quinta-feira, 30 de junho de 2011

Fim de dia (4)

Versos a censurar de modo a ensaiar Aristófones com crianças












Imagem: Triunfo de Dioniso, Museu Arqueológico de Sarsina.

Dioniso: Rabisco tudo isso e palavreado, música de andorinhas, destruidores de arte que se põem a andar mais depressa sempre que conseguem um só coro, depois de mijarem uma única vez na tragédia. E tu já não serás capaz de descobrir um poeta fecundo, ainda que o procures, um que declame uma frase de boa estirpe.


Mais abaixo, novamente Dioniso.

Dioniso: Mas as razões porque vim com este disfarce, imitando-te, é para que me digas os teus hospedeiros, no caso de eu precisar deles: os hospedeiros de que te serviste quando foste procurar o Cérbero. Diz-me pois, aqueles portos, padarias, putarias, paragens, desvios, fontes, estradas, cidades, estalagens, estalajadeiras onde há menos percevejos.

E sobretudo estes:

Héracles: Depois, muito lodo e uma corrente permanente de excrementos e dentro dela todo aquele que fez mal a um hóspede e o que possuiu um garoto e lhe negou o dinheiro prometido ou deu uma sova na mãe ou partiu os queixos ao pai ou fez um juramento falso ou fez copiar uma fala de Mórsimo.

Aristófanes, As Rãs, Costa Ramalho (trad.), FESTEA, 2004.

quarta-feira, 29 de junho de 2011

No entendimento de outros, na coragem de combater, julgar, de penetrar em recessos de amor para que sois castrados.

Camões dirige-se aos seus contemporâneos

Podereis roubar-me tudo:
As ideias, as palavras, as imagens,
E também as metáforas, os temas, os motivos,
Os símbolos, e a primazia
Nas dores sofridas de uma língua nova,
No entendimento de outros, na coragem
De combater, julgar, de penetrar
Em recessos de amor para que sois castrados.
E podereis depois não me citar,
Suprimir-me, ignorar-me, aclamar até
Outros ladrões mais felizes.
Não importa nada: que o castigo
Será terrível. Não só quando
Vossos netos não souberem já quem sois
Terão de me saber melhor ainda
Do que fingis que não sabeis,
Como tudo, tudo o que laboriosamente pilhais,
Reverterá para o meu nome. E mesmo será meu,
Tido por meu, contado como meu,
Até mesmo aquele pouco e miserável
Que, só por vós, sem roubo, haveríeis feito.
Nada tereis, mas nada: nem os ossos,
Que um vosso esqueleto há-de ser buscado,
para passar por meu. E para outros ladrões,
iguais a vós, de joelhos, porem flores no túmulo.

Jorge de Sena, Metamorfoses, 1963

(Boa noite Marco apaga a luz)

Fim de dia (3)

Five Flights Up

Still dark.
The unknown bird sits on his usual branch.
The little dog next door barks in his sleep
inquiringly, just once.
Perhaps in his sleep, too, the bird inquires
once or twice, quavering.
Questions---if that is what they are---
answered directly, simply,
by day itself.

Enormous morning, ponderous, meticulous;
gray light streaking each bare branch,
each single twig, along one side,
making another tree, of glassy veins...
The bird still sits there. Now he seems to yawn.

The little black dog runs in his yard.
His owner's voice arises, stern,
"You ought to be ashamed!"
What has he done?
He bounces cheerfully up and down;
he rushes in circles in the fallen leaves.

Obviously, he has no sense of shame.
He and the bird know everything is answered,
all taken care of,
no need to ask again.
---Yesterday brought to today so lightly!
(A yesterday I find almost impossible to lift.)

Elizabeth Bishop, Geography III, 1976.

terça-feira, 28 de junho de 2011

Fim de dia (2)

Poem

About the size of an old-style dollar bill,
American or Canadian,
mostly the same whites, gray greens, and steel grays
-this little painting (a sketch for a larger one?)
has never earned any money in its life.
Useless and free., it has spent seventy years
as a minor family relic handed along collaterally to owners
who looked at it sometimes, or didn't bother to.

It must be Nova Scotia; only there
does one see abled wooden houses
painted that awful shade of brown.
The other houses, the bits that show, are white.
Elm trees., low hills, a thin church steeple
-that gray-blue wisp-or is it? In the foreground
a water meadow with some tiny cows,
two brushstrokes each, but confidently cows;
two minuscule white geese in the blue water,
back-to-back,, feeding, and a slanting stick.
Up closer, a wild iris, white and yellow,
fresh-squiggled from the tube.
The air is fresh and cold; cold early spring
clear as gray glass; a half inch of blue sky
below the steel-gray storm clouds.
(They were the artist's specialty.)
A specklike bird is flying to the left.
Or is it a flyspeck looking like a bird?

Heavens, I recognize the place, I know it!
It's behind-I can almost remember the farmer's name.
His barn backed on that meadow. There it is,
titanium white, one dab. The hint of steeple,
filaments of brush-hairs, barely there,
must be the Presbyterian church.
Would that be Miss Gillespie's house?
Those particular geese and cows
are naturally before my time.

A sketch done in an hour, "in one breath,"
once taken from a trunk and handed over.
Would you like this? I'll Probably never
have room to hang these things again.
Your Uncle George, no, mine, my Uncle George,
he'd be your great-uncle, left them all with Mother
when he went back to England.
You know, he was quite famous, an R.A....

I never knew him. We both knew this place,
apparently, this literal small backwater,
looked at it long enough to memorize it,
our years apart. How strange. And it's still loved,
or its memory is (it must have changed a lot).
Our visions coincided-"visions" is
too serious a word-our looks, two looks:
art "copying from life" and life itself,
life and the memory of it so compressed
they've turned into each other. Which is which?
Life and the memory of it cramped,
dim, on a piece of Bristol board,
dim, but how live, how touching in detail
-the little that we get for free,
the little of our earthly trust. Not much.
About the size of our abidance
along with theirs: the munching cows,
the iris, crisp and shivering, the water
still standing from spring freshets,
the yet-to-be-dismantled elms, the geese.

