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segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Ideia do amor

Viver na intimidade de um ser estranho, não para nos aproximarmos dele, para o dar a conhecer, mas para o manter estranho, distante, e mesmo inaparente - tão inaparente que o seu nome o possa conter inteiro. E depois, mesmo no meio do mal-estar, dia após dia não ser mais que o lugar sempre aberto, a luz inesgotável na qual esse ser único, essa coisa, permanece para sempre exposta e murada.

Giorgio Agamben in Ideia da Prosa, João Barrento (trad.), Edições Cotovia, 1999.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2009

II.

Só a palavra nos põe em contacto com as coisas mudas. A natureza e os animais são desde logo prisioneiros de uma língua, falam e respondem a signos, mesmo quando se calam; só o homem consegue interromper, na palavra, a língua infinita da natureza e colocar-se por um instante diante das coisas mudas. A rosa informulada, a ideia da rosa, só existe para o homem.

Giorgio Agamben, Ideia da Prosa, João Barrento (trad.), Livros Cotovia, 1999
[É] importante que a representação pare um instante antes da verdade; por isso, só é verdadeira a representação que representa também a distância que a separa da verdade.

Giorgio Agamben, Ideia da Prosa, João Barrento (trad.), Livros Cotovia, 1999

terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Decadência

O aspecto mais farisaico da mentira implícita no conceito de decadência é a pedanteria com a qual, no próprio momento em que se lamenta a mediocridade e o declínio e se registam os presságios do fim, se faz em cada geração a lista dos novos talentos e catalogam as formas novas e as tendências epocais nas artes e no pensamento. Neste recenseamento mesquinho, muitas vezes de má fé, perde-se o único e incomparável título de nobreza que o nosso tempo poderia legitimamente reivindicar a propósito do passado: o de não querer já ser uma época histórica.

Giorgio Agamben, Ideia da Prosa, João Barrento (trad.), Livros Cotovia, 1999

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Os nossos sonhos não podem ver-nos - e esta é a tragédia da utopia. A confusão entre personagem e leitor - boa regra de toda a leitura - deveria funcionar também aqui. Acontece, porém, que o importante não é tanto aprender a viver os nossos sonhos, mas sim que eles aprendam a ler a nossa vida.

Giorgio Agamben, Ideia da Prosa, João Barrento (trad.), Livros Cotovia, 1999