domingo, 31 de janeiro de 2010

Why is it that all men who have become outstanding in philosophy, statesmanship, poetry or the arts are melancholic, and some to such an extent that they are infected by the diseases arising from black bile as the story of Heracles among the heroes tells?

(Pseudo-)Aristóteles, «Problema XXX» (tradução de W.S. Hett em Problems. vol. XV, Rethorica ad Alexandrum, Loeb Classical Library, 1937)Negrito

Visão vinte e cinco

E eis que a mulher aparece dentro da sombra,
largando o sangue entre as árvores, e é o seu
corpo visível que se transforma e se deixa levar
pela noite, esquecendo que a sua alma está
presa ao homem que a algemou para sempre.

Não é ele que eu vejo, espanta-se o pedreiro.
E as mãos dele enlouquecem até à exaustão.

Uma coisa nada humana sai do tronco de um
sicómoro. É a mulher esvaindo-se em cinza,
uma borboleta esmagada por um cilindro.
Porque era tarde demais e o amor do homem,
tal como as aves, morreu com o esplendor
das últimas uvas.

Jaime Rocha, Os que Vão Morrer, Relógio d'Água, 2000

Gary Cooper

Em tempos sombrios

Mas até nos tempos mais sombrios temos o direito de esperar ver alguma luz, e é bem possível que essa luz não venha tanto das teorias e dos conceitos como da chama incerta, vacilante, e muitas vezes ténue, que alguns homens e mulheres conseguem alimentar em quase todas as circunstâncias e projectar em todo o tempo que lhes foi dado viver neste mundo (...).

Hannah Arendt, Homens em Tempos Sombrios, Ana Luísa Faria (trad.), Relógio d'Água, 1991

sábado, 30 de janeiro de 2010

Uma cena de «Suddenly, Last Summer» de Joseph Mankiewicz, 1959


Ontem vi finalmente Suddenly, Last Summer, que me parece ser um filme perfeito do ponto de vista das interpretações e do argumento (o texto original é de Tenessee Williams, o argumento de Gore Vidal e Tenessee Williams). Espécie de meio caminho entre um Rei Édipo e as Bacantes. É difícil decidir de quem é a melhor interpretação, se a de Elizabeth Taylor ou se a de Katharine Hepburn.
Parti para o movimento da água
para o nome deste barco
premeditado incêndio de um corpo
de vigília e festas.

A aspereza é o nome
o acordado corpo
a incerteza o escreve.

João Miguel Fernandes Jorge, À Beira do Mar de Junho, Na Regra do Jogo, 1982
Corpo magoado rápido de passos
e ferido.

É o nome que levo.

*

Olhar limpo tudo
o que não vai morrer
connosco.

João Miguel Fernandes Jorge, À Beira do Mar de Junho, Na Regra do Jogo, 1982

Montgomery Clift

Outro segredo corre o rosto.

Fundámos uma história de água
entre nós e o mês de junho.

A pedra o nome
dos que têm esta terra
outro segredo.

João Miguel Fernandes Jorge, À Beira do Mar de Junho, Na Regra do Jogo, 1982

sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

O Senhor Gregory Peck e um Livro

Das nossas mãos que restará fazer?

Quem há-de lembrar
a cadeira a porta a árvore?

Pousando o tempo sobre o nosso sangue
pousando o sangue sobre o nosso corpo
das nossas mãos que restará fazer?

João Miguel Fernandes Jorge, À Beira do Mar de Junho, Na Regra do Jogo, 1982

O irmão gémeo
























Apresento-vos o irmão gémeo da Ilíada e do Guerra e Paz, versão short-stories. Recomendo-a nesta edição da Norton, porque a tradução é muito boa, embora o projecto gráfico seja desastroso.

The catcher in the rye

























J.D. Salinger (1919 - 2010)
Arma antiga o corpo
para o fogo
areia de muralha adivinhando
furor e vento outro sentido.

Sobre a memória
coisas de morte ou de silêncio
pousam devagar sobre as espáduas.

João Miguel Fernandes Jorge, À Beira do Mar de Junho, Na Regra do Jogo, 1982.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Do traduzir em linguagem


«Por que muitos que som leterados nom sabem trelladar bem de latim em linguagem, pensei escrever estes avisamentos pera ello necessarios.

Primeiro, conhecer bem a sentença do que ha de tornar e poê-la enteiramente, nom mudando, acrecentando, nem minguando algũa cousa do que está scripto.

O segundo, que nom ponha pallavras latinadas nem doutra linguagem, mas que todo seja em nosso linguagem scripto, mais achegadamente ao geeral boõ custume de nosso fallar que se poder fazer.

O terceiro, que sempre se ponham pallavras que sejam dereita linguagem, respondentes ao latim, nom mudando hũas por outras, assi que onde el disser per latim "scorregar", nom ponha "afastar", e assi em outras semelhantes, entendendo que tanto monta hũa como a outra; por que grande deferença faz, pera se bem entender, seerem estas pallavras propriamente scriptas.