Elizabeth Bishop, Geography III, 1976.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Não compares: o vivente é incomparável.
Com que terno pavor se aceita
das planícies a uniformidade
e o arco do céu como doença.

Dele esperando notícia ou serviço,
ao ar submisso apelei, o percurso
compus, e naveguei pelo arco
das viagens que não têm começo.

Onde tenho mais céu é que vagueio,
mas ir de Vorónej, a dos cerros novos,
para os montes toscanos de todos os homens,
impede-mo esta angústia clara.

18 de Janeiro de 1937

Óssip Mandelstam, Fogo Errante, trad. Nina Guerra e Filipe Guerra, Relógio d'Água, 2001

Este poema é é (escreve-o!)

Uma arte

A arte de perder não é difícil de dominar;
tantas coisas parecem repletas da intenção
de serem perdidas que a sua perda não é desastre.

Perde alguma coisa a cada dia. Aceita a agitação
de chaves de casa perdidas, a hora mal gasta.
A arte de perder não é árdua de dominar.

Pratica em seguida perder mais longe, perder mais rápido;
lugares, e nomes, e o sítio para onde tencionavas
viajar. Nada disto será desastre.

Perdi o relógio de minha mãe. E olha! a última, ou
quase última, de três moradas amadas que me pertenceram perdeu-se.
A arte de perder não é árdua de dominar.

Perdi duas cidades, cidades amáveis. E, mais vasto,
alguns países que foram meus, dois rios, um continente.
Sinto-lhes a falta. Mas não foi um desastre.

- Mesmo ao perder-te (a voz que graceja, um gesto
que amo) não devo mentir. É evidente
que a arte de perder não é muito árdua de dominar
ainda que possa parecer um (escreve-o!) um desastre.

Elizabeth Bishop, Geography III, 1976. Tradução minha.

Fim de dia (1)

Difícil

É difícil pôr em palavras os sinais pelos quais iniludivelmente sabemos as coisas quando já não podemos mais reflectir sobre um acontecimento.

Christa Wolf, Cassandra, João Barrento (trad.), Livros Cotovia, 1989.

domingo, 26 de junho de 2011

Da tradução dos clássicos russos

To be cosily sitting by one's fireside again such a morning and to be feeling not at all the worse of it, seemed extraordinary to my mother; she would not have been surprised if it had laid her up with a violent sick headache. But no! Nothing of the kind; instead of that she was feeling particularly energetic and pleased with life, and long before Sophy's curiosity was half satisfied, she laid hold of the volume of Anna Karenina in the Russian and began '... the old monster says here...'
The news of Joe's dementia had spread very quickly to our dear friend and neighbour Sophy Petrovna, and directly she had heard that the coast was clear, that Joe was in the hands of the police, she had put on her goloshes and her fur tippet and had set off up the hill to hear all about it. At lunch she had teased my father and he had teased her back, and after lunch she had settled down to roll herself one cigarette after another and to hear, over the coffee, every detail from my mother. She had heard a great deal, but eventually my mother grew restive; a whole day was being wasted owing to that wretched man, and the heaven-sent opportunity of getting a Russian opinion on the passage which had been troubling her was being wasted too, because of Sophy's greediness for gossip. So seizing Anna Karenina she opened the pages and, as she scanned them hastily, her expression completely changed; all the rather shy, girlish propitiatory warmth left her face and her features assumed a sharp, masterful expression. Sophy was sometimes a little put out by my mother's manner while some of these special points were being referred to her. For she had a habit of picking out phrases which, though they would never have attracted attention had one been reading the book for pleasure, were always troublesome. And when she felt that she had solved the problem satisfactorily, my mother would split her explanation into two, and say:
'But you see, Sophy, that what you have said is ambiguous. Does he mean this - or that? He cannot have intended both.'

David GarnettBeany-Eye. Penguin Books, 1948


N.B.: a mãe de David Garnett, Constance Garnett, foi efectivamente uma prolífica tradutora de autores russos, nomeadamente Tchékhov.

Nada

Como mais tarde percebi, ele conhecia-se mal, não se suportava a si próprio, e procurava resolver o problema atribuindo um único motivo a todos os actos e a todas as omissões: o amor próprio. Estava obcecado pela ideia de que a máquina do mundo não nos permite, ao mesmo tempo, ser bons para nós e para os outros. Nunca, mas nunca, nada quebrou a sua solidão.

Christa Wolf, Cassandra, João Barrento (trad.), Livros Cotovia, 1989.

Flutuar

sábado, 25 de junho de 2011

the new man who was writing now in Russia

In any emergency it would, however, be much better if she were dressed and knew what was happening, and in any case she was feeling too uneasy to go to sleep. So she sat up. To pass the time she took a book of stories by the new man who was writing now in Russia, and opened it at one called 'Ward Number 6'. The slightly quizzical and sceptical lines round her mouth slowly vanished; she read more slowly and appreciatively as Tchehov's intention came home to her. It was terrible; it was scarifying - but it was a masterpiece with a most biting moral. Breathlessly, with a rather childish smile and parted lips, she read on.

David GarnettBeany-Eye. Penguin Books, 1948


Por fim, Ivan Dmítrich, vendo que era inútil resistir, deixou de raciocinar e entregou-se ao desespero e ao medo. Começou a isolar-se e a evitar as pessoas. O serviço, que já antes lhe repugnava, tornou-se-lhe insuportável. Tinha medo que o levassem a meter-se em sarilhos, que lhe metessem à socapa dinheiro de um suborno no bolso para depois o apanharem, ou que ele próprio, por descuido, cometesse um erro nos papéis oficiais que pudesse ser considerado fraude, ou que perdesse dinheiro que não fosse dele. É curioso: o seu raciocínio nunca dantes fora tão flexível e inventivo como agora que fantasiava, dia a dia, milhares de motivos sérios de receio pela sua liberdade e honra. Ao mesmo tempo, ia enfraquecendo a olhos vistos o seu interesse pelo mundo exterior, em particular pelos livros, e já a memória começava a traí-lo.


