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quarta-feira, 6 de junho de 2012

A vontade hesita no desdém
da descrição, demora
além do que vai narrar. Farrapos
no gancho pronto a recolher
ossos esboroados, a infecção
que doía na trincheira
dessa vala comum da noite diária
sobre a auto-estrada urbana.
Põe no mais alto esses cantares que do passado
descem digitalizados nos discos compactos
e ocupam a fermentação do tráfico.

A sinceridade despedaçada não é
uma ética da devastação
para o que de mim permanece de pé.
Mas uma rugosa ruína nos é comum,
um lixo de onde tem de erguer-se
o que nos faz viver. Como cantava
Lucho Gatica na canção de Briz,
Mi suerte necesita de tu suerte.
Olhos cinzentos que ninguém já diz
quando eu os procurava.

Joaquim Manuel Magalhães, in «A Cal e Canto», Alta Noite em Alta Fraga, Relógio d'Água,  2001.

terça-feira, 29 de maio de 2012

Há uma distância destruída

Há uma distância destruída
mesmo no lugar sobre o qual ousamos
reconhecer-nos sem nenhum sinal.
Perdem no artifício a proporção,
eles que foram sempre o meu aviso
sem nada cumprirem do que me avisavam.
E nessa lonjura de um olhar que quer perder-se
raiam na beleza dos mais justos filmes pornográficos.

O dízimo do mundo numa noite de outono,
o lugar aceso da lareira enferrujada,
o vazadouro agreste em que nos cerraram.
O que mata transporta estas oferendas,
esta catástrofe apaziguada,
enquanto detrás de um qualquer portão
se aproxima a máscara de cada forma,
toda por dentro da ossatura já desfeita
e nem então desaparecem.

Joaquim Manuel Magalhães, in «Adiafa», Alta Noite em Alta Fraga, Relógio d'Água,  2001.

sábado, 26 de maio de 2012

Melhor seria que não me lessem nunca
os que por costume lêem poesia.
Muito além deles conseguir falar
ao que chega a casa e prefere o álcool,
a música de acaso, a sombra de alguém
com o silêncio das situações ajustadas.

Não ser lido por quem lê. Somente
pelos que procuram qualquer coisa
rugosa e rápida a caminho de uma revista
onde fotografaram todo o ludíbrio da felicidade.
Que um poema meu lhes pudesse entregar,
ademais da morte,
um alívio igual ao de atirar os sapatos
que tanto apertam os pés desencaminhados.

Joaquim Manuel Magalhães in "Sangramento", Alta Noite em Alta Fraga, Relógio d'Água,  2001
Olhamo-nos e deixamos de nos reconhecer.
Às vezes penso que me sinto muito velho,
e a caminho de ficar endoidecido.
Um desses homens de fronteira,
fechado na empena do mundo
com todo o esquecimento da vida
a esfaqueá-lo por detrás.
Um desses a quem apenas falta
que despachos governamentais lhes mijem na cara.

Com isto, vê lá, queria seduzir-te,
leitor, que nunca saberei quem és.

Joaquim Manuel Magalhães in "Valvulina", Alta Noite em Alta Fraga, Relógio d'Água,  2001

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Road and trees

De noite. A meio coração. Perto da barra.
As traineiras, as luzes de mercúrio,
as felinas gaivotas,
a hulha do fortim,
as janelas ao luar da cerração.

A luz cega da felicidade
acende no escuro das rochas
a ardente natureza dos pinheiros,
dos freixos e salgueiros, da mal-amada
árvore dos figos e do pez.

Joaquim Manuel Magalhães, Alguns Livros Reunidos, Contexto, 1987

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Boats at Wharf

Ao nascer da lua por detrás das faias
acendem-se nos barcos as sombrias
linhas onde a água finda.
O zinco das nuvens arde
entre celeiros e um farol.
Um rapaz canta
a febre nova, sozinha, matinal.
O cais donde vai partir.
A arte de velejar.

