I was young here. Riding
the subway with my small book
as though to defend myself against
this same world:
you are not alone,
the poem said,
in the dark tunnel.
Louise Glück, Averno, Farrar, Straus and Giroux, New York, 2006
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sexta-feira, 14 de janeiro de 2011
quarta-feira, 12 de janeiro de 2011
Meia dúzia de versos
Ontem li meia dúzia de versos de que queria falar. Até queria ter falado deles mais cedo, mas quando estava a ler fiquei sem post-its
[que é uma coisa que compro em lojas de chineses, às pilhas, como caixas de fósforos, e que semeio por toda a parte, o fundo da minha mochila costuma ser um depósito deles, mas ontem, nada, nem um, o depósito estava vazio, há ainda o pormenor de, na loja onde geralmente os compro, ser invariavelmente atendida por dois miúdos chineses gémeos, que até ao ano passado me falavam em coro, mas este ano pararam de o fazer, e que regra geral aparecem os dois invariavelmente vestidos com camisolas do Sporting],
e como fiquei sem post-its, levou-me mais tempo a encontrar estes versos de que queria falar. Anyway. É um par de versos que podiam ser aparentemente teóricos, mas acabam por chegar onde querem. Por vezes penso que há certa divisão, não rigidamente imposta e nem sempre existente, entre um tipo de poemas que são mágicos, nós estamos a lê-los e de repente repete-se aquela imagem que, se não foi o que valeu o nobel ao Salvatore Quasimodo, devia ter sido, como dizia, estamos a lê-los e parece que somos trespassados por um raio de sol e de súbito é sera, pelo seu fio de Ariadne somos levados à respiração de uma súbita noite, num movimento que acaba por sabotar o primeiro e mais imediato significado dos versos de Quasimodo (o de que é muito efémera a vida), isto é, somos levados a um lugar em que ficamos mais atentos e alerta, porque acabamos de ver algo que apenas tínhamos entrevisto e agora é posto debaixo dos nossos olhos com toda a nitidez, sem nenhuma palavra a mais (a última vez que me aconteceu isso foi quando li o primeiro poema que abre os Poemas de Juan Luis Panero). Mas estes versos não são deste tipo, a sua índole é outra.
São versos de Louise Glück, em que ela diz "But ignorance/ cannot will knowledge./ Ignorance wills something imagined, which it believes exists.", estes versos, por sua vez, tanto quanto me parece, ligam-se a outros da mesma Louise Glück, "The characters/ are not people./ They are aspects of a dilemma or conflict." Acho que estes dois excertos se ligam porque onde há dilema ou conflito
[que é uma coisa que compro em lojas de chineses, às pilhas, como caixas de fósforos, e que semeio por toda a parte, o fundo da minha mochila costuma ser um depósito deles, mas ontem, nada, nem um, o depósito estava vazio, há ainda o pormenor de, na loja onde geralmente os compro, ser invariavelmente atendida por dois miúdos chineses gémeos, que até ao ano passado me falavam em coro, mas este ano pararam de o fazer, e que regra geral aparecem os dois invariavelmente vestidos com camisolas do Sporting],
e como fiquei sem post-its, levou-me mais tempo a encontrar estes versos de que queria falar. Anyway. É um par de versos que podiam ser aparentemente teóricos, mas acabam por chegar onde querem. Por vezes penso que há certa divisão, não rigidamente imposta e nem sempre existente, entre um tipo de poemas que são mágicos, nós estamos a lê-los e de repente repete-se aquela imagem que, se não foi o que valeu o nobel ao Salvatore Quasimodo, devia ter sido, como dizia, estamos a lê-los e parece que somos trespassados por um raio de sol e de súbito é sera, pelo seu fio de Ariadne somos levados à respiração de uma súbita noite, num movimento que acaba por sabotar o primeiro e mais imediato significado dos versos de Quasimodo (o de que é muito efémera a vida), isto é, somos levados a um lugar em que ficamos mais atentos e alerta, porque acabamos de ver algo que apenas tínhamos entrevisto e agora é posto debaixo dos nossos olhos com toda a nitidez, sem nenhuma palavra a mais (a última vez que me aconteceu isso foi quando li o primeiro poema que abre os Poemas de Juan Luis Panero). Mas estes versos não são deste tipo, a sua índole é outra.