Tchékhov, Enfermaria n.º 6 (trad. de Nina Guerra e Filipe Guerra)

O mesmo gato, três dias diferentes












































Fórmulas





















A mim assalta-me a ideia de que secretamente persigo a história do meu medo. Ou melhor, a história da sua erupção, mais exactamente ainda: da sua libertação. É verdade, também o medo pode ser libertado, e aí é que se vê como todo ele é indissociável de todos os oprimidos. A filha do rei não tem medo, pois medo é fraqueza, e a fraqueza combate-se com um treino férreo. A louca tem medo, está louca de medo. Da prisioneira espera-se que tenha medo. A mulher livre aprende a acabar com os medos que não são importantes e a não recear o grande e importante medo, porque já não é tão orgulhosa que o partilhe com outros. - Enfim, fórmulas.

Christa Wolf, Cassandra, João Barrento (trad.), Livros Cotovia, 1989.

Primeiro parágrafo

Foi aqui. Ela estava ali. Estes leões de pedra, agora sem cabeça, olharam-na. Esta cidadela, outrora inexpugnável, agora um montão de pedras, foi a última coisa que ela viu. Arrasaram-na um inimigo há muito esquecido e séculos, sol, chuva, vento. O mesmo céu, um bloco de azul carregado, alto, distante. Perto, os muros de construção ciclópica, hoje como ontem assinalando a orientação do caminho: para a porta sob a qual não jorra sangue. Para as trevas, para o matadouro. E sozinha.
A narrativa leva-me para a morte.

Christa Wolf, Cassandra, João Barrento (trad.), Livros Cotovia, 1989.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

next morning the terror would be very near

Beany-eye found that drink had a very queer effect on him. So long as he was drinking, the nameless thing which he was afraid of kept a long way off, usually it was driven right away out of sight, and if Frank left him in the bar, the more he drank the more he could make the men laugh at what he said. Though, if he stayed long enough, some bastard was sure to laugh in the wrong place and would get crowned with a broken glass or an empty bottle. But Beany-eye himself always felt fine, and if he could drop off asleep or fall unconscious, he would be all right. But when he couldn't sleep, then things began to look different, and if he started to get the horrors, or to think of them before he did fall asleep, he knew that when he woke up next morning the terror would be very near.

David Garnett, Beany-Eye. Penguin Books, 1948

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Coplas

i
"Ninguém pode perder o que não possui"
Que se lixe essa gema abrasiva.
Eu posso perder o que quero. Eu quero-te.

ii

Minha querida, hei-de lamentar-te
para o resto da vida com ligeira
variação de cadência, minha querida.

iii

Meio-escarnecendo a meia-verdade, noto
«A brevidade feroz do amor sensual»
Sinto-me abalado, até por isso.

iv

É para ele que escrevo, para ela
que falo em contido silêncio. Entre eles
Serão tocados pela paixão que não lhes é familiar?


Geoffrey Hill, Selected Poems, Penguin Books, 2006. Versão Minha

quarta-feira, 22 de junho de 2011

4.

Deixa a mente ser mais preciosa do que a alma; não
Perdurará. A alma compreende o seu preço, implora a própria paz,
Resolve-se em lágrimas e suor, é possivelmente
Indestructível. Posso acreditar nisso.
Ainda que desprezasse o simples instinto de fé,
O expediente da concórdia, se me atrevesse,
Aquilo a que não me atrevo é um desperdício de história
ou governo vazio. Averróis, velho pagão,
Se ao menos tivesses acertado, se por si só Intelecto
Fosse lei absoluta, graça que bastasse,
As nossas vidas podiam ser um mito de cativeiro
Em que podíamos entrar: despovoada região
De neve sempre de novo caída, palácio brilhando
De perpétuo silêncio como de tochas.

Geoffrey Hill, Selected Poems, Penguin Books, 2006. Versão minha.

"Porquê os Clássicos": Herbert, Ítaca, bolinhos polacos e vinho

As fotografias da sessão de poesia dedicada a Zbigniew Herbert (FLUL, 21.6.'11) já se encontram disponíveis aqui.

Da tradução da poesia


De volta do belíssimo Hino a Eulália de Mérida, de Prudêncio (s. IV-V). Às tantas o latim diz 

curriculis tribus atque nouem
tres hiemes quater attigerat

o que em linguagem quer dizer, mais cousa menos cousa,

três e mais nove anos,
três invernos quatro vezes atingira

Mas o tradutor espanhol da reputada edição da BAC, Alfonso Ortega, acha que é uma maçada conservar o verso (que desperdício de papel, que está tão caro!), e acha que é uma tolice sem sentido esta mania que os poetas, sobretudo os antigos, têm de não dizerem as cousas como elas são. No meu tempo, resmungava Don Alfonso Ortega, Catedrático da Universidade Pontifícia de Salamanca, a minha avó dizia que já era noite, que tinha sono e que ia dormir. Agora estes poetas antigos dizem que já Apolo declinara e Diana refulgia no palatino ebúrneo e Mercúrio me afagava a cabeça com o sonífero caduceu. Tenham a santa paciência! Pelamordedeus! Eu cá é mais pão pão queijo queijo, rosnava do alto da sua cátedra salmaticente.

Mas que raio, pensou Don Alfonso Ortega, enquanto entornava os olhos catedráticos sobre o venerável cartapácio, então se três mais nove, são doze, e se quatro vezes três são doze - é a mesma cousa, pelamordedeus!, então para que é que o homem não disse logo que a santa muchacha tinha 12 anos? Valha-me Santa Eulália! Ora toca lá então a traduzir como deve ser, cogitou o Catedrático, e escarrapachou na página

Doce inviernos había alcanzado a ver ella en el transcurso de otros tantos anõs...

Mainada. Já agora eu sugeria que ele resumisse os 215 versos do hino em uma frase: 

la muchacha tenía doce años y sufrió martirio a manos de Calpurniano, en Mérida. Fin. 

A bem dizer, se é para violar o original e acabar com a poesia, sempre poupa papel e paciência ao pessoal.

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O boneco é de John William Waterhouse (1849-1917), e representa o martírio de Eulália.