Joaquim Manuel Magalhães, Alguns Livros Reunidos, Contexto, 1987

Seis

Tenho uma tristeza
no bolso de dentro
do velho casaco.
Dobrada, quebrado.
Tenho uma tristeza
suja de papel
e de letras gastas.

Eu quero deixá-la
no café sem noite
tiro-a do bolso
pouso-a nos olhos,
em cima da mesa
também é de ti.
Vinha de ninguém.

Charcos de jardim
dádiva na mão
triste, por abrir
e depois a dor
aperta-me o punho
por anoitecer.
Venho duma rua
para o teu lugar.

Olha para mim
para a sala toda
para esta tristeza
atirada ao chão
entre rastos de água
os dedos acolhem
um sorriso vão.

Parou tudo agora
neste ritual
que nada detém.
Bolso de casaco
costas da cadeira
chuva na cidade
vou da tua beira

para um quarto triste
com a mãe que dorme
noutro corredor
o sangue vigia
a pequena lei
a minha tristeza
chamavas-lhe amor.

Joaquim Manuel Magalhães, Alguns Livros Reunidos, Contexto, 1987

quarta-feira, 12 de maio de 2010

Nono

Uma flecha para um alvo novo. Nasceu
a urze onde deitaram a semente
da pimenta. Atrás de ti a cicatriz,
a branca luz nociva das lagoas, o naufrágio.

Os cavalos condutores do teu destino
são a vingança entre nós e a varanda
entre o caminho e o barranco,
a aba do meu chapéu.

Um dia diremos as coisas invisíveis,
os luminosos pântanos internos.
O suporte dos mitos salva do real
o real aniquilado pelos mitos.

Alguém para poder amar.

Joaquim Manuel Magalhães, Alguns Livros Reunidos, Contexto, 1987

terça-feira, 11 de maio de 2010

Venho de uma noite voltado
para o espaço que me diz
o amor, a cidade comanda-o.
Venho com as mãos e não estás.

Começo inseguro este descordo,
o ar arde na boca que perdeu a tua.

Sou uma ausência. Um erro.
Uma febre onde o futuro pára. Sorrio.

Joaquim Manuel Magalhães, Alguns Livros Reunidos, Contexto, 1987
Cresce na montanha o som da casa
um homem avança no caminho
ao encontro do vento.

Estragaste-me a tarde de domingo
como estragaste a minha vida.

Ama-se tão longe do amor
e tão perto e sem o ter
nas tardes de domingo.

Tudo se retira.
A cabeça vai explodir.

Joaquim Manuel Magalhães, Alguns Livros Reunidos, Contexto, 1987


segunda-feira, 10 de maio de 2010

No silêncio inimigo um homem chega

No silêncio inimigo um homem chega
Vinha de longe, da água.
Sobre as pedras desce a luz.

Passa no caminho com um cão.
A neblina do corpo
arranja o cabelo para trás,
abre a porta da casa.

Pela noite adiante
sonha que não sonha.

Joaquim Manuel Magalhães, Alguns Livros Reunidos, Contexto, 1987

7

Sobre o rio a neblina corre
alegria aberta para a neve
Incertas horas em que canta alguém.
Outro rio me levasse o corpo
este, tão cercado de barcos, não.

Joaquim Manuel Magalhães, Alguns Livros Reunidos, Contexto, 1987

quarta-feira, 30 de dezembro de 2009

Vai chegar a manhã.
A luz treme nos arbustos.
Algas, seixos, limos
guiam pelas fragas
a água sem fundura,
o ardor levantino do anil.

Ouves correr poalhas de bruma?
Silêncios do vento que renasce?

Seguro na mão que não seguras
uma lâmina de fogo, um erro
de árvores e olhas-me.

Pouso os lábios no teu pulso
para sentir o coração.
É tão perigoso ser feliz.

Joaquim Manuel Magalhães, Uma Luz com um Toldo Vermelho, Colecção Forma, Presença, 1990

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

Cascalho

Parecia findar, no pavio.
E estava lá, afundado
na água da cera,
um fulgor de nada,
a deflagração.

