello (eds.), Dante University Press, 1996.

terça-feira, 2 de março de 2010

Voltou a cair num estado misterioso de especulação que lhe era tão estranho. Se os rostos eram diferentes quando iluminados por cima ou por baixo, o que era um rosto? O que eram as coisas?

William Golding, O Deus das Moscas, Manuel Marques (trad.), D. Quixote, 2008
possas tu permanecer constante
quando te descer
sobre as mãos a noite
quando não houver mais luz
mais rasto de esperança
para atenuar certas linhas
que o tempo nos vai lavrando no rosto

possa sempre a tua voz descer sobre mim
como um desses cantos de pássaro
que são companhia de homens bons
nas suas horas mais tristes

possa acompanhar-me ainda essa memória
do teu riso claro quando eu não tiver mais palavras
mais linhas de terra por onde atravessar
esses modos de angústia sem memória
e sem nome que todos mais cedo ou mais tarde
vão tendo por caminho
mesmo quando o não escolhem

possam pertencer-nos algumas palavras
serem só nossas
que outros não entrem nelas
punhado de terra entre as mãos deslizando
tendendo para o raiar de cada dia
onde possamos sempre regressar.

quando tiver de ser
que me encontre como a tua voz
onde mais nenhuma luz me bastar.

Tatiana Faia

segunda-feira, 1 de março de 2010

Bird-shooting

You wonder why I sail along in uncertainty
rather than trying another route?
Ask that of the bird who turns round, unharmed
by the long shot and the oversized rose
of explosion.

Even for us without wings
rarefications exist,
made not of lead but of deeds,
not of atmosphere but of vexations.
If a weight loss may save us
remains to be seen.

Eugenio Montale, "Il tiro a volo", in Italian Poetry: 1950 to 1990, Ridinger and Renello (eds.), Dante University Press, 1996.
Origem da Comédia. Aqui.
Emily Dickinson.
(...) an yet

then sometimes, come May, swirls settle in the glass classroom
rains of flickering fire fell clinging to the clothed bodies
of hospital nuns , doctors, and to our sick, naked as they are
from my hiding place I tremble in the whirling wind out there
............................................................................[and I tremble less

Giancarlo Majorino in "Di'--allora dico", Italian Poetry: 1950 to 1990, Ridinger and Renello (eds.), Dante University Press, 1996.