O quarto, que nom ponha pallavras que, segundo o nosso custume de fallar, sejam avidas por desonestas.

O quinto, que guarde aquella ordem que igualmente deve guardar em qual quer outra cousa que se screver deva, scilicet: que screva cousas de boa sustancia, claramente, pera se bem poder entender, e fremoso o mais que elle poder, e curtamente quanto for necessario. E pera esto aproveita muito parragrafar e apontar bem.

(...)

E por que, per vosso requerimento, tornei em linguagem simprezmente rimada de seis pees de huũ consoante a oraçom de "justo juiz Jesu Cristo", vo-la fiz aqui screver, a qual, por a fazer consoar, nom pode compridamente dar seu linguagem, nem a fiz em outra milhor forma, por concordar com a maneira e teençom que era feicta em latim.

Justo juiz Jesu Cristo,
Rei dos Rex e boõ senhor,
que coo padre reinas sempre,
hu he d'ambos huũ
amor:
praza-te de me ouvir
pois me sento pecador.

Tu que do ceeo descendisti
enno ventre virginal,
hu, tomando logo carne,
livraste o segre de mal,
per teu sangue precioso
de perdiçom eternal

...

E traladei do livro dos Stabellicimentos de sam Joham Casiano, por exempro, esta parte de huũ capitollo ajuso scripto, ao pee da letera, que chamam os leterados "a contexto", o qual a alguũs nom muito praz, por seer scripto na maneira latinada. E queriam que se tirasse a sentença posta em mais geeral maneira de fallar. E outros dizem que bem lhes parece.

Porem, quando mandardes tornar algũa leitura de latim em nossa linguagem, a maneira que mais vos prouver mandaae que tenha aquel que dello tever carrego.»


D. Duarte (1391-1438), Leal Conselheiro
ed. F. Costa Marques, Lisboa, 1942
A caminho.

Poema cinco no Anfiteatro

Um comboio passa por um espelho e desfaz-se
na memória da pedra. Um homem entra na arena
vindo de um lago, o seu manto azul traz um risco
de sangue como se uma alga vivesse agarrada
aos seus ombros. É o momento da assombração,
uma mulher inclina-se para o sol e o seu corpo
transforma-se num mosaico. Os barcos dançam,
as ondas espalham-se pelas ameias devorando
o anfiteatro. São agora dois os homens e ambos
esmagam as mãos sacrificando-as às aves da noite.
Os seus olhos não alcançam mais do que um corpo
correndo no alto das colinas. O jogo continua, ninguém
vê já os contornos das árvores por detrás das muralhas.
Nem um fumo rasteiro deixado por esse vulto que cai
devagar pelos degraus e enlouquece.

Jaime Rocha, Os que Vão Morrer, Relógio d'Água, 2000

O que por vezes me irrita na bibliografia passiva é ela armar-se em activa

«Deixemos que o sol, a lua, a água, mas também o lobo ou a Morte nos digam pela sua simples presença a plenitude de um sentido que nós perturbamos pelo simples olhar.»
(Ontem à noite confundi isto com uns versos de Alberto Caeiro, hoje de manhã descubro que afinal se trata de Eduardo Lourenço a escrever sobre Caeiro.)
«Ficção do ser do eu, ou do eu como ser, ficção do universo como ser ou do ser do universo, ficção do ser de Deus ou de Deus como ser.»
(Podia ser um daqueles passos em código do Ulisses de Joyce, mas afinal é Eduardo Lourenço a falar-nos de heteronímia.)

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Visão cinco

Ali começava o paraíso, dizia ele. E toda
a gente sabia que era de Missolunghi
que ele falava. Na Grécia. Mas o corpo
dela estava frio, preso a uma tenaz.
E uma aranha entrava-lhe pela palma
da mão. Quando terminou a muralha,
deixou que a humidade lhe penetrasse
no corpo e só então o escondeu. Limpou-o
como se lavasse uma estátua e as suas
mãos percorreram-lhe os ombros
e o peito pela última vez. A mulher
mexeu-se ao avistar um barco. Era
a sua memória que pedia socorro.
Mas já o homem a enlaçava com
uma corda e a preparava para a noite.

Jaime Rocha, Os que Vão Morrer, Relógio d'Água, 2000.

Ítaca

A salsa, o lúcio não têm pressa
e o fio de azeite aprende a esperar.
Cada dia que passa, não sei como é -
jantamos mais tarde. Precisa uma casa
de ter quem a viva, quem reze por ela,
por isso te espero de roupa no chão,
sem nada vestido debaixo da pele.

Abrimos a água, enxugo-te o rosto
podemos agora deixar de mentir.
Só com o corpo, relógio parado,
deixámos o mundo a rugir no escuro.
Urtiga nenhuma nos vai separar.
Ouvimos o sulco da garra na porta
e rimo-nos baixo. Não sei como é -
cada dia que passa jantamos mais tarde.

José Miguel Silva, Ulisses já Não Mora Aqui, & etc, 2002