*

Atravessou o átrio,
abriu uma porta,
desapareceu. A chuva,
a suavidade da noite,
o copo de aguardente,
o último reduto por fechar.

*

A hora cega em que só vemos
a pele dos olhos a quebrar.

*

Eu canto o que não sei.

Joaquim Manuel Magalhães, Uma Luz com um Toldo Vermelho, Colecção Forma, Presença, 1990

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Juntamos toros e gravetos
para a lareira. Na mata
flutua o crepúsculo.
Marcos de luz a findar.

Vagas de zimbro, escórias,
o arpão do esquecimento.
A súbita melancolia da casa.

As janelas abrem para o rio
e a barra da ilha com névoa.
Podias ser tu de céu a céu.

A inquieta certeza da poesia
não admite questões. Descobre-se
ao virar da vinha, quando chegamos
ao tanque e não há ninguém.

Joaquim Manuel Magalhães, Uma Luz com um Toldo Vermelho, Colecção Forma, Presença, 1990

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

(A Devastação)

Findou o poente nas paredes.
Breves e desconhecidos
os pássaros
assomam ao repouso dos telhados.
As últimas enxadas levantam
pela penumbra dos aroeiros
a maresia musgosa dos terrenos.
Nos quelhos com rebanhos
voltam os tractores.
Arvoredo rasteiro, cila marítima,
marcos geodésicos, a despedida,
a devastação.

Joaquim Manuel Magalhães, Segredos, Sebes, Aluviões, Colecção Forma, Editorial Presença, 1985.

(Por campos e vozes que venho acender)

Lucernas, gaviões bordados na seda,
chamas riscadas por laços azuis, urdidos
para o pescoço recoberto de ouro.
No adro atapetado de relento
a coalhante flor dos cardos, nos molhos
presos às traves de telhas fluviais.
Sobe dos mordentes ao estuque dos tectos
um fio tecido por breves terrores,
por campos e vozes que venho acender.

Joaquim Manuel Magalhães, Segredos, Sebes, Aluviões, Colecção Forma, Editorial Presença, 1985.

terça-feira, 29 de setembro de 2009

(Tanta coisa de ti que nada sei)

Tão altas as primeiras árvores.
Vem a primavera destruí-las.
Fulgores fugazes os cabelos
à poeira do céu.

A alma pisada de caminhos,
o meigo revólver do olhar
vêem-te partir.
Por essa cidade, perdido
na suavidade da chuva.

Rasgam de novo as mãos
o inexpugnável nome
dos amantes, a flor secreta
que dizia a tua boca.

Tanta coisa de ti que nada sei.

Joaquim Manuel Magalhães, Segredos, Sebes, Aluviões, Colecção Forma, Editorial Presença, 1985.
Um anel de rio cobriu o granito.
Metade de ti fala comigo,
a outra metade com o que não sei.
O cardo na tua mão que nome tem?

O teu. Onde perdeste
o destino que te trouxe?
Ao longe no céu de outubro
a estrela do entardecer.

No centro da folhagem esse escorpião,
o resto do amor. Maré de suspeitas,
um motim.

Tudo o que vai poder ser dito
parece a morte.
Palavras sem peso algum.

Joaquim Manuel Magalhães, Segredos, Sebes, Aluviões, Colecção Forma, Editorial Presença, 1985.

Críton, 43b - 43d

As gentes vindas de Súnion,
a arte da morte, a lua de outubro.
As canas escondem o caminho.
A minha mão tocou-te. O mar
tributa essa canção de vida.
Depois parto. A floresta vê
o silencioso orvalho pousar.
O artifício da linguagem inventa
almas. E o olhar acredita,
vai de noite, encontra as gentes
que do promontório viam o navio.
A arte da morte. A poesia.

Joaquim Manuel Magalhães, Segredos, Sebes, Aluviões, Colecção Forma, Editorial Presença, 1985.