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quarta-feira, 30 de maio de 2012

Odysseus to Telemachus



My dear Telemachus,
The Trojan War
is over now; I don't recall who won it.
The Greeks, no doubt, for only they would leave
so many dead so far from their own homeland.
But still, my homeward way has proved too long.
While we were wasting time there, old Poseidon,
it almost seems, stretched and extended space.

I don't know where I am or what this place
can be. It would appear some filthy island,
with bushes, buildings, and great grunting pigs.
A garden choked with weeds; some queen or other.
Grass and huge stones . . . Telemachus, my son!
To a wanderer the faces of all islands
resemble one another. And the mind
trips, numbering waves; eyes, sore from sea horizons,
run; and the flesh of water stuffs the ears.
I can't remember how the war came out;
even how old you are--I can't remember.

Grow up, then, my Telemachus, grow strong.
Only the gods know if we'll see each other
again. You've long since ceased to be that babe
before whom I reined in the plowing bullocks.
Had it not been for Palamedes' trick
we two would still be living in one household.
But maybe he was right; away from me
you are quite safe from all Oedipal passions,
and your dreams, my Telemachus, are blameless.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Vladimir Khlebnikov por Brodsky

Russian is a highly inflected language. A word in Russian gets changed not only by gender, number, and its grammatical function in the sentence; it is also modified by prefixes, suffixes, and infixes. This is what everyone does, but Khlebnikov went to town with it. At times his verse sounds like what birds presumably heard from St. Francis. Under his pen, nouns, verbs, adjectives, adverbs, and prepositions undergo mutations as mind-boggling as those of a cell hit by immense radiation. Beautiful or grotesque, the results are often memorable, if only because the trophy of a word's meaning is paid for with the casualties of his mutilated grammar.
About 80 percent of Khlebnikov's verse and prose are utterly unpalatable and incomprehensible. The remaining 20 percent are diamonds of an unparalleled splendor, although the trouble of extracting them from the mud heap of the rest is formidable. For that reason, and not because of Khlebnikov's anarchic cosmic worldview, the above-mentioned six volumes were never reprinted in the course of the last 40 years. He is to be represented by a selection, and this is what Nicholai Stepanov, one of the most authoritative Khlebnikov scholars, produced in Russia in 1960. This edition contained approximately 80 pieces of poetry, of various lengths, put in chronological order. A similar attempt is made now by Paul Schmidt, in English, apparently in a far more haphazard manner.
Ler mais aqui.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Flecha Persa

Para Véronique Schiltz

Tua haste de madeira desapareceu e desapareceu o corpo
em que não acertaste no ano zero.
Enferrujaste, mas mesmo assim até mim cruzaste,
discípula de Zenão, os ares.

Tiquetacam os relógios. Contudo, e isto é pedante,
como um líquido fechado num recipiente,
estão imóveis. Ao passo que tu és movente,
sendo aos seus segundos indiferente.

Sabias quanto de ti se separaria
na corda e a ela talvez regressaria
quando do arco arrancaste e voaste
para o outro lado do Eufrates?

Mesmo assim, agora que descansas na quentura da mão,
nesta tarde fria, neste quarto estranho,
e pareces, no teu bronze esverdeado,
uma folha de louro que sobreviveu ao guisado,

tu moves-te veloz. No deserto ninguém consegue
acompanhar-te, e por forças das coisas, no presente.
Pois todo o calor é efémero. Com mais razão,
o da palma da mão.

Fevereiro de 1993


Iosif Brodskii, Paisagem com Inundação, Carlos Leite (trad.), Livros Cotovia, 2001.

domingo, 18 de outubro de 2009

No Centenário de Anna Akhmatova

E a página e o fogo, e a mó e o grão,
e o gume do machado e o cabelo cortado,
Deus tudo conservará, sobretudo as palavras
de perdão e de amor que são o âmago da sua voz.

Nelas o pulso forçado luta, nelas o osso range,
nelas a pá rasga a terra. Monocórdicas e surdas,
porque a vida é una, ressoam mais claras na boca
dos mortais do que no algodão em rama do céu.

Do outro lado dos mares saúdo a grande alma
que as encontrou e a sua parte mortal que agora
dorme na terra natal a que tu deste
o dom da palavra neste mundo surdo-mudo.

Iosif Brodskii, Paisagem com Inundação, Carlos Leite (trad.), Livros Cotovia, 2001.

Centauros II

Irrompem bruscamente do futuro e, tendo gritado, "Em vão!"
ao futuro regressam prontamente num sapateado audível.
Naquele ramo estão pousadas aves maiores do que o espaço e não
têm penas nem peninhas que as cubram, mas apenas um "Que horrível!"
Um mar horizontal tingido de sol poente.
Uma tarde de Inverno, cansada da penúria
de azul, esvai-se - como um átomo tende
para a desintegração, etc. - na sucessão das horas.
Os restos de um fósforo apagado, uma estátua nua, um estrado
de dança vazio de pessoas são demasiado
reais, demasiado estereoscópicos, pois não existe
nada em que possam transformar-se.
Apenas as coisas planas, por exemplo, a água e o peixe,
têm o poder temporal de gerar um ictiossáurio.
Para os perfis resultantes duma explosão
Não existe amanhã nem sudário.

Iosif Brodskii, Paisagem com Inundação, Carlos Leite (trad.), Livros Cotovia, 2001.