Respublica

The strident high
civic trumpeting
of misrule. It is
what we stand for.

Wild insolence,
aggregates without
distinction. Courage
of common men:

spent in the ruck
their remnant witness
after centuries
is granted them

like a pardon.
And other fealties
other fortitudes
broken as named -

Respublica
brokenly recalled,
is archaic laws
and hymnody;

and destroyed hope
that so many times
is brought with triumph
back from the dead.

Geoffrey Hill, Selected Poems, Penguin Books, 2006

terça-feira, 21 de junho de 2011

Now is the Time

Excelente

Tu és agora um zero à esquerda, querido irmão. Mas quando somos jovens devemos ser um zero à esquerda, pois não há nada de mais pernicioso do que ser importante quando ainda se é demasiado novo, quando ainda é demasiado cedo. É claro, és importante para ti mesmo. Bravo. Excelente. Mas no mundo ainda não és nada, e isso é também excelente.

Robert Walser, Jakob von Guten: Um Diário, Isabel Castro Silva (trad.) Relógio d'Água, 2005.

segunda-feira, 20 de junho de 2011

The Jumping Boy - I

Here is the jumping boy, the boy
who jumps as I speak.

He is at home on the king's highway,
in call of the tall house, its blind
gable end, the trees - I know this place.

The road on broad contourings drawn out of sight,
stops - wherever - but not at Lyonesse,
though from Lyonesse I shall bring you,

through grimmed orchards, across gorse-hummocked
old common had everywhere given back
to the future of memory.

Geoffrey Hill, Selected Poems, Penguin Books, 2006

domingo, 19 de junho de 2011

Porquê os Clássicos?



















Na próxima terça-feira, pelas 19:00, estaremos no Anfiteatro 2 da F.L.U.L. para falar um pouco sobre as traduções de Herbert publicadas neste número da Ítaca. Apareçam. Clicar para aumentar a imagem.

Torres Vedras, Fevereiro de 2011





















































sábado, 18 de junho de 2011

Das luzes da Língua Arábiga para a aprendizagem da Língua Hebraica

Este foi o motivo, por que os Rabinos mais doutos, na inteligência do Texto Hebraico, se conduziam pelas luzes, que lhes oferecia a Língua dos Árabes. E quem poderá duvidar, que muitos Textos da Sagrada Escritura se não podem exprimir com toda a sua energia, faltando o suplemento deste Idioma? Por isso me atrevo a dizer, que podendo adquirir-se a perfeição na Língua Arábiga sem o conhecimento da Língua Hebraica, não pode esta perfeitamente saber-se, faltando-lhe o socorro, que lhe pode subministrar a Língua Arábiga.

Instituições da Língua Arábiga compostas por fr. António Baptista, Religioso da Província da Terceira Ordem de S. Francisco de Portugal, e Professor da mesma Língua no Convento de N. Senhora de Jesus de Lisboa. Para o Uso das Escolas da Mesma Congregação. Lisboa, 1774

Orthographia actualizada, para não abhorrecer os adeptos da inmutabilidade orthográphica, a contar dos últimos 30 annos, mas ponctuação e capitalização conservadas.

How does it feel?

Fotos do lançamento da Ítaca 3

Aqui.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Daqui a pouco

VI

Between bay window and hedge the impenetrable holly
srikes up again taut wintry vibrations.
The hellebore is there still,
half-buried; the crocuses are surviving.
From the front room I might be able to see
the coal fire's image planted in a circle
of cut-back rose bushes. Nothing is changed
by the strenght of this reflections.

Geoffrey Hill, Selected Poems, Penguin Books, 2006

quinta-feira, 16 de junho de 2011

[não me lembro de um título suficientemente divertido para este post]

Our catalogue of lunacy could go on for ever. For example, you probably know of the infamous Dr Tissot and his research on masturbation as a cause of blindness, deafness, dementia praecox and other misfortunes. And then there's another author, whose name I forget, who argued that syphilis is a dangerous disease because it can lead to tuberculosis.
A certain Mr Andrieu, in 1869, published a book on the dangerous of toothpicks. A Mr Ecochoard wrote about different methods of impalement, and in 1858 a Mr Fourmel held forth about the value of being beaten with a stick, providing a list of famous artists and writers who had benefited from this practice, from Boileau to Voltaire to Mozart.

Umberto Eco, in Umberto Eco e Jean-Claude Carrière, This is not the end of the book, London, 2011

Lançamento da Ítaca 3

Bloomsday 2011


How had he attempted to remedy this state of comparative ignorance?
Variously. By leaving in a conspicuous place a certain book open at a certain page: by assuming in her, when alluding explanatorily, latent knowledge: by open ridicule in her presence of some absent other’s ignorant lapse.

James Joyce, Ulysses

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Na fotografia: Eduardo Demidenko Sánchez, no Bloomsday de 2009. O Ulysses é meu, achado num alfarrabista.

Today is Bloomsday






























Imagem gamada daqui.

Feliz Flordedia

After God Shakespeare Joyce created most.

Ulysses, June 16th.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

A noite pede música

Sobre a Questão Homérica

When I was studying classics, a lecturer kept us wondering about the 'Homeric Question' for four months. His conclusion was as follows: 'We now know that the Homeric poems were probably written not by Homer, but by his grandson, who was also called Homer.'

Jean-Claude Carrière in Umberto Eco e Jean-Claude Carrière, This is not the end of the book, London, 2011

A sad and angry consolation

[...] I ask you:
what are poems for? They are to console us
with their own gift, which is like perfect pitch.
Let us commit that to our dust. What
ought a poem to be? Answer, a sad
and angry consolation
. What is
the poem? What figures? Say,
a sad and angry consolation. That's
beautiful. Once more? A sad and angry
consolation
.

