Só uma vez agarrei esse momento
em que alguma coisa começa
mesmo, ao centésimo de segundo.
O meu coração parou por um
centésimo de segundo, as veias
todas pararam e um cabelo
rompeu, primaveril, na cabeça.
Alguém fugira num labirinto
sem saber que era labirinto
e por todo o tempo da vida
se enganou sem remédio, era
um daqueles casos em que o tempo
era espaço. E o amor era miragem.
E deixo eu o que estou a fazer,
por mais importante que seja,
para ir completar o que falta
num poema? Pois deixo, imagine-se:
o que falta num poema. Sem juízo
não se faz o que antes se fazia.
Esse centésimo de segundo demorou
uma eternidade, aproveitei
para cantar um hino à imortalidade
dos grandes poetas, dentro desse segundo
depois te amei desalmadamente.
Helder Moura Pereira, Mútuo Consentimento, Assírio & Alvim, Lisboa, 2005
Um amigo meu perguntou-me se me andava a divorciar quando me apanhou a ler este livro. Ele é de Direito.
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quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010
segunda-feira, 30 de novembro de 2009
Em que língua gritas tu, meu pesadelo
Em que língua gritas tu, meu pesadelo,
meu fantasma? Cem vezes seguidas
Nina Simone a cantar Sinnerman.
Don't you see I need you, rock?
E querias que cantasse contigo.
Sempre cantámos canções e atingimos
depois a plenitude, o silêncio: não cantamos,
não nos tocamos, não dizemos nada
que não seja útil. A tua última frase
com sintaxe (enrolaste a palavra dentro
de uma palmeira azul) pareceu-me
feliz, dentro do género surreal-charrado.
Eu podia mandar desenhá-la a desenhadores
desempregados, pôr moldura e tudo,
em vez destas letras que, de cada vez
que se formam intuitivamente no papel,
logo lançam reflexos nos meus joelhos.
Um assobio, uma pequena linha de seiva
e os dois com falta de paciência, leva-me,
poesia, na escada do desacerto e faz
de mim um lavador de pés, um menino
moldavo a limpar vidros nos semáforos.
Ao olhares bem de frente uma cara
de apatia, podias voltar à velha história
do espelho, e dizer isso em verso coxo,
mas não era nada disso, a apatia
eras tu, não outra pessoa, não eu, não
o meu espelho. Ah, eu já não te digo
nada, já não te canto nada como dantes.
Helder Moura Pereira, Mútuo Consentimento, Assírio & Alvim, Lisboa, 2005
meu fantasma? Cem vezes seguidas
Nina Simone a cantar Sinnerman.
Don't you see I need you, rock?
E querias que cantasse contigo.
Sempre cantámos canções e atingimos
depois a plenitude, o silêncio: não cantamos,
não nos tocamos, não dizemos nada
que não seja útil. A tua última frase
com sintaxe (enrolaste a palavra dentro
de uma palmeira azul) pareceu-me
feliz, dentro do género surreal-charrado.
Eu podia mandar desenhá-la a desenhadores
desempregados, pôr moldura e tudo,
em vez destas letras que, de cada vez
que se formam intuitivamente no papel,
logo lançam reflexos nos meus joelhos.
Um assobio, uma pequena linha de seiva
e os dois com falta de paciência, leva-me,
poesia, na escada do desacerto e faz
de mim um lavador de pés, um menino
moldavo a limpar vidros nos semáforos.
Ao olhares bem de frente uma cara
de apatia, podias voltar à velha história
do espelho, e dizer isso em verso coxo,
mas não era nada disso, a apatia
eras tu, não outra pessoa, não eu, não
o meu espelho. Ah, eu já não te digo
nada, já não te canto nada como dantes.
Helder Moura Pereira, Mútuo Consentimento, Assírio & Alvim, Lisboa, 2005
sábado, 28 de novembro de 2009
Cheguei a ter medo de te perder
Cheguei a ter medo de te perder,
tu não chegaste sequer a ter medo.
Este silêncio de já não termos palavras
ouve-se nas outras palavras que trocamos.
