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quinta-feira, 22 de novembro de 2012

memória

- Em casas velhas há quartos que as pessoas esqueceram, sabem vocês? - perguntava o meu pai. - Abandonados há meses vão fenecendo entre paredes e chegam a fechar-se sobre si próprios, a cobrir-se de tijolos e a perder aos poucos a vida, uma vez que irremediavelmente perdidos para a nossa memória. As portas que os servem abrem-se ao patamar de uma escura escada de serviço e durante tanto tempo podem escapar à observação dos habitantes, que se enfiam dentro das paredes e vão apagar aí os seus vestígios, confundidas numa rede de fendas e fissuras. 

Bruno SchulzAs Lojas de Canela, Assírio & Alvim, 1987.

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

A reler

No mês de Julho o meu pai partia para águas e deixava-nos, à minha mãe, ao meu irmão mais velho e a mim, entregues aos dias de Verão de uma brancura de fogo, que inebriavam. Tontos de luz folheávamos o grande livro das férias que em todas as folhas cintilava de sol e conservava no mais fundo de si mesmo, com uma doçura que atingia o êxtase, a polpa das pêras douradas.

Bruno Schulz, As Lojas de Canela, Assírio & Alvim, 1987.

sábado, 15 de janeiro de 2011

É toda a gente açaimada ficar em suspenso

A nossa língua não possui palavras que permitam dosear o grau de realidade, definir-lhe o peso. Digamo-lo sem nenhum véu: a fatalidade deste bairro é nada haver nele que se realize, é toda a gente açaimada ficar em suspenso, esgotar-se prematuramente sem conseguir ultrapassar certos limites. Tivemos ocasião de referir a exuberância e a prodigalidade das intenções, dos projectos e das antecipações. Não passavam de uma fermentação precoce, e portanto estéril, de desejos.
(...) Vamos envolver-nos em confusões intermináveis até a nossa febre e a nossa emoção se esgotarem, gastas por esforços inúteis, por uma vã procura.

Bruno Schulz, As Lojas de Canela*, Tradução de Aníbal Fernandes, Assírio & Alvim, 1987.

*Este livro foi-me recomendado por um futuro grande escritor (impressão que, dizem fontes não identificadas, terá experimentado António Lobo Antunes ao apertar-lhe a mão -- o grande escritor ainda não terá conseguido livrar-se dessa impressão), André Rodrigues. É um belo livro. Sobretudo dois contos, «As Lojas de Canela» e «A Rua dos Crocodilos». Não me apetece explicar agora o porquê de destacar estes dois contos e não outros quaisquer. Fica para outro dia.

quarta-feira, 5 de janeiro de 2011

Onde dormitavam tardes

Em manhãs de muita luz, Adélia voltava abrasada como Pomona, regressava do esplendor do dia e despejava o cesto com todas as belezas coloridas do sol. Começava pelas cerejas brilhantes, inchadas de água por baixo da pele fina e transparente, as misteriosas ginjas negras com um sabor que não cumpria todas as promessas do cheiro, os damascos de polpa amarela onde dormitavam tardes longas e abrasadoras (...)
Bruno Schulz, As Lojas de Canela, Aníbal Fernandes (trad.), Assírio & Alvim, 1987.