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terça-feira, 2 de outubro de 2012

My cousin was a twin and a real card, he was christened Vincek and his brother was christened Ludvicek, and when they were a year old their mother was bathing them in a tub and popped out to a see a neighbor, and when she got back half an hour later one of them had drowned, and they were so much alike nobody could tell which one, Ludvicek or Vincek, so they flipped a coin, heads for Lucvicek, tails for Vincek, and it came up Ludvicek, but when my cousin Vincek grew up he began to wonder - and he had plenty of time for it, he was always out of a job - he began to wonder who really did drown, whether the person walking around on earth wasn't really Ludvicek and he, Vincek, was up in heaven, which led him to drink and to wander along the water's edge and go in swimming, testing the waters, so to speak, till at last he drowned, by way of proof that he hadn't been the one to drown back then...  

Bohumil Hrabal, Dancing Lessons for the Advanced in Age, 1995, Trad. Michael Henry Heim.

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Sem nome #2

Assim, há trinta e cinco anos que precipito os pacotes numa situação desesperada, risco os anos, os meses e os dias, contando quanto falta para nos aposentarmos, a minha prensa e eu; todas as noites trago, na minha pasta, livros para casa, e o meu apartamento, num segundo andar em Holesovice, está repleto de livros, livros apenas: a cave está cheia e o alpendre já não chega, a cozinha, a despensa e a retrete estão cheias, apenas o caminho para a janela e para o fogão estão livres, na retrete apenas há espaço para me poder sentar; por cima da sanita, à altura de um metro e meio já há traves e pranchas e em cima delas, até ao tecto, erguem-se os livros, quinhentos quilos de livros; chega um único movimento desajeitado ao sentar-me, um levantar imprudente, para tocar na trave mestra, e meia-tonelada de livros se precipitará sobre mim e me esmagará com as calças descidas. Mas como aqui já não se consegue acrescentar nem um só livro, assim, no quarto, em cima de duas camas juntas, mandei pôr traves e pranchas em forma de baldaquim, de um dossel de cama, sobre as quais estão arrumados livros até ao tecto; trouxe duas toneladas de livros para casa durante trinta e cinco anos, e, quando estou a adormecer, duas toneladas de livros como uma falena de dois mil quilos pesam sobre os meus sonhos. Às vezes, quando me viro inadvertidamente ou grito e me agito ao dormir, ouço, horrorizado, como os livros escorregam; chega apenas um leve toque de joelho, talvez apenas um grito e como uma avalanche tudo se precipitará sobre mim, uma cornucópia cheia de livros precisos cairá dos céus sobre mim e esmagar-me-á como um piolho.


Bohumil Hrabal, Uma Solidão Demasiado Ruidosa, Edições Afrontamento, tradução de Ludmila Dismánova e Mário Gomes, 1992.