São versos de Louise Glück, em que ela diz "But ignorance/ cannot will knowledge./ Ignorance wills something imagined, which it believes exists.", estes versos, por sua vez, tanto quanto me parece, ligam-se a outros da mesma Louise Glück, "The characters/ are not people./ They are aspects of a dilemma or conflict." Acho que estes dois excertos se ligam porque onde há dilema ou conflito
[coisas que seres de ficção podem projectar, no sentido em que são feitos da matéria da vida mas também do que deles queira fazer quem os imaginou, daí talvez Louise Glück (a.k.a. sujeito poético, mas sempre achei esta terminologia tão da treta) acertar quando diz que as personagens não são pessoas mas aspectos de um dilema ou conflito]
há sempre e também a instintiva, vital pulsação de uma ignorância, de uma impossibilidade de impor uma certeza absoluta, é onde não podemos ter a certeza sobre que cabeça se poderá abater a espada de Dâmocles, se sobre a tua ou sobre a minha. Das muitas forças que levam à poesia, penso que estes versos descrevem, sem chegarem a ser mágicos, aquela que pode ser uma delas, porque há neles um eco da primeira ignorância espantada que nos deixa um dilema ou conflito, que temos de seguir inevitavelmente por definição de nós próprios, dos nossos passos. Por isso alguém já disse, ou poderia dizer, que a poesia é irmã da filosofia (tresanda-me a Aristóteles isto, mas não tenho a certeza), mas numa coisa talvez essencialmente se afaste dela, enquanto uma tendencialmente se inclina para uma racionalização, o que nem sempre sucede mas tendencialmente sim, ou pelo menos é este o seu ponto de partida, a outra pode caminhar por um rasto de cacos e pode nunca sair do caos, e mesmo assim ser tão assertiva como a outra, porque são dois tipos de discurso possíveis do mundo.
Tudo isto para finalmente concluir que muitos dos poemas deste livro de Louise Glück, Averno, me desiludiram tremendamente. Louise Glück tinha um tema excelente em mãos, o rapto de Perséfone e, embora alguns dos poemas sejam muito bons, a maior parte deles morre na praia, desfaz-se em soluções muito fáceis.
Tudo isto para finalmente concluir que muitos dos poemas deste livro de Louise Glück, Averno, me desiludiram tremendamente. Louise Glück tinha um tema excelente em mãos, o rapto de Perséfone e, embora alguns dos poemas sejam muito bons, a maior parte deles morre na praia, desfaz-se em soluções muito fáceis.
quinta-feira, 29 de abril de 2010
"I am at work, though I am silent" (sobre Louise Glück)
Averno pointed both backward and forward in Glück’s work. Like many of her earlier poems, it regarded its subjects through the lens of classical myth. Where Meadowlands (1997) explored the break-up of a modern marriage through the figures of Odysseus, Penelope, and Telemachus, and Vita Nova (1999) examined the grief of the abandoned or otherwise love-tormented woman in the Virgilian and Dantesque masks of Dido and Francesca, Averno took over the story of Persephone. Glück’s earlier self-destructive daughter-figures, driven by “the same need to perfect,/of which death is the mere by-product,” find their quintessence in the Persephone of Averno, and in the mysterious girl who burns a farmer’s field and disappears. Averno, a book of intricate, plural perspectives, views from many angles the daughter’s need to escape the Demeter-Mother—a mother who issues “a warning whose implicit message is:/what are you doing outside my body?” In Glück’s version, the daughter marries Death (Hades) in order to flee the formidable Mother.
This story helps to make sense of the recurrent figures of the starving girl in Glück’s work—the girl who finds her dangerous fulfillment in perfectionism, in separating soul from body: “I know what you want—” the speaker addresses the girl in “Fugue,” “you want Orpheus, you want death./Orpheus who said, ‘Help me find Eurydice.’/Then the music began, the lament of the soul/watching the body vanish.” Averno may be read as Glück’s finding her way back to life, on her own terms. The book’s triumph is the sequence “October,” an acerbic variation on Keats’s “To Autumn” in which Glück finds an autumnal music of her own: “I am/at work, though I am silent.”
This story helps to make sense of the recurrent figures of the starving girl in Glück’s work—the girl who finds her dangerous fulfillment in perfectionism, in separating soul from body: “I know what you want—” the speaker addresses the girl in “Fugue,” “you want Orpheus, you want death./Orpheus who said, ‘Help me find Eurydice.’/Then the music began, the lament of the soul/watching the body vanish.” Averno may be read as Glück’s finding her way back to life, on her own terms. The book’s triumph is the sequence “October,” an acerbic variation on Keats’s “To Autumn” in which Glück finds an autumnal music of her own: “I am/at work, though I am silent.”
segunda-feira, 21 de setembro de 2009
Um Mito de Devoção
Decidido a amar aquela rapariga,
Hades construiu-lhe um duplicado da terra,
tudo igual, até o prado,
mas com uma cama no meio.