De "The Triumph of Love CXLVIII"

Geoffrey Hill, Selected Poems, Penguin Books, 2006

Das Parábolas; ou, um texto que eu sei de cor mas quando foi para citar preferi ir confirmar que tinha tudo bem (não tinha)


Muitos se queixam de que as palavras dos sábios frequentemente são apenas parábolas, mas sem utilidade para a nossa vida do dia a dia, que é, afinal, a única que temos. Quando o sábio diz: “Passa para o outro lado”, não quer dizer que devemos ir para a outra margem, coisa que sempre poderíamos fazer, se o resultado do caminho valesse a pena. Refere-se, sim, a um lendário outro lado, a qualquer coisa que não conhecemos, que nem ele próprio consegue definir de forma mais exacta, e que por isso não nos serve de nada neste mundo. Todas essas parábolas querem dizer, no fundo, que o inexplicável é inexplicável, mas isso já nós sabíamos. Mas aquilo que nos dá que fazer todos os dias são outras coisas.

Ao que alguém disse: “Porquê toda essa resistência? Se vos deixásseis guiar pelas parábolas, transformar-vos-íeis vós próprios em parábolas e ficaríeis livres das canseiras diárias.”

E um outro respondeu: “Aposto que também isso é uma parábola.”

O primeiro: “Ganhaste.”

O segundo: “Sim, mas infelizmente só na parábola.”

O primeiro: “Não, na realidade. Na parábola perdeste.”



Kafka. Parábolas e Fragmentos. João Barrento (trad). A&A: 2004

terça-feira, 14 de junho de 2011

Pesadelos


"Los dos primeros cuentos de este libro son de índole fantástica. Sólo ocurrieron para siempre en la imaginación. El último, The Sailor's Return, es realista. Esperamos que nunca haya ocurrido, tan verosímil y tan dolorosa es la trama. Estas historias pertenecen al más antiguo de los géneros literarios, la pesadilla"
Jorge Luis BorgesBiblioteca personal.

Ouves

Por vezes, diante de certos poemas, parece-me que ecoam aquela pergunta insistente que Elytis faz em To Monogramma (salvo erro, na Tempestade há um passo em que Próspero pergunta o mesmo a Miranda insistentemente e parece não fazer sentido), esse «ouves-me» que chega de uma distância de coisas e tempo e que quando nos encontra significa. Muitos poemas são só isso uma forma de «ouves-me». Talvez por isso Paul Celan diga em Arte Poética - Meridiano e Outros Textos que não há grande diferença de princípio entre um aperto de mão e um poema. A voz interior que fende a distância e serve o sentido do toque quando te diz alguma coisa - no meio há esta falha de comunicação de que nunca nenhum de nós estará certo, o que, por uma quase falácia, talvez demonstre que a poesia é uma forma de caminhar sobre o abismo e daí o ouves-me hesitante, modo de tactear o escuro.

Pedimos a Jorge Luís Borges que escrevesse um poema sobre Ítaca e ele enviou-nos isto:

Arte poética

Mirar el río hecho de tiempo y agua
y recordar que el tiempo es otro río,
saber que nos perdemos como el río
y que los rostros pasan como el agua.

Sentir que la vigilia es otro sueño
que sueña no soñar y que la muerte
que teme nuestra carne es esa muerte
de cada noche, que se llama sueño.

Ver en el día o en el año un símbolo
de los días del hombre y de sus años,
convertir el ultraje de los años
en una música, un rumor y un símbolo,

ver en la muerte el sueño, en el ocaso
un triste oro, tal es la poesía
que es inmortal y pobre. La poesía
vuelve como la aurora y el ocaso.

A veces en las tardes una cara
nos mira desde el fondo de un espejo;
el arte debe ser como ese espejo
que nos revela nuestra propia cara.

Cuentan que Ulises, harto de prodigios,
lloró de amor al divisar su Itaca
verde y humilde. El arte es esa Itaca
de verde eternidad, no de prodigios.

También es como el río interminable
que pasa y queda y es cristal de un mismo
Heráclito inconstante, que es el mismo
y es otro, como el río interminable.

Jorge Luis Borges in El Hacedor (1960)

Leituras de férias


Only by having a sense of history's trajectory (even if one does not believe in Parousia) can one love earthly reality and believe - with charity - that there is still room for Hope. (Umberto Eco)


Umberto Eco, Card. Martini, Belief or nonbelief? A confrontation. [In cosa crede chi non crede?]

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Não é música


É um poema.

Chalaça

And behind the door of one of the closets there was a drawing in red pencil of a bearded man in a Roman dress with a brick in each hand and underneath was the name of the drawing:
  Balbus was building a wall.
  Some fellows had drawn it there for cod. It had a funny face but it was very like a man with a beard. And on the wall of another closet there was written in backhand in beautiful writing:
  Julius Cæsar wrote The Calico Belly.


James Joyce
, A Portrait of the Artist as a Young Man, Oxford University Press, 2000.

domingo, 12 de junho de 2011

From Psalms of Assize

I

Hinc vagantur in tenebris misere, quia non credunt veritati ipsi...
Querunt lumen confisi ipsis et non inueniunt.

Why should I strike you with my name
why made impress of proud wounds
come now belated
patrons of wrath
anxieties are not rectitudes
holiness itself falls
to unholy rejoicing
to ressurect the dead
myth
of our salvation
blasphemies no less
mercies
let us pray
Gabriel descend
as a mood almost
a monody
of chloroform
or florists roses
consensual angel spinning his words
thread
he descends
and light
sensitive darkness
follows him down

Geoffrey Hill, Selected Poems, Penguin Books, 2006

Hear

You may travel round the world and colonize the ends of the earth with your lines and yet never hear the singing yourself.

Lawrence Durrell, "Clea", The Alexandria Quartet, Faber & Faber, 2009 (primeira publicação: 1960)

Um poema de Anna Akhmátova

Professor de poesia

O lugar de professor de poesia em Oxford, desde de 1708, foi deixado vazio apenas duas vezes, a primeira entre 1916 e 1920, a segunda entre 1944 e 1946. O que eu não sabia é que no ano de 1946 o professor eleito foi uma lenda dos Estudos Clássicos, Sir C. M. Bowra, que é só um dos meus classicistas favoritos de todos os tempos. Seguiram-se-lhe, exactamente por esta ordem, Cecil Day Lewis, Auden e Robert Graves. Quero com isto dizer que ler a Wikipedia às 4 da manhã pode dar-nos alegrias.

sábado, 11 de junho de 2011

Yuppie!

