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sábado, 4 de junho de 2011

Che fece... il gran rifiuto

A algumas pessoas um dia cai
em que o grande Sim e o grande Não sobrevém
dizer. Logo surge ao de cima a que tem
pronto dentro de si o Sim e ao dizê-lo vai

além da sua honra e do que está convencida.
A que negou não se arrepende. De novo interrogada
voltaria a dizer não. Mas tem-na derrotada
aquele não - o correcto - toda a sua vida.

Konstandinos Kavafis, Poemas e Prosas, Joaquim Manuel Magalhães e Nikos Pratsinis (trads.), Relógio d'Água, 1994

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Vinho

Sendo muito dados ao vinho, os persas tinham em grande estima aqueles que conseguiam beber muito sem ficar embriagados. De acordo com o conde de Ségur, uma inscrição no túmulo de Dario I mantinha que entre outros talentos ele tinha o de beber muito vinho sem ficar tocado; e Ciro, o Novo, na carta dirigida aos Lacedemónios em que se mostra ansioso por propor uma melhor pretensão à coroa do que o seu irmão, enumera entre as suas numerosas qualidades a de ser capaz de beber uma maior quantidade de vinho que Ataxerxes e de aguentar melhor.
Ciro, o Velho, orgulhava-se, na corte do seu avô Astiage, de que o seu pai nunca bebia mais vinho do que o necessário para mitigar a sede; e Heródoto diz-nos que nunca adoptavam uma resolução decidida enquanto bebiam a não ser que tivesse sido aprovada nas primeiras horas de sobriedade.

Konstandinos Kavafis, Poemas e Prosas, Joaquim Manuel Magalhães e Nikos Pratsinis (trads.), Relógio d'Água, 1994

quinta-feira, 2 de junho de 2011

Mar da manhã

Que eu me detenha aqui. E que também eu veja um pouco a natureza.
De um mar da manhã e de um céu sem nuvens
roxas cores brilhantes e margem amarela; tudo
belo e grande iluminado.

Que eu me detenha aqui. E que me engane para ver isto
(vi de verdade isto por um instante quando primeiro me detive);
e não aqui também os meus devaneios,
as minhas recordações, os modelos da volúpia.

Konstandinos Kavafis, Poemas e Prosas, Joaquim Manuel Magalhães e Nikos Pratsinis (trads.), Relógio d'Água, 1994

sábado, 19 de março de 2011

Não podes tirar uma fotografia a isto: já passou


















Ontem vi os últimos três episódios de Six Feet Under, os depois da morte de Nate. Há esta cena em que Ruth diz a Claire, this is the worst thing that could happen to anyone (a morte de um filho). Lembrei-me daquele poema de Kavafis, Deslealdade. Nesse poema, Kavafis fala da deslealdade de Apolo para com Tétis. A trama do poema é simples: o deus profetiza no casamento de Tétis com Peleu que o filho que nascer dessa união terá uma vida longínqua e que nunca será tocado pela doença. Enquanto Aquiles cresce, e a sua beleza é alarde da Tessália, a deusa recorda-se das palavras de Apolo e alegra-se. Mas um dia chegam de Tróia velhos mensageiros, trazendo a notícia de que Aquiles está morto. Tétis fica louca. Arranca cabelos, atira anéis ao chão, no meio do seu desespero pergunta, onde estava, onde estava Apolo, esse deus que diz palavras agradáveis nos banquetes. E os velhos respondem-lhe que o próprio Apolo desceu a Tróia e ajudou os troianos a matar Aquiles. E o poema acaba aqui, porque depois disto não havia mais respiração possível. Não havia como continuá-lo. Neste poema, guarda-se de verdade a imagem perfeita da deslealdade. Este era um oráculo que Apolo não podia ter dispensado a Tétis, porque ele deveria saber que não se concretizaria.
Com Ruth Fisher penso que a deslealdade é outra coisa, de outra forma. Podíamos dizer que é a vida que lhe é desleal. Ela já tinha perdido o primeiro Nathaniel, o marido, e o segundo Nathaniel (e em muitas coisas segunda versão de Nathaniel) já tinha sido poupado uma vez. Não lhe poderia ser tirado. Era um acordo tácito, que ela poderia ter pensado que a vida tinha assumido com ela. Alguma espécie de acordo. A violação deste acordo poderia querer dizer: a vida será sempre desleal connosco. Ficará para sempre em dívida para connosco porque somos efémeros.
Mas a verdade é que Apolo não mentiu a Tétis, pelo menos não tecnicamente, a doença nunca toca a Aquiles, ele morre demasiado jovem para que isso suceda, e a sua vida é de longa duração, porque a sua memória nunca perecerá (é ele próprio quem faz este acordo com o destino) porque haverá um Homero que o cante.
Mas Ruth Fisher, personagem, não é uma personagem de mitologia grega, é-nos mais próxima. É uma senhora da Califórnia em 2005, a excessiva proximidade da sua dor tira-nos o pouco distanciamento que tínhamos em relação a Aquiles. Porque Nate não é um herói mítico cuja morte fosse o nosso horizonte de expectativa em relação a ele.
Na cena em que Claire parte para Nova Iorque, ela pede à família que lhe resta que se junte para lhes tirar uma fotografia. Nate aparece-lhe como um espectro e diz-lhe qualquer coisa como: não podes fotografar isto, não podes fotografar isto porque já passou. O que ele poderia estar a dizer é: a vida é efémera, este momento que quiseste agarrar está morto. Mas o que ele lhe está a dizer é tens de te precipitar para o instante seguinte, vivê-lo o melhor que puderes. É por isso que Ruth não se mata, que não se afunda para sempre. Não é porque a dor pela morte de um filho pudesse de repente entrar nos limites do tolerável, é porque continuar a viver talvez seja conquistá-lo, a ele que se perdeu, a cada instante, em cada uma das coisas que continuam. Talvez seja por isso que Six Feet Under é tão bom. Daí a árvore que Andrei vê em Guerra em Paz.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

