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sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

O amor no chão

O vento da outra noite derrubou o Amor
Que, no mais misterioso recanto do parque,
Nos sorria, ao esticar malignamente o arco,
E cujo ar nos fez meditar com fervor!

O vento da outra noite derrubou-o! O mármore
com o sopro da manhã, disperso, gira. É triste
Olhar o pedestal, onde o nome do artista
Se lê com muito esforço à sombra de uma árvore,

É triste ver em pé, sozinho, o pedestal!
Melancólicos vêm e vão pensamentos
No meu sonho, onde o mais profundo sofrimento
Evoca um solitário futuro fatal.

É triste! — E mesmo tu, não é? ficas tocada
Plo cenário dolente, embora te divirtas
Com a borboleta rubra e de oiro, que se agita
Sobre a alameda, além, de destroços juncada.

Paul Verlaine, Poemas Saturnianos e Outros, Fernando Pinto do Amaral (trad.), Assírio & Alvim, 1994. Tirado de aqui.

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Resignação

Durante a minha infância imaginava
o Ko-Hinor, luxo persa e papal,
Heliogábalo e Sardanapalo!

Sobre os tectos de ouro o desejo urdia,
Entre os perfumes e as melodias,
Hárens sem fim, pálpaveis paraísos!

Hoje, mais calmo e não menos vibrante,
Mas conhecendo a vida que nos quebra,
Tive de refrear a minha febre
Sem me resignar muito, no entanto.

Seja! A grandeza não é pròs meus dentes,
Mas não me interessa a escória, as cortesias!
Insisto em odiar mulheres bonitas,
Rimas toantes e amigos prudentes.

Paul Verlaine, Poemas Saturnianos e Outros, Fernando Pinto do Amaral (trad.) Assírio & Alvim, 1994

domingo, 7 de fevereiro de 2010

A angústia

Nada em ti me comove, Natureza, nem
Faustos das madrugadas, nem campos fecundos,
nem pastorais do Sul, com seu eco tão rubro,
A solene dolência dos poetas, além.

Eu rio-me da Arte, do Homem, das canções
Da poesia, dos templos e das espirais,
Lançadas para o céu vazio plas catedrais.
Vejo com os mesmos olhos os maus e os bons.

Não creio em Deus, abjuro e renego qualquer
Pensamento, e nem posso ouvir sequer falar
Dessa velha ironia a que chamam Amor.

Paul Verlaine, Poemas Saturnianos e Outros, Fernando Pinto do Amaral (trad.) Assírio & Alvim, 1994