Só agora me apercebi que em Maio o raio do blogue fez dois anos. Yuppie!

Mais logo




























Dicionário das Distâncias de Paulo Rodrigues Ferreira será lançado mais logo, pelas 16h00 na Livraria Livro do Dia, de Torres Vedras. Mais informações aqui.

sexta-feira, 10 de junho de 2011

As ruas de todos os dias (5)

from The Songbook of Sebastian Arrurruz

I

Ten years without you. For so it happens.
Days make their steady progress, a routine
That is merciful and attracts nobody.

Already, like a disciplined scholar,
I piece fragments together, past conjecture
Establishing true sequences of pain;

For so it is proper to find value
In a bleak skill, as in the thing restored:
The long lost words of choice and valediction.

Geoffrey Hill, Selected Poems, Penguin Books, 2006

Sem nome #3

— You made me confess the fears that I have. But I will tell you also what I do not fear. I do not fear to be alone or to be spurned for another or to leave whatever I have to leave. And I am not afraid to make a mistake, even a great mistake, a lifelong mistake and perhaps as long as eternity too.
  Cranly, now grave again, said, still gaily.
— Alone, quite alone. You have no fear of that. And you know what that word means? Not only to be separate from all others but to have not even one friend.
— I will take the risk, said Stephen.
— And not to have any one person, Cranly said, who would be more than a friend, more even than the noblest and truest friend a man ever had.
  His words seemed to have struck some deep chord in his own nature. Had he spoken of himself, of himself as he was or wished to be? Stephen watched his face for some moments in silence. A cold sadness was there. He had spoken of himself, of his own loneliness which he feared.
— Of whom are you speaking?
  Cranly did not answer.


James Joyce, A Portrait of the Artist as a Young Man, Oxford University Press, 2000.

Lyrisch Nitraat (1991)

 
 
 
 
 
 

quinta-feira, 9 de junho de 2011

sirenes

What I lost was not a part of this.

Geoffrey Hill, “Old Poet with Distant Admirers”

I

não pertenço à beleza fixa das coisas
sou só um elo na corrente que prende a noite
ao seu pedestal a mão fechada sobre o papel
juntos atravessámos as moradas da noite fomos
os habitantes pacatos dessas paredes escutei
de amigos o riso entre cigarros em bares que
placas não anunciam em ruas discretas que
só existem em lisboa às três da manhã escutei
o seu riso como um murmúrio de rio em cuja
corrente nos perdemos nem a notícia da ínfima
pegada na margem tomei parte em conversas que
não fariam o guião de nenhum filme lucrativo
essas conversas tomaram uma parte de mim
nunca soube se me baniram para sempre da
solidão ou se a moldaram mais perfeitamente

II

o que perdi não foram troços de ruas sem
nome o traço branco do giz no muro conversas
iniciadas na hora de partir o que eu perdi não
era parte disto era, o que tu não disseste, parte
de uma coisa que estava apenas em mim sofremos
tanto para arrancar as últimas raízes do solo
a notícia dessa árvore finalmente cortada chega-
-me tarde por correio expresso um papel deixado
entre livros numa caixa de cartão o que perdemos
já só está dentro da nossa cabeça a sua imagem
tão fielmente capturada finalmente feita em cacos
que palavras podiam avançar por entre destroços
nem o riso a verdadeira alegria nos redime é assim
que perdemos mesmo o que gravamos na memória

III

barcos em que atravessamos o mar de noite
a sua brancura cega nas águas um eco em
profundidade moeda caída no oceano não
chegaríamos a escutar o estrépito o pequeno
som que se esgota como dois tentando conversar
entre o barulho de sirenes essa frase o ressoar
da moeda caída no mar e tu do outro lado
o que disseste e isso está entre o que perdi
a música escutada em bancos de ferries
quando nada podia redimir esse peso que
te vergou os ombros a linha de cinzento
onde cai o primeiro traço da noite o que
perdi estava no tempo sem ser de tempo
a diferença é menos do que infinitesimal
e não servirá o teu lamento o sopro agudo
dessa sirene que te diz que terminou

IV

era alguma coisa antes presa à barreira
desse eco tornado som tornado coisa
um pequeno gesto sem fé a mulher que
olhando o relógio acaba a fitar as unhas
a ela ninguém lhe disse quando o esperava
ouvir «ontem não te vi em babilónia»
o que ela perdeu em nada ficou gravado
assim uma frase escrita num muro por alguém
de passagem que te traz a notícia distante
de não te ter visto uma folha dobrada em
quatro a carta veladamente passada de uma
mão para outra de que outro modo chegam
as mais distantes notícias para uma ausência
tua ou minha que importa se está no eco da
sirene que atravessa o mar projectada a tanta
distância aguda ensurdecedora quase terrível

V

a redenção disto está em nós e é sem memória
talvez se pareça com tardes de agosto que só
existem na agudeza de pátios brancos e quadrados
ou no ressoar da tua fala em claustro fechado
uma conversa que tentei seguir com a curiosidade
inconveniente que reservamos apenas
para o instante em que queremos ler os outros
incertas páginas de livros a redenção é também
uma forma de perda o que perdi era parte de
tudo viaja em longa distância dispersa-se pelo mundo
viaja sobretudo com o que amei encontra-me
à distância de janelas abertas na claridade ociosa
de um olhar que se projecta na distância e se perde



VI

o olhar sirene perdemos apenas o que não foi
verdadeiramente dito é disso que estamos
exilados há-de doer silenciosamente em horas
de lenta insónia quando estamos mais agudamente
conscientes do que somos para isso não haverá
um barco tardio para o qual possamos comprar
a travessia ou o cair de cansaço nos seus bancos
de ferro o que está perdido parece-se com o amparar
da cabeça contra o ombro o perscrutar de uma estrela
que entre nuvens não podemos escolher no páramo
por estes dias até os países se acabam em nevoeiro

Tatiana Faia

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Música para frases do género de «Ontem não te vi em Babilónia»

Goldfish

'He [James Joyce] might have been entitled to feel safe from ineffables like yourself who imagine that art is something that a good education automatically entitles you; that it is a part of a social equipment, class aptitude, like painting water-colours was for a Victorian gentlewoman! I can imagine his poor heart sinking as he studied your face, with its expression of wayward condescension - the fathomless self-esteem which one sees occasionally flit across the face of a goldfish with a hereditary title.' After this we never spoke, which was what I wanted. The art of making necessary enemies!

