sábado, 31 de outubro de 2009

You Can Never Hold Back Spring

they come

they come
different and the same
with each it is different and the same
with each the absense of love is different
with each the absense of love is the same

Samuel Beckett, The Grove Centenary Edition, vol. IV: Poems, Short Fiction, Criticism, Grove Press, New York, 2006

Uma cena de «The Third Man» de Carol Reed, 1949

Tingirei minha sombra de azul.
Escovarei os dentes
tocarei guitarra.
Tu, esconde-te debaixo da cama.
Eu farei que não sei.

Giánnis Ritsos, Antologia, Custódio Magueijo (trad.), Fora do Texto, 1993.

Uma cena de «La Tigre e La Neve» de Roberto Benigni, 2005

Põe os vasos
a toda a volta do poço
em bela disposição
como os poemas
à volta de nada.
Não tem importância
que estejam vazios -
esta é a nossa primeira gentileza
e a última.

Giánnis Ritsos, Antologia, Custódio Magueijo (trad.), Fora do Texto, 1993.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Shakespeare entre Nós
























Isto tem ar de ir valer a pena. É sempre bom ouvir João Almeida Flor a falar sobre Shakespeare.

De Mais Ninguém

Se eu não tivesse existido, alguém me teria escrito, a mim, a Hemingway, a Dostoiévsky, a todos nós. A prova disso mesmo é ter havido dois ou três candidatos à autoria das peças de Shakespeare. Mas o que é importante é o Hamlet e o Sonho de uma Noite de Verão - não quem os escreveu mas o facto de alguém o ter feito. O artista não tem qualquer importância. Só aquilo que ele cria é importante, uma vez que já não há nada de novo a dizer. Shakespeare, Balzac, Homero escreveram tudo o que havia para escrever sobre os mesmos assuntos e se eles tivessem vivido durante mais mil ou dois mil anos os editores não teriam precisado de mais ninguém daí em diante.

William Faulkner em Entrevistas da Paris Review, Selecção e Tradução de Carlos Vaz Marques, Tinta da China, 2009.

The fault, dear Brutus, is not in our stars,/ But in ourselves that we are underlings

Cresci numa terra onde não havia cinema, aqui há dias, tendo falado com um amigo que ainda vive nessa região, ele contou-me que continua a não existir cinema. Os cinemas mais próximos ficam quarenta quilómetros para norte ou trinta quilómetros para este. Na minha infância e adolescência não fui muito ao cinema.
No ano em que vim estudar para a cidade, havia uma biblioteca que funcionava por trás da residência onde eu vivia. A biblioteca era a Biblioteca Museu República e Resistência. Ocasionalmente descobri que eles faziam ciclos de cinema e não cobravam bilhete. Era uma boa coisa para fazer durante as tardes, quando não estava a ter aulas, e era só sair de casa e atravessar a rua.
O ciclo de cinema num desses meses foi dedicado a filmes de Marlon Brando. A sala era muito desconfortável, com umas cadeiras de plástico em que um tipo não conseguia ficar confortável em posição nenhuma e a audiência eram sempre os quatro ou cinco velhotes do costume e eu. Chegou a uma fase em que já nos conhecíamos todos e nos cumprimentávamos cá fora. Eles às vezes queixavam-se das suas mazelas e eu ouvia-os distraidamente enquanto esperava pelo próximo filme.
Foi por esta altura que comecei a gostar mesmo muito de cinema.
O cinema passou a ser uma coisa que me deixa siderada depois de ver Marlon Brando na adaptação de Júlio César que Mankiewicz fez em 1953, com Brando no papel de António.E contudo, James Mason, que faz de Bruto, é a personagem que mais me impressionou. Devíamos vê-lo como um filho de puta mas só conseguimos sentir pena e sofrer por um homem que se vê dividido entre o homem que mais ama e aquilo que mais respeita.

Fotografias de Dennis Stock (VII)






























Esta fotografia foi tirada em 1955, por Dennis Stock, quando James Dean fez uma visita ao seu liceu, Fermont High, em Indiana.
save

Ítaca, por Sean Connery


Quase uma curiosidade: o poema «Ítaca» de Konstantinos Kavafis lido por Sean Connery.

IV, 8 -14

Árvore a árvore, pedra a pedra, atravessaram o mundo,
com espinhos por travesseiro atravessaram o sono.
Traziam a vida nas duas mãos ressequidas como um rio.

Em cada passo ganhavam uma braça de céu - para o
................................................................................[darem.
De sentinela, no alto das guaritas, estavam petrificados como
.......................................................................[árvores queimadas,
e quando dançavam na praça
dentro das casas tremiam os tectos e tilintavam os vidros
............................................................................[nos armários.

Giánnis Ritsos, Antologia, Custódio Magueijo (trad.), Fora do Texto, 1993.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

As Três Piores Capas...

...de sempre, em Portugal. Aqui.

