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terça-feira, 18 de junho de 2013

Diante das vinhas

Diante  das vinhas abrasadas pelo inverno, penso no medo e na luz (uma única substância dentro dos meus olhos),

penso na chuva e nas distâncias atravessadas pela ira.

Antonio Gamoneda, Oração Fria, João Moita (sel., trad. e posf.), Assírio & Alvim, 2013.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Fileiras de prisioneiros

Sucediam-se fileiras de prisioneiros; homens carregados de silêncio e cobertores. Daquele lado do Bernesga eram contemplados com amizade e medo. Uma mulher, cansada e bela, abeirava-se com uma cestinha de laranjas, a última laranja queimava-lhe as mãos: sempre havia mais presos que laranjas.

Passavam debaixo das minhas varandas e eu baixava-me até aos ferros cujo frio não cessará no meu rosto. Em compridas fileiras eram levados às pontes e eles sentiam a humidade do rio antes de entrar na treva de San Marcos, nos tristes depósitos da minha cidade envergonhada.

Antonio GamonedaOração Fria, João Moita (sel., trad. e posf.), Assírio & Alvim, 2013.

terça-feira, 11 de junho de 2013

nos mercados abandonados

A minha amizade está sobre ti como uma mãe sobre o filho que sonha com facas.

Não te porei outra venda a não ser aquela que foi desfiada em redor do meu corpo, não te derramarei outro óleo a não ser aquele que descansa dentro dos meus olhos.

Certamente o silêncio é uma história horrível mas há um vigor que sucede ao desespero.

Recorda-te da paz nos mercados abandonados, recorda-te da doçura nos quartos onde o esquecimento se corrompia. Ninguém tinha razão nem esperança, que podíamos fazer.

Antonio Gamoneda, Oração Fria, João Moita (sel., trad. e posf.), Assírio & Alvim, 2013.

sexta-feira, 31 de maio de 2013

Amor

A minha maneira de te amar é simples:
aperto-te contra mim
como se houvesse um pouco de justiça no meu coração
e eu ta pudesse dar com o corpo.

Quando revolvo os teus cabelos
algo de belo se forma entre as minhas mãos.

E quase não sei mais nada. Só aspiro
a estar em paz contigo e a estar em paz
com um dever desconhecido
que às vezes também pesa no meu coração.

Antonio Gamoneda, Oração Fria, João Moita (trad.), Assírio & Alvim, 2013.

domingo, 11 de outubro de 2009

A luz anuncia-se nas facas e entram mendigos para o
mercado. O incessante fala rodeado de frutos.

Ainda é belo e miserável, diz as sílabas exactas, atra-
vessa o esquecimento.

Antonio Gamoneda, Livro do Frio, José Bento (trad.), Assírio e Alvim, 1998.
Há um ancião diante de uma senda vazia. Ninguém
regressa da cidade longínqua; apenas o vento sobre as
últimas pegadas.

Eu sou a senda e o ancião, sou a cidade e o vento.

Antonio Gamoneda, Livro do Frio, José Bento (trad.), Assírio e Alvim, 1998.

sábado, 10 de outubro de 2009

Amei as desaparições e agora o último rosto saiu de
mim.

Atravessei as cortinas brancas:

já há somente luz dentro dos meus olhos.

Antonio Gamoneda, Livro do Frio, José Bento (trad.), Assírio e Alvim, 1998.
Estou nu diante da água imóvel. Deixei minha roupa
no silêncio dos últimos ramos.

Isto era o destino:

chegar à margem e ter medo da quietude da água.

Antonio Gamoneda, Livro do Frio, José Bento (trad.), Assírio e Alvim, 1998.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Amei todas as perdas.

O rouxinol retumba ainda no jardim invisível.

Antonio Gamoneda, Livro do Frio, José Bento (trad.), Assírio e Alvim, 1998.

(Chuva)

Diante das vinhas abrasadas pelo Inverno, penso no
medo e na luz (uma única substância dentro de meus
olhos),

penso na chuva e nas distâncias atravessadas pela Ira.

Antonio Gamoneda, Livro do Frio, José Bento (trad.), Assírio e Alvim, 1998.