Lawrence Durrell, "Clea", The Alexandria Quartet, Faber & Faber, 2009 (primeira publicação: 1960)

terça-feira, 7 de junho de 2011

Ciceronianus, non Christianus


Como há muitos anos, por causa do Reino dos Céus, me tivesse privado de casa, parentes, irmã, familiares e, o que é coisa muito mais difícil, do hábito de fazer refeições abundantes, e me dirigisse a Jerusalém para batalhar, ainda não conseguira abdicar por completo da biblioteca que em Roma, com muito zelo e custo, tinha constituído para meu uso. E assim, infeliz, jejuava para depois ler [Marco] Túlio [Cícero]. Depois de muitas vigílias nocturnas, depois das lágrimas que arrancava do mais fundo das minhas entranhas, pegava num Plauto. E quando voltava a mim mesmo, e começava a ler os Profetas, a sua linguagem inculta horrorizava-me. E porque não via a luz com os olhos cegos, não considerava que a culpa fosse dos olhos, mas do Sol. 

Enquanto a antiga Serpente assim me iludia, em meados da Quaresma a febre introduziu‑se‑me nas entranhas, invadiu-me o corpo esgotado, e sem descanso algum (o que parece inacreditável de se dizer) de tal modo me devorou os infelizes membros, que pouco mais era do que pele e osso. Entretanto, preparavam-se as minhas exéquias, e, já arrefecendo o meu corpo, o calor vital da alma apenas palpitava no meu coraçãozinho morno, quando de repente, arrebatado em espírito, sou arrastado ao Tribunal do Juiz, onde tanta era a luz, e tanto o fulgor vindo do brilho dos circunstantes, que, prostrado por terra, não ousava olhar para cima. Tendo-me sido perguntado sobre a minha condição, respondi que era Cristão. E aquele que presidia disse: “Mentes! És ciceroniano, não Cristão! Na verdade, 'onde estiver o teu tesouro, aí está o teu coração' [Mat. 6:21]”. Imediatamente emudeci, e por entre os açoites (na verdade ele tinha ordenado que me açoitassem), mais era atormentado pelo fogo da consciência, considerando comigo mesmo aquele versículo 'mas no inferno quem te louvará?' [Sal. 6:6]. Então comecei a gritar, e a dizer gemendo: “Tem piedade de mim, Senhor, tem piedade de mim!” Estas palavras ressoavam por entre os chicotes. Finalmente, prostando-se os que ali estavam aos joelhos do Juiz, imploravam que perdoasse a minha juventude, e desse oportunidade ao meu arrependimento, e que ele voltaria a atormentar-me, se eu voltasse a ler os livros do gentios. Eu, que, apertado pela angústia daquele momento, teria querido prometer até coisas mais graves, comecei a jurar e, tomando o seu nome por testemunha, a dizer: “Senhor, se alguma vez possuir livros seculares, se alguma vez os ler, ter‑te-ei negado”. 

Dispensado depois de pronunciar este juramento, regressei ao mundo superior, e, perante a admiração de todos, tinha os olhos tão inundados de lágrimas, que fiz com que até os incrédulos tivessem confiança em mim. Mas aquilo não tinha sido um sono, nem sonhos vãos, com que somos tantas vezes iludidos. É disso testemunha aquele tribunal diante do qual jazi, e o terrível juízo que temi. Que nunca me volte a acontecer cair sob tal interrogatório! Juro que tinha as costas negras, que senti as chagas depois do sono, e que a partir daí li os textos divinos com zelo maior do do que aquele com que antes lera os mortais.

Jerónimo (347-420), Carta 22 a Eustóquio, 31.

Trad.: André Simões
Boneco: Bernardino Mei (c. 1612-c. 1676), A visão de São Jerónimo

De "The Mystery of the Charity of Charles Péguy"

...Must men stand by what they write
as by their camp-beds or their weaponry
or shell-shocked comrades while they sag and cry?

Geoffrey Hill, Selected Poems, Penguin Books, 2006

A song from Armenia

Roughly-silvered leaves that are the snow
On Ararat seen through those leaves.
The sun lays down a foliage of shade.

A drinking-fountain pulses its head
Two or three inches from the troughed stone.
An old woman sucks there, gripping the rim.

Why do I have to relive, even now,
Your mouth, and your hand running over me
Deft as a lizzard, like a sinew of water?

Geoffrey Hill, Selected Poems, Penguin Books, 2006

segunda-feira, 6 de junho de 2011

De "Coplas"

I

'One cannot lose what one has not possessed.'
So much for that abrasive gem.
I can lose what I want. I want you.

