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quarta-feira, 27 de fevereiro de 2013

Pessoas

Por certo pensava que eu tinha a liberdade de falar ou de me calar. Ela não conseguia imaginar o silêncio que em mim reinava. Ninguém é capaz de imaginar tal silêncio. 
O senhor sabe o que significa pessoa? Significa máscara. Papel. O eu verdadeiro. A linguagem, quer-me parecer, depois de tudo isto, está ligada a pelo menos um destes três estados. O facto de todos eles me terem escapado queria dizer o mesmo que o silêncio total. Não se pode anotar nada sobre ninguém. Isso explica a lacuna de três dias no meu relatório.
Quando passados uns dias me  foi possível dizer SIM e NÃO, voltei a encontrar-me com pessoas.

Christa Wolf, Unter den Linden, "Auto Experimentação: Ensaio para um Relatório", Ana Maria Bernardo (trad.), Livros Cotovia, 1991.

quinta-feira, 7 de julho de 2011

Notas para uma definição de chorar no fim

A luz desapareceu. Está a desaparecer.
Eles vêm aí.

É aqui. Estes leões de pedra olharam-na. Na mudança de luz parece que se mexem.

Christa Wolf, Cassandra, João Barrento (trad.), Livros Cotovia, 1989.

quarta-feira, 6 de julho de 2011

Troilo

Seguia estritamente as leis do combate, em que desde a infância se distinguira. Troilo! Estremeci. Conhecia de antemão todos os seus passos, todas as voltas do pescoço, cada uma das figuras que descrevia com o corpo. Mas Aquiles, Aquiles a besta, não foi atrás da proposta do rapazinho. Talvez a não entendesse. Aquiles levantou com ambas as mãos a espada acima da cabeça e deixou-a cair sobre o meu irmão. Rolaram no pó, para sempre, todas as regras. Assim é que se faz.

Christa Wolf, Cassandra, João Barrento (trad.), Livros Cotovia, 1989.

terça-feira, 5 de julho de 2011

As coisas mais importantes

Quando nos vimos pela última vez, ele quis dar-me o seu anel, aquele com a serpente. Recusei com os olhos. Ele atirou-o da falésia para o mar. A curva que descreveu, brilhando ao sol, ficou-me marcada no coração. As coisas mais importantes ninguém nunca as saberá de nós. As tábuas dos escribas, endurecidas no fogo de Tróia, deixam os registos de contabilidade do palácio, cereais, vasos, armas, prisioneiros. Não há escrita para dor, felicidade, amor. Sinto isso como uma desgraça premeditada.

Christa Wolf, Cassandra, João Barrento (trad.), Livros Cotovia, 1989.

segunda-feira, 4 de julho de 2011

Ferro

[O] ferro em brasa tinha queimado em nós aquele lugar de onde podem vir a dor, o amor, a vida, os sonhos. Aquela zona sensível sem nome que faz de uma pessoa um ser humano.

Christa Wolf, Cassandra, João Barrento (trad.), Livros Cotovia, 1989.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Difícil

É difícil pôr em palavras os sinais pelos quais iniludivelmente sabemos as coisas quando já não podemos mais reflectir sobre um acontecimento.

Christa Wolf, Cassandra, João Barrento (trad.), Livros Cotovia, 1989.

domingo, 26 de junho de 2011

Nada

Como mais tarde percebi, ele conhecia-se mal, não se suportava a si próprio, e procurava resolver o problema atribuindo um único motivo a todos os actos e a todas as omissões: o amor próprio. Estava obcecado pela ideia de que a máquina do mundo não nos permite, ao mesmo tempo, ser bons para nós e para os outros. Nunca, mas nunca, nada quebrou a sua solidão.

Christa Wolf, Cassandra, João Barrento (trad.), Livros Cotovia, 1989.

sábado, 25 de junho de 2011

Fórmulas





















A mim assalta-me a ideia de que secretamente persigo a história do meu medo. Ou melhor, a história da sua erupção, mais exactamente ainda: da sua libertação. É verdade, também o medo pode ser libertado, e aí é que se vê como todo ele é indissociável de todos os oprimidos. A filha do rei não tem medo, pois medo é fraqueza, e a fraqueza combate-se com um treino férreo. A louca tem medo, está louca de medo. Da prisioneira espera-se que tenha medo. A mulher livre aprende a acabar com os medos que não são importantes e a não recear o grande e importante medo, porque já não é tão orgulhosa que o partilhe com outros. - Enfim, fórmulas.

Christa Wolf, Cassandra, João Barrento (trad.), Livros Cotovia, 1989.

Primeiro parágrafo

Foi aqui. Ela estava ali. Estes leões de pedra, agora sem cabeça, olharam-na. Esta cidadela, outrora inexpugnável, agora um montão de pedras, foi a última coisa que ela viu. Arrasaram-na um inimigo há muito esquecido e séculos, sol, chuva, vento. O mesmo céu, um bloco de azul carregado, alto, distante. Perto, os muros de construção ciclópica, hoje como ontem assinalando a orientação do caminho: para a porta sob a qual não jorra sangue. Para as trevas, para o matadouro. E sozinha.
A narrativa leva-me para a morte.

Christa Wolf, Cassandra, João Barrento (trad.), Livros Cotovia, 1989.