As Janelas

Nestas salas escuras, onde vou passando
dias pesados, para cá e para lá ando
à descoberta das janelas. - Uma janela
quando abrir será uma consolação. -
Mas as janelas não se descobrem, ou não hei-de conseguir
descobri-las. E é melhor talvez não as descobrir.
Talvez a luz seja uma nova subjugação.
Quem sabe que novas coisas nos mostrará ela.

Konstandinos Kavafis, Poemas e Prosas, Joaquim Manuel Magalhães e Nikos Pratsinis (trad.), Relógio d'Água, 1994

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Os Cavalos de Aquiles

Assim que viram Pátroclo morto,
tão denodado, e forte, e jovem no durar,
os cavalos de Aquiles começaram a chorar;
a sua imortal natureza se indignava
com esta obra da morte que contemplava.
Sacudiam as suas cabeças e as longas crinas moviam,
batiam na terra com as suas patas e carpiam
Pátroclo que sentiam sem alma - exterminado -
uma carne agora vil - seu espírito dissipado -
indefeso - a respiração parada -
da vida devolvido ao grande Nada.

Zeus viu as lágrimas dos imortais
cavalos e entristeceu. «No casamento de Peleu»
disse «não devia assim sem pensar ter feito eu;
antes meus cavalos vos não tivéssemos oferecidos
infelizes! Que procuráveis lá entre o caído
no brinquedo do destino que é a mísera humanidade.
Vós a que nem a morte arma cilada, nem a muita idade
precárias calamidades vos tiranizam. Nas suas provações também
vos envolvem os humanos.» As suas lágrimas porém
pela perpétua calamidade da morte
derramam os dois animais de nobre porte.

Konstandinos Kavafis, Poemas e Prosas, Joaquim Manuel Magalhães e Nikos Pratsinis (trad.), Relógio d'Água, 1994

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Ítaca, por Sean Connery


Quase uma curiosidade: o poema «Ítaca» de Konstantinos Kavafis lido por Sean Connery.

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Continua a voltar (Επεστρεφε)

Continua a voltar frequentemente e a tomar-me,
sensação amada continua a voltar e a tomar-me -
quando acorda a memória do corpo,
e desejo antigo volta a passar no sangue;
quando os lábios e a pele se lembram,
e sentem as mãos como se tocassem de novo.

Continua a voltar frequentemente e a tomar-me à noite,
quando os lábios e a pele se lembram...

Konstandinos Kavafis, Os Poemas, Joaquim Manuel Magalhães e Nikos Pratsinis (trad.), Relógio d' Água, 2005.

(Kavafis dá-me vontade de ir aprender grego [moderno] só para o poder ler no original. É daqueles livros que se lê uma vez e quando passamos por ele na estante o abrimos outra vez só para tornar a ler alguma coisa, aleatoriamente. Hoje saíu-me este poema.)

domingo, 20 de setembro de 2009

Fui (Επηγα)

Não me manietei. Dei-me totalmente e fui.
Aos deleites, que metade reais,
metade volteantes dentro da minha cabeça estavam,
fui para dentro da noite iluminada.
E bebi dos vinhos fortes, tal
como bebem os denodados do prazer.


Konstandinos Kavafis, Os Poemas, Relógio d’Água, Lisboa, 2005 (trad. Joaquim Manuel Magalhães e Nikos Pratsinis).

sábado, 19 de setembro de 2009

Muros

Sem introspecção, sem mágoa, sem pejo
grandes e altos em redor de mim construíram muros.

E fico e desespero agora no que vejo.
Não penso noutra coisa: na minha mente esta sina rasga furos;

porque tantas coisas havia lá fora a fazer por ti.
Quando construíram os muros como é que não reparei, ah.

Mas nunca o som dos pedreiros ou estrondo ouvi.
Imperceptivelmente cerraram-me do mundo que está lá.

Konstandinos Kavafis, Os Poemas, Joaquim Manuel Magalhães e Nikos Pratsinis (trad.), Relógio d' Água, 2005.