Geoffrey Hill, Selected Poems, Penguin Books, 2006

O que há de maravilhoso nestes três versos é o negar dessa reserva mental que entre o desejo e o seu objecto impõe uma falha que é um modo de não se dar totalmente. Nesse sentido, uma coisa que se parece com este poema é a final de Roland Garros ontem. Nadal, para mim, é o tenista por excelência do 'One cannot lose what one has not possessed.' Isto é demonstrado pelo facto de num jogo inteiro (posso estar enganada) só o ter visto subir uma - uma só - vez à rede. Federer, por outro lado, é o tenista do "I can lose what I want." Podes ver isso no modo como, querendo um ponto, ele tantas vezes o perde por precipitação. Em Federer e Nadal eu vejo o duelo entre duas coisas muito antigas. Ulisses e Aquiles (na comparação talvez mais apta de David Foster Wallace Apolo e Dioniso). O diametralmente oposto medindo-se palmo a palmo. Em linhas gerais, acho que as pessoas são assim (por isso é que o ténis é uma boa metáfora para a vida). Há aqueles que jogam sempre no fundo do court, se falharem o seu ponto, levam os dedos às cordas da raquete, testam a pressão e dizem: eu não posso perder o que não possuí. Ao ver aquele ponto podia ter corrido para a bola ou não. A minha inteligência dizia-me que já estava meio perdido. Há depois aquelas pessoas para quem o mero desejo as prende ao que desejaram. Estas pessoas talvez sejam menos eficazes, talvez vençam menos Roland Garros e talvez percam sempre contra o mesmo tipo de adversário, concedendo sempre o mesmo erro quase infantil. Quando está a ser batido o ponto no fundo do court elas já estão à frente e talvez se tenham precipitado, mas ninguém pode dizer que não o quiseram.
Acho que na literatura, como no ténis e como na vida, prefiro os primeiros aos segundos. A distinção talvez seja meramente infinitesimal, mas como é bela essa inteireza de saber que há um ponto em relação ao que desejamos em que podemos, uma parte em generosidade outra em lealdade, admitir isso, que para perder basta ter desejado uma coisa. A beleza disso talvez seja só força. Uma coisa que fosse apenas bela de dizer. Mas estou em crer que não. Que não é apenas isso. É que a primeira forma de posse é o ímpeto da ideia, podes perder, mas o que quiseste, deo gratias, não o manietaste pela dúvida mesquinha de um cálculo ranhoso de pequena vantagem em caso de perda ou ganho. E nesse sentido Ricardo Reis e esses versos trinta mil vezes citados.

É sempre tempo de reler Borges


A lo largo del tiempo, nuestra memoria va formando una biblioteca dispar, hecha de libros, o de páginas, cuya lectura fue una dicha para nosotros y que nos gustaría compartir. Los textos de esa íntima biblioteca no son forzosamente famosos. La razón es clara. Los profesores, que son quienes dispensan la fama, se interesan menos en la belleza que en los vaivenes y en las fechas de la literatura y en el prolijo análisis de libros que se han escrito para ese análisis, no para el goce del lector.

La serie que prologo y que ya entreveo quiere dar ese goce. No eligiré los títulos en función de mis hábitos literarios, de una determinada tradición, de una determinada escuela, de tal país o de tal época. Que otros se jacten de los libros que les ha sido dado escribir; yo me jacto de aquellos que me fue dado leer, dije alguna vez. No sé si soy un buen escritor; creo ser un excelente lector.

Jorge Luis Borges, Biblioteca personal

domingo, 5 de junho de 2011

Mármores de Elgin



















Um pormenor do friso ocidental do Parténon, hoje em dia exposto no British Museum e integrando o conjunto que hoje em dia (infelizmente) se conhece por Mármores de Elgin.

The real obstacle is oneself

























I can only tell you what I know, and it isn't much. First you have to know and understand intellectualy what you want to do - then you have to sleepwalk a little to reach it. The real obstacle is oneself. I believe that artists are composed of vanity, indolence and self-regard. Work-blocks are caused by swelling-up of the ego on one or all of these fronts. You get a bit scared about the imaginary importance of what you are doing! Mirror worship. My solution would be to slap a poultice on the inflamed parts - tell your ego to go to hell and not make a misery of what should be essentially fun, joy.

Lawrence Durrell, "Clea", The Alexandria Quartet, Faber & Faber, 2009 (primeira publicação: 1960)

sábado, 4 de junho de 2011

O último dia

«Morte à morte! Guerra à guerra! Viva a Vida! Ódio ao ódio! A liberdade é uma imensa cidade da qual todos somos concidadãos.» Victor Hugo.

Alexandria

"Z" de Costa-Gravas, 1969



Talvez uma página da história da Grécia...

Uma página de Boccaccio

Creio, no entanto, que estás mais perto da opinião vulgar do que da verdade, ao censurares-me com tal aspereza o ter-me baixado a uma pessoa de condição medíocre. Pareces reconhecer que a escolha de um nobre não te teria feito sentir do mesmo modo a minha falta. Sendo assim, não é portanto a minha falta que tu censuras, mas sim a da Fortuna, que por vezes eleva bem alto os indignos e deixa os mais dignos num nível inferior.
Mas deixemos isto por agora e voltemos ao início das coisas. Verás todos os homens formados de uma só massa de carne, verás que um só Criador concebeu as nossas almas dotando-as de forças iguais, de igual poder, de iguais faculdades. Primeiro, é a virtude que estabelece distinções entre todos, porque todos nascemos iguais. Os que tiveram e adquiriram maior porção de virtudes foram chamados nobres. Embora uma prática diferente tenha depois obscurecido esta lei, ela nunca foi totalmente abolida nem obscurecida pela Natureza e pelas boas tradições. Por isso, quando um homem segue a linha da virtude, faz aos olhos de todos figura de fidalgo. Mesmo que tenha outro nome, a culpa disso não é sua mas de todos aqueles que se recusam a dar-lhe o seu verdadeiro nome. Agora compara com Guiscardo todos os nobres da tua corte, sonda as suas qualidades, os seus costumes, a sua vida. Se quiseres ser imparcial, reconhecerás que Guiscardo é nobre entre todos e que os teus nobres não passam de vilões. A fim de julgar o valor e a virtude de Guiscardo, fiei-me unicamente na sensatez das tuas palavras e no que os meus olhos viram. Quem o celebrou tanto como tu quando ele realizava todas essas acções que atraem o elogio sobre os homens valorosos? Ninguém, sem dúvida, irá censurar-te por isso. Se os meus olhos não me iludem, nenhum dos elogios feito por ti foi exagerado. E se cometi algum erro a este respeito, és tu o responsável pelo erro. Dirás tu, pois, que me entreguei a um homem de condição vil? Não dirás a verdade se o disseres.

Boccaccio, Decameron, 1ª novela, 5ª jornada, Urbano Tavares Rodrigues (trad.), Relógio d'Água, 2006.

E este excerto demonstra que Ghismonda, a sua constância de carácter quando tudo em seu redor ruía, a consciência de si própria e do que a rodeia, das leis que a limitam, continuará a ser uma das minhas mulheres favoritas na literatura do Ocidente.