Mostrar mensagens com a etiqueta Electra. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Electra. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 19 de setembro de 2012

Make noise

The play's centerpiece is a deception scene in which two men manipulate Elektra with lies to a point of near hysteria. She is an adult but unmarried female in the house of a mother who hates her and she has neither social function nor emotional context. She seems to squat on the doorstep of the house rather than live inside. Her sister calls her a maniac and waves her ideas away. Her brother treats her as superflous to his plans - he finds her wild, emotional, depressing. She is a woman stranded at doorways and passivity is killing her. 
There is only one thing she can do.
Make noise.

Anne Carson sobre Electra in Sophokles, "Elektra", An Oresteia, Faber & Faber, 2009.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Uma moeda de prata

Numa das cenas da Electra (de Eurípides), Orestes, pouco antes de ser reconhecido, diz ao antigo tutor do seu pai: «porque estudas o meu rosto como uma moeda de prata?». Na cena imediatamente anterior, Electra é tentada pelo camponês a quem fora confiada a reconhecer uma semelhança entre ela e o irmão em três objectos diferentes: a madeixa de cabelo que instantes antes fora depositada por um piedoso anónimo no túmulo de Agamémnon; no rasto de pegadas aí deixado; em qualquer peça de roupa que ela lhe pudesse ter dado quando ambos eram ainda crianças. Electra não encontra em nada disto semelhança rigorosamente nenhuma: o cabelo das mulheres cresce de modo diferente do dos homens; os pés dos homens são maiores; quando ela e o irmão se separaram eram tão jovens que nenhuma roupa que pudessem ter trocado lhe serviria agora. 
Na procura de um sentido para o sinal de uma presença, Electra  não vê nada e, sobretudo, não alimenta esperança nenhuma. É o ancião, que estuda o rosto de Orestes como se fosse «uma moeda de prata», que o há-de reconhecer, por meio de uma cicatriz no rosto, ferida feita em criança, numa qualquer brincadeira com Electra.
Penso que a cicatriz, assunto que pende entre os dois irmãos, tem um sentido duplo: ao mesmo tempo remete para proximidade entre ambos que existia já quando eram crianças e que fora interrompida (como uma ferida que se abre) e ao mesmo tempo é a marca quase invisível que torna Orestes inconfundível para quem o conhecesse. Os outros sinais que o acompanham, que o pudessem unir a Electra, tamanho dos pés, cabelo, roupa, são transitórios, contingentes. Orestes não poderia ser reconhecido em Argos por outra coisa que não uma marca na pele, um corte outrora feito na carne. E nisto penso que há uma semelhança, vaga, muito remota, com a forma como Ulisses é reconhecido em sua própria casa (a cicatriz no joelho, a este propósito cf. Erich Auerbach: «A cicatriz de Ulisses»). Uma forma perfeita de dizer que muito poucas coisas são de facto essenciais para que em tua casa te reconheçam. Por isso a Electra de Eurípides é este objecto ambíguo, oscilando entre o terrível (o acto por que/ para que estes dois irmãos se juntam de novo) e o terno (o amor que os une: cf. os versos em que se despedem um do outro), é, em última análise, um poema perfeitamente escrito na linha divisória entre a noite e o dia.