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quinta-feira, 18 de abril de 2013

A mãe dele estava nesse instante enrolando os cabelos em frente ao espelho do banheiro, e lembrou-se do que uma cozinheira lhe contara do tempo de orfanato. Não tendo boneca com que brincar, e a maternidade já pulsando terrível no coração das orfãs, as meninas sabidas haviam escondido da freira a morte de uma das garotas. Guardaram o cadáver num armário até a freira sair, e brincaram com a menina morta, deram-lhe banhos e comidinhas, puseram-na de castigo somente para depois poder beijá-la, consolando-a. Disso a mãe se lembrou no banheiro, e abaixou mãos pensas, cheias de grampos. E considerou a cruel necessidade de amar. Considerou a malignidade de nosso desejo de ser feliz. Considerou a ferocidade com que queremos brincar. E o número de vezes em que mataremos por amor.

Clarice Lispector, A menor mulher do mundo in Laços de Família. Edições Cotovia, 2006.

sábado, 19 de março de 2011

A terra que é sempre tão difícil

Não olhava para ninguém. Contrita como no dia em que no meio de todo o mundo tudo o que tinha bolsa caíra no chão e tudo o que tivera valor enquanto secreto na bolsa, ao ser exposto na poeira da rua, revelara a mesquinharia de uma vida íntima de precauções: pó-de-arroz, recibo, caneta-tinteiro, ela recolhendo do meio-fio os andaimes da sua vida. Levantou-se do banco estonteada como se estivesse se sacudindo de um atropelamento. Embora ninguém estivesse a prestar atenção, fazia o possível para que ninguém percebesse que estava fraca e difamada, protegia com altivez os ossos quebrados. Mas o céu lhe rodava no estômago vazio; a terra, que subia e descia a seus olhos, ficava por momentos distante, a terra que é sempre tão difícil.


Clarice Lispector, "O Búfalo", Laços de Família, Livros Cotovia, 2008

terça-feira, 8 de março de 2011

Oscar para a melhor cena num livro

Foi para o lavatório. Onde, diante do grande silêncio dos ladrilhos, gritou aguda, supersônica: Estou sozinha no mundo! Nunca ninguém vai me ajudar, nunca ninguém vai me amar! Estou sozinha no mundo!
Estava ali perdendo a terceira aula, no longo banco do lavatório, em frente a várias pias. "Não faz mal, depois copio os pontos, peço emprestado os cadernos para copiar em casa - estou sozinha no mundo!", interrompeu-se batendo várias vezes a mão fechada no banco. O ruído de quatro sapatos de repente como uma chuva miudinha e rápida. Ruído cego, nada se reflectiu nos ladrilhos brilhantes.

Clarice Lispector, "Preciosidade", Laços de Família, Livros Cotovia, 2008

Ter esperado

Como recuar, e depois nunca mais esquecer a vergonha de ter esperado em miséria atrás de uma porta?

Clarice Lispector, "Preciosidade", Laços de Família, Livros Cotovia, 2008