Mostrar mensagens com a etiqueta Judith Herzberg. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Judith Herzberg. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 28 de maio de 2010

Deut.20

Quem está na península da felicidade
que seja poupado pela morte.
Aquele que plantou uma vinha
mas não lhe provou ainda os frutos,
aquele que construiu uma casa
mas ainda não viveu nela
aquele que arranjou mulher
mas ainda não dormiu com ela.
Aquele que tem um caderno vazio, um
lápis por usar ou um lenço limpo.
Aquele que vê que vai chover.

Mas quem conhece o caminho numa cidade,
sabe assobiar num caule de erva
ou quem se entricheirou num grão de areia
e o vê como se fosse o mundo, não enxuga
o seu cavalo depois de uma cavalgada, não limpa
os óculos embaciados, viu a chuva cair,
usou o seu lenço, chorou as suas lágrimas -
Ou quem anseia voltar para o passado
para desenterrar os ossos enterrados
dar vida a coisas mortas ou juntá-las;
uma folha de Outono, um bilhete de cinema,
um pêlo púbico -
Podem mandá-lo para o campo de batalha, se for preciso,
sozinho - mas não esperem dele uma vitória.

Judith Herzberg
, O que resta do dia: Antologia de Poesia com um Texto em Prosa, Ana Maria Carvalho (trad.) Cavalo de Ferro, 2008.

Enterrado

As agulhas do calor e do tédio
espetadas na minha roupa emprestada
quando um dia de Verão temos de entregá-lo
por baixo de árvores experientes,
os açougueiros embuçados de negro
torsos embalsamados, costas recurvadas,
que páram o cortejo
com um último passo rotineiro
enquanto os cangalheiros - oito longas
patas de aranha seguem
com ele, o coração morto,
colina acima, rangendo
exactos, solenes, impassíveis.

E nós ali de pé, meio desamparados,
com a esperança em fuga desenfreada
e uma pressa incompreensível;
os últimos dez minutos
antes de uma amputação.

Judith Herzberg, O que resta do dia: Antologia de Poesia com um Texto em Prosa, Ana Maria Carvalho (trad.) Cavalo de Ferro, 2008.

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Bosque

Caminhando a falar de coisas que nós mais tarde -
Viver é mover-se e mover-se é
muito longe e muito lentamente estremecer.
Por cima de nós árvores fustigadas retesam os ramos.
Por baixo deste bosque pendurado sem vento
um bosque ao contrário, branco, sem luz
com árvores sem cor onde bichos escamosos
se encontram raramente e a mente.

Judith Herzberg, O que resta do dia: Antologia de Poesia com um Texto em Prosa, Ana Maria Carvalho (trad.) Cavalo de Ferro, 2008.

Amantes amantes

Piores que as crueldades cometidas por inimigos
são as crueldades entre amantes.
Como resistir de cabeça erguida
ao invasor que a saqueia? Um inimigo
não chega tão fundo, arremete contra a superfície.

Judith Herzberg, O que resta do dia: Antologia de Poesia com um Texto em Prosa, Ana Maria Carvalho (trad.) Cavalo de Ferro, 2008

Frequência

O teu número de telefone martela-me na cabeça
um ressoar ligeiramente agitado. Está em tudo
o que faço, impõe-se enquanto leio
enfia-se por baixo das palavras enquanto
escrevo.
E se o deixar por um momento à solta
corre então para o telefone e liga
para que na tua casa vazia ressoe
um som que ninguém ouve. Talvez
uma chávena vibre com ele se o tom
atingir a sua amplitude.
Quando muito estala uma jarra.

Judith Herzberg, O que resta do dia: Antologia de Poesia com um Texto em Prosa, Ana Maria Carvalho (trad.) Cavalo de Ferro, 2008.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Fica

Fica longe das pessoas de bom senso
fica perto dos apaixonados
nem que estejas só e não seja por ti
fica antes num luto perplexo
porque o bom senso é contagioso
e dá sempre cabo deles.

Judith Herzberg, O que resta do dia: Antologia de Poesia com um Texto em Prosa, Ana Maria Carvalho (trad.) Cavalo de Ferro, 2008

Jerusalém I

Já tarde, perto do fim,
o fia ainda se enche de luz.

Cidade que de noite não petrifica
em negro mas se dissolve num torpor
de amarelo e cor de rosa,
até que um candeeiro após outro
se transforma num ponto que a prende.

Parece que havia aqui hoje
uma cidade. Havia uma cidade?
Sim uma cidade de pedra.

Como era cremosa e todavia cintilante
a luz, como a noite chegava
tão devagar e tão depressa também.

Judith Herzberg, O que resta do dia: Antologia de Poesia com um Texto em Prosa, Ana Maria Carvalho (trad.) Cavalo de Ferro, 2008.

A poesia de Judith Herzberg

E desatei a ler esta poesia leve, em que cai a sombra dos dias e os pesadelos da memória, a leveza das lembranças também, anotações que serão, para que nada esqueça, para que alguma coisa se salve, a poesia será «o que resta do dia», na expressão tão pertinente que foi colher a Freud.
Sucinta, a sua poesia curva-se perante a ironia e a melancolia, é ácida e estóica, brinca e indica, realista e fantasista, trazendo ao verso uma língua que oscila e vibra, sentidos, formas, infantilidades e pesadelos, temores e sorrisos, essa espuma.

Jorge Silva Melo em Judith Herzberg, O que resta do dia: Antologia de Poesia com um Texto em Prosa, Ana Maria Carvalho (trad.) Cavalo de Ferro, 2008

(Dos 5.90 € que melhor gastei na Feira do Livro deste ano.)