«Waiting Trumpeter», 1958, Fotografias de Dennis Stock (VI)






























Há qualquer coisa de maravilhoso nestas fotografias de bastidores de Jazz de Dennis Stock, os jogos de luz na fotografia, a posição dos corpos dos músicos. Qualquer coisa nestas fotografias de antecâmaras que me recorda aqueles versos de Pessoa:
(...)Eu sou um rei/que voluntariamente abandonei/O meu trono de sonhos e cansaços./Minha espada, pesada a braços lassos,/Em mão viris e calmas entreguei;/E meu cetro e coroa — eu os deixei/Na antecâmara, feitos em pedaços//Minha cota de malha, tão inútil,/Minhas esporas de um tinir tão fútil,/Deixei-as pela fria escadaria.//Despi a realeza, corpo e alma,/E regressei à noite antiga e calma/Como a paisagem ao morrer do dia.

Paisagem e Erudição no Humanismo Português

(Ana María S. Tarrío)

«João Rodrigues de Sá de Meneses (1486/87-1579), alcaide-mor do Porto, celebrado pela geração camoniana como pai fundador da nova aristocracia das letras, prefigurou intensamente a dualidade renascentista da pena e da espada. Acusado quatro vezes perante o tribunal da Inquisição por comportamentos heréticos e por práticas de sodomia, representava a facção intelectual mais ousada da nobreza manuelina, marcada pelo impacte da formação humanística italiana e em breve incómoda, no período de rigor doutrinário contra-reformista (...). Elaborou as composições poéticas mais vanguardistas do Cancioneiro Geral de Garcia de Resende de 1516, renovando a medida velha com novos conceitos e princípios humanísticos antes da renovação métrica de Bernardim Ribeiro e Francisco de Sá de Miranda, seu primo. Além de várias composições poéticas neolatinas, redigiu a singular monografia 'De Platano', que aqui se publica. Nesta obra rara da literatura renascentista europeia a imagética neoplatónica da natureza aviva-se para produzir um discurso nacional que procura superar a condição de periferia cultural lusitana relativamente à hegemonia italiana.»

Ana María S. Tarrío, Paisagem e Erudição no Humanismo Português. João Rodrigues de Sá de Meneses. De Platano (1527-1537). Estudo introdutório, edição crítica, tradução e notas. Gulbenkian, Lisboa, 2009

O Desespero de Penélope

Não é que o não tivesse reconhecido à luz da lareira; não era
pelos farrapos do mendigo, pelo disfarce - não; sinais
......................................................................................[evidentes:
a cicatriz no joelho, a força, a malícia no olhar. Aterrada,
encostando as costas à parede, buscava uma justificação,
só mais um instante de adiamento, para não responder,
para não se trair. Fora então por esse que havia gasto vinte
..............................................................................................[anos,
vinte anos de espera e de sonhos, por este miserável,
este homem coberto de sangue e de barba branca? Atirou-se,
............................................[sem fala, para cima de uma cadeira,
contemplou lentamente os pretendentes mortos, jazentes no
.........................................................[chão, como se contemplasse,
mortos, os seus próprios desejos. E "Bem-vindo" - disse-lhe,
ouvindo, estranha, longínqua, a sua própria voz. A um canto o
...................................................................................................[tear
enchia o tecto de sombras gradeadas; e todos os pássaros
...............................................................................[que havia tecido
com fios vermelhos e brilhantes, poisados nos verdes ramos,
....................................................................................[subitamente,
nesta noite de regresso, mudaram para cinzento e negro,
voando baixo no céu plano da sua derradeira paciência.

Giánnis Ritsos, Antologia, Custódio Magueijo (trad.), Fora do Texto, 1993.

Uma cena de «The Reader» de Stephen Daldry, 2008


Nesta cena é lido um trecho da tragédia de Schiller intitulada Amor e Intriga, que está na íntegra aqui. Este é, para mim, um dos melhores filmes com menos de quarenta anos que tenho visto num cinema, e talvez mesmo o melhor, à parte Tarantino e Sacanas sem Lei. Quando hoje de manhã me lembrei de pôr aqui um excerto deste filme, pensei em deixar-vos a minha cena favorita que (não) não é a da leitura da Odisseia mas aquela cena em que no final do Verão a personagem de David Kross mergulha no lago. Está um frio dos diabos e ele entra lá dentro. É uma cena fantástica. Mas não havia. De modo que vos deixo Schiller.

Emersão

Teria, não teria, dezoito anos. Despiu-se todo,
por brincadeira talvez, mas obedecendo a algo
que também nós conhecíamos. Subiu ao rochedo
talvez para parecer mais alto. Talvez julgasse
que a altura cobre a nudez. Não era preciso.
Numa hora dessas, quem se preocupa com a altura?
Distinguia-se na cintura um círculo cor-de-rosa -
sinal do cinto apertado. Assim, até parecia
ainda mais nu. E então, num salto prodigioso,
apesar do frio de Janeiro, mergulhou no mar.
Daí a pouco surgiu de novo, segurando ao alto a cruz.

Giánnis Ritsos, Antologia, Custódio Magueijo (trad.), Fora do Texto, 1993.

quarta-feira, 28 de outubro de 2009

Canto V do Inferno, por Roberto Benigni



Parece que em Itália, disseram-me ontem, Benigni enche estádios de futebol... a ler Dante.

