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terça-feira, 4 de dezembro de 2012

All truths wait in all things

  The mask is something put on, something external. As a physical object it remains quite distinct from the man who wears it. He feels on him as something foreign, something which never wholly becomes part of himself; it hinders and constricts him. As long as he wears he is two things, himself and the mask. The more often he has worn and the better he knows it, the more of himself will flow into the figure it represents. But there is always one part of him which necessarily remains separate from it : the part that fears discovery, the part which knows that the terror he spreads is not his due. The secret he represents to those who see the mask from outside must also have an effect on himself inside it, but it clearly cannot be the same effect. They are afraid of the unknown; he is afraid of being unmasked. It is this fear which prevents him abandoning himself completely to the mask. His transformation can go a very long way, but it is never complete. The mask is a limit set to transformation. Because it can be torn away, its wearer is bound to fear for it. He must take care that he does not lose it; it must never be dropped and must never open. He feels every kind of anxiety about what may happen to it. Besides playing a part in his transformation, the mask is also a weapon or a tool which its wearer has to handle. He must manipulate it, remaining his everyday self, and, at the same time, must change into it as a performer. While he wears the mask he is thus two people and must remain two during the whole of his performance.

Elias Canetti, Masse und Macht, trad. Carol Stewart, Continuum, 1978.

domingo, 18 de setembro de 2011

A inesperada aparição do Logos no Evangelho de São João

A fé de Kien, tão inquebrantável como o seu receio ante uma humanidade que profanava livros, lançou-se por um terreno predilecto. Deplorava a fraqueza de Cristo, aquele estranho esbanjador. Multiplicação de pães e de peixes, curas e parábolas desfilaram pela sua mente e pensou na quantidade de livros que se teriam salvado com aqueles milagres. Sentiu que o seu actual estado interior se assemelhava ao de Cristo. Ele teria feito o mesmo em muitos casos, apenas com a diferença de que os objectos do amor de Cristo lhe pareciam aberrantes, tal como o daqueles japoneses. Como o filólogo ainda estava vivo nele, decidiu consagrar-se, quando o país voltasse à normalidade, a uma exegese textual completamente nova dos Evangelhos. Talvez Cristo não se referisse exactamente aos homens e uma hierarquia bárbara tivesse deturpado o sentido original das suas palavras. A inesperada aparição do Logos no Evangelho de São João dava pasto, precisamente porque a hermenêutica tradicional a atribuía a influências gregas, a diversas conjecturas deste tipo. Kien sentia-se suficientemente informado para fazer retroceder o Cristianismo às suas verdadeiras origens e, se bem que não fosse o primeiro a transmitir as autênticas palavras do Redentor a uma humanidade sempre disposta a ouvi-las, esperava, não sem certa convicção, que a sua interpretação fosse definitiva.

Elias Canetti, Auto-de-Fé
Trad.: Luís de Almeida Campos
Cavalo de Ferro

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

As ânsias de açoitar carne feminina

Desde a morte da filha, que era tuberculosa, não tinha voltado a bater numa mulher. Vivia sozinho. A sua profissão atarefada não lhe consentia tempo para andar com mulheres, incapacitando-o, além disso, para fazer conquistas. Às vezes deslizava a mão por entre a saia de uma criada e beliscava-lhe a nádega, mas fazia-o com tanta seriedade que deitava completamente por terra as suas já escassas possibilidades de êxito. Nunca chegava às palmadas. Havia anos que andava ansioso por açoitar à sua vontade carne feminina.

Elias Canetti, Auto-de-fé
trad.: Luís de Almeida Campos
Cavalo de Ferro

sábado, 27 de agosto de 2011

As crianças deviam crescer dentro de grandes bibliotecas particulares

Kien sentiu pena. O rapazito estava a corromper o seu espírito delicado e talvez ávido de leituras com aquela infame literatura de cordel. Anos mais tarde, talvez viesse a ler mais do que um livro infecto apenas por se ter familiarizado com o título desde criança. Como limitar a receptividade dos primeiros anos? Quando uma criança aprende a caminhar e a soletrar, fica à mercê tanto do pavimento de uma rua mal asfaltada como da mercadoria de qualquer pobre desgraçado que - o diabo lá saberá porquê - se dedicou a vender livros. As crianças deviam crescer dentro de grandes bibliotecas particulares. O contacto diário e exclusivo com espíritos sérios, um ambiente intelectual, sombrio e aprazível e um tenaz esforço de adaptação à ordem mais rigorosa, tanto no tempo como no espaço, que melhor forma de ajudar esses seres delicados na sua juventude?

Elias Canetti, Auto-de-Fé
Cavalo de Ferro
Tradução de Luís de Almeida Campos