Mostrar mensagens com a etiqueta Jaime Rocha. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Jaime Rocha. Mostrar todas as mensagens

domingo, 31 de janeiro de 2010

Visão vinte e cinco

E eis que a mulher aparece dentro da sombra,
largando o sangue entre as árvores, e é o seu
corpo visível que se transforma e se deixa levar
pela noite, esquecendo que a sua alma está
presa ao homem que a algemou para sempre.

Não é ele que eu vejo, espanta-se o pedreiro.
E as mãos dele enlouquecem até à exaustão.

Uma coisa nada humana sai do tronco de um
sicómoro. É a mulher esvaindo-se em cinza,
uma borboleta esmagada por um cilindro.
Porque era tarde demais e o amor do homem,
tal como as aves, morreu com o esplendor
das últimas uvas.

Jaime Rocha, Os que Vão Morrer, Relógio d'Água, 2000

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Poema cinco no Anfiteatro

Um comboio passa por um espelho e desfaz-se
na memória da pedra. Um homem entra na arena
vindo de um lago, o seu manto azul traz um risco
de sangue como se uma alga vivesse agarrada
aos seus ombros. É o momento da assombração,
uma mulher inclina-se para o sol e o seu corpo
transforma-se num mosaico. Os barcos dançam,
as ondas espalham-se pelas ameias devorando
o anfiteatro. São agora dois os homens e ambos
esmagam as mãos sacrificando-as às aves da noite.
Os seus olhos não alcançam mais do que um corpo
correndo no alto das colinas. O jogo continua, ninguém
vê já os contornos das árvores por detrás das muralhas.
Nem um fumo rasteiro deixado por esse vulto que cai
devagar pelos degraus e enlouquece.

Jaime Rocha, Os que Vão Morrer, Relógio d'Água, 2000

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Visão cinco

Ali começava o paraíso, dizia ele. E toda
a gente sabia que era de Missolunghi
que ele falava. Na Grécia. Mas o corpo
dela estava frio, preso a uma tenaz.
E uma aranha entrava-lhe pela palma
da mão. Quando terminou a muralha,
deixou que a humidade lhe penetrasse
no corpo e só então o escondeu. Limpou-o
como se lavasse uma estátua e as suas
mãos percorreram-lhe os ombros
e o peito pela última vez. A mulher
mexeu-se ao avistar um barco. Era
a sua memória que pedia socorro.
Mas já o homem a enlaçava com
uma corda e a preparava para a noite.

Jaime Rocha, Os que Vão Morrer, Relógio d'Água, 2000.