Tudo igual, incluindo a luz do sol,
pois não seria fácil a uma rapariga nova
passar tão bruscamente da luz intensa à completa escuridão.
Aos poucos, pensou ele, faço entrar a noite,
primeiro as sombras das folhas agitadas.
Depois a lua, depois as estrelas. Depois sem lua, sem estrelas.
Que Perséfone se habitue lentamente ao escuro.
No fim, pensou ele, ser-lhe-á reconfortante.
Uma réplica da terra,
mas com uma excepção: amor.
Não é amor o que toda a gente deseja?
Ele esperou muitos anos,
construiu um mundo, observou
Perséfone no prado.
Perséfone, que amava os cheiros, os sabores.
Quem tem um apetite, pensou ele,
tem todos.
Não é o que toda a gente deseja sentir à noite -
o corpo amado, bússola, estrela polar,
ouvir a respiração tranquila, que significa
estou vivo, que significa ainda
estás vivo, porque me escutas,
porque estás aqui comigo. E quando um se volta,
volta-se o outro também -
Era o que ele pensava, o senhor das trevas,
ao contemplar o mundo que
construíra para Perséfone. Nunca lhe ocorreu
que já nada haveria ali para cheirar,
muito menos para comer.
Culpa? Terror? Medo de amar?
Nada disto podia ele conceber;
nenhum amante o concebe.
Ele sonha, pergunta-se que nome há-de pôr àquele lugar.
Primeiro pensa: O Novo Inferno. Depois: O Jardim.
Finalmente decide chamar-lhe
A Mocidade de Perséfone.
Uma luz ténue ergue-se acima do prado liso,
por detrás da cama. Ele toma-a nos braços.
Deseja dizer-lhe amo-te, nada te ferirá
mas compreende
que é mentira, e acaba por dizer
estás morta, nada te ferirá
o que lhe parece
um começo mais auspicioso, mais verdadeiro.
Louise Glück, Telhados de Vidro, nº 12, Averno, Rui Pires Cabral (trad.), Maio de 2009.
Hades construiu-lhe um duplicado da terra,
tudo igual, até o prado,
mas com uma cama no meio.
Tudo igual, incluindo a luz do sol,
pois não seria fácil a uma rapariga nova
passar tão bruscamente da luz intensa à completa escuridão.
Aos poucos, pensou ele, faço entrar a noite,
primeiro as sombras das folhas agitadas.
Depois a lua, depois as estrelas. Depois sem lua, sem estrelas.
Que Perséfone se habitue lentamente ao escuro.
No fim, pensou ele, ser-lhe-á reconfortante.
Uma réplica da terra,
mas com uma excepção: amor.
Não é amor o que toda a gente deseja?
Ele esperou muitos anos,
construiu um mundo, observou
Perséfone no prado.
Perséfone, que amava os cheiros, os sabores.
Quem tem um apetite, pensou ele,
tem todos.
Não é o que toda a gente deseja sentir à noite -
o corpo amado, bússola, estrela polar,
ouvir a respiração tranquila, que significa
estou vivo, que significa ainda
estás vivo, porque me escutas,
porque estás aqui comigo. E quando um se volta,
volta-se o outro também -
Era o que ele pensava, o senhor das trevas,
ao contemplar o mundo que
construíra para Perséfone. Nunca lhe ocorreu
que já nada haveria ali para cheirar,
muito menos para comer.
Culpa? Terror? Medo de amar?
Nada disto podia ele conceber;
nenhum amante o concebe.
Ele sonha, pergunta-se que nome há-de pôr àquele lugar.
Primeiro pensa: O Novo Inferno. Depois: O Jardim.
Finalmente decide chamar-lhe
A Mocidade de Perséfone.
Uma luz ténue ergue-se acima do prado liso,
por detrás da cama. Ele toma-a nos braços.
Deseja dizer-lhe amo-te, nada te ferirá
mas compreende
que é mentira, e acaba por dizer
estás morta, nada te ferirá
o que lhe parece
um começo mais auspicioso, mais verdadeiro.
Louise Glück, Telhados de Vidro, nº 12, Averno, Rui Pires Cabral (trad.), Maio de 2009.
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