Restos

Não tenho nada, nem sequer recordo nada - disse.
Uma época sobreposta a outra - cores desmaiadas,
um cheiro a fruta podre, o meio-dia
e a cal deslumbrante. Uma noite,
ao acenderes um fósforo, consegui ver
aquela mancha pequenina, escondida
sob a tua orelha. Apenas isso. O resto,
o vento o arrasta para debaixo das árvores,
juntamente com os guardanapos de papel e as folhas de
.....................................................................................[videira.

Giánnis Ritsos, Antologia, Custódio Magueijo (trad.), Fora do Texto, 1993.

That's my girl!



Ver aqui.

«Last Minute of Concentration» - Fotografias de Dennis Stock (V)






























O último minuto de concentração de Louis Armstrong, antes de um concerto em 1958.

(A meio de um poema de Ritsos)

Aqui até os gatos são diferentes,
bravos, pacientes, mudos,
não esfregam o seu focinho no nosso cotovelo,
ficam-estáticos nos nossos joelhos e estudam
estudam a morte,
estudam a tristeza,
estudam a vingança, a determinação,
estudam o silêncio e o amor,
estudam a vida dentro dos nossos olhos,
os não-acarinhados,
os bravos gatos
os silentes gatos de Macrónissos.

E esta lua de Agosto que pende sobre nós
é como a grande palavra que não foi dita
marmorificada na garganta da noite.

Giánnis Ritsos, Antologia, Custódio Magueijo (trad.), Fora do Texto, 1993.

Um desenho de Sergei Einsenstein
























Ontem um amigo explicava-me que Eisenstein, além de ser um extraordinário realizador de cinema, era também um artista gráfico irrepreensível. E aqui fica um desenho.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Começa assim:

«Eu viajava em cavalos de muda, proveniente de Tiflis. Toda a bagagem do meu carro consistia numa pequena mala cheia até meio pelos meus apontamentos da viagem pela Geórgia. A maior parte desses escritos, felizmente para o leitor, viria a perder-se, mas a mala com o resto dos meus pertences salvou-se, felizmente para mim.»

o romance que acabei de ler ontem.
Louvada seja a luz e a primeira
prece humana gravada sobre a pedra
a força no animal a conduzir o sol
a planta que ao trinar soltou o dia

A margem que mergulha e ergue a nuca
um cavalo de pedra que o mar cavalga
as mil vozes pequenas e azuis
o grande busto branco de Poseidon

Odysséas Elytis, Louvada Seja (Áxion Estí), Manuel Resende (trad.), Assírio & Alvim, 2004.
Louvada seja a voz que vem de longe
a bela ondulação da angra de Helena
os figos que reluzem na axila do nopal
os escombros do futuro e a sua aranha

As noites sem fim com as nossas entranhas
o relógio com insónias que não vale nada
um leito negro no seu périplo sem fim
pelas roucas paragens da Galáxia

Odysséas Elytis, Louvada Seja (Áxion Estí), Manuel Resende (trad.), Assírio & Alvim, 2004.

Glup!

Alguém chegou a este blogue procurando:
«fragrante de visinha traindo o marido» [sic]
Louvada seja a névoa entre as ervas
no calcanhar molhado o frrte do lagarto
Mnesaretê cujo olhar profundo
não sendo cordeiro dá a absolvição

O vento despertando ouro no sino
e o cavaleiro prestes a perder-se no poente
e o outro cavaleiro do espírito
que desfia ao avesso as ruínas do tempo

Numa noite de Junho as azuis tréguas
jasmins e saias que enchem o jardim
o bichinho dos astros que sobe no ar
o instante de alegria antes das lágrimas

Odysséas Elytis, Louvada Seja (Áxion Estí), Manuel Resende (trad.), Assírio & Alvim, 2004.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Frank Capra


Se Frank Capra não se tornar um dos vossos realizadores favoritos, depois de verem os filmes que ele realizou na década de 30 e 40, como este Mr. Smith Goes to Washington (1939) ou como It Happened One Night (1934) ou It's a Wonderful Life (1946) ou Meet John Doe (1941), acho que o melhor é desistir-se de ver cinema.

Bright Star
















Alguns episódios da vida de Keats em filme. Ler aqui. Via Senhor Palomar.
«Language speaks us
Thinking the Unthinkable aqui.

Fotografias de Dennis Stock (IV)






























Audrey Hepburn durante as filmagens de «Sabrina» em 1954.

Darkness Spoken

Like Orpheus I play
death on the strings of life,
and to the beauty of the Earth
and your eyes, which administer heaven,
I can only speak of darkness.

Don't forget that you also, suddendly,
on that morning when your camp
was still damp with dew, and a carnation
slept on your heart,
you saw the dark stream
race past you.

The string of silence
taut on the pulse of blood,
I grasped your beating heart.
Your curls were transformed
into the shadow hair of night,
black flakes of darkness
buried your face.

And I don't belong to you.
Both of us mourn now.

But like Orpheus I know
life on the side of death,
and the deepening blue
of your forever closed eye.

Ingeborg Bachmann, Darkness Spoken: The Collected Poems, Peter Filkins (trad.), Charles Simic (intr.), Zephyr