Miserável mundo nosso e alheio,
igual ao que todos disseram da sua época,
e pior, porque este vivemos nós
e conhecemos nós, cada um conforme pode.
Já morreram os ídolos todos da infância
e os da adolescência vão a caminho,
sobrevivente é o teu olhar cego
(hoje já só há um dos Righteous Brothers).
Na feira de velharias uma caixa
para tabaco com uma rosa verde.
Tem o preço ainda em escudos, uma falha
num dos cantos, uma pequena cruz de cal.
Permaneces aí, à lareira, lendo livros vivos
e o seu turbilhão de palavras profundas.
Nunca mais chega o medo de nos perdermos
eco um do outro em ricochete de silêncios.
Helder Moura Pereira, Mútuo Consentimento, Assírio & Alvim, Lisboa, 2005
(Noutro dia um amigo apanhou-me a ler este livro e perguntou-me se me estava a divorciar.)
tu não chegaste sequer a ter medo.
Este silêncio de já não termos palavras
ouve-se nas outras palavras que trocamos.
Miserável mundo nosso e alheio,
igual ao que todos disseram da sua época,
e pior, porque este vivemos nós
e conhecemos nós, cada um conforme pode.
Já morreram os ídolos todos da infância
e os da adolescência vão a caminho,
sobrevivente é o teu olhar cego
(hoje já só há um dos Righteous Brothers).
Na feira de velharias uma caixa
para tabaco com uma rosa verde.
Tem o preço ainda em escudos, uma falha
num dos cantos, uma pequena cruz de cal.
Permaneces aí, à lareira, lendo livros vivos
e o seu turbilhão de palavras profundas.
Nunca mais chega o medo de nos perdermos
eco um do outro em ricochete de silêncios.
Helder Moura Pereira, Mútuo Consentimento, Assírio & Alvim, Lisboa, 2005
(Noutro dia um amigo apanhou-me a ler este livro e perguntou-me se me estava a divorciar.)
quarta-feira, 22 de julho de 2009
Um poema de Hélder Moura Pereira
Abre a janela para ouvires a sinfonia concertada
dos cães. Quando quisemos alterar os telhados
e remediar com isso um pouco das nossas vidas
procurámos a coincidência das nossas inaptidões.
Lances de paisagem protegida para, na sombra de um dia
mais tarde, fazerem nela guaritas para vigiar caminhos
de ferro sobre os mares. Tu és um índio novo, encostando
o ouvido à linha da água para ver um avião.
Vários andamentos dos cães, evitando o silêncio
e ganhando a seus donos confiança na defesa, a sua voz
(sim, é uma voz) atordoa os nervos estremecidos,
é como se todos os dias houvesse trovoada.
Quando afiam as unhas na terra ou na calçada, ferozes
para a definição de um espaço vital, sinto-me um gato
arqueado e se levo pela mão uma criança certamente
lhe transmito toda a mania do meu medo evidente.
Deitado nas guardas, com o cheiro a óleos de rodas,
desejo a insónia que prenda aos olhos das estrelas.
Helder Moura Pereira, Lágrima, Assírio e Alvim, 2002.
dos cães. Quando quisemos alterar os telhados
e remediar com isso um pouco das nossas vidas
procurámos a coincidência das nossas inaptidões.
Lances de paisagem protegida para, na sombra de um dia
mais tarde, fazerem nela guaritas para vigiar caminhos
de ferro sobre os mares. Tu és um índio novo, encostando
o ouvido à linha da água para ver um avião.
Vários andamentos dos cães, evitando o silêncio
e ganhando a seus donos confiança na defesa, a sua voz
(sim, é uma voz) atordoa os nervos estremecidos,
é como se todos os dias houvesse trovoada.
Quando afiam as unhas na terra ou na calçada, ferozes
para a definição de um espaço vital, sinto-me um gato
arqueado e se levo pela mão uma criança certamente
lhe transmito toda a mania do meu medo evidente.
Deitado nas guardas, com o cheiro a óleos de rodas,
desejo a insónia que prenda aos olhos das estrelas.
Helder Moura Pereira, Lágrima, Assírio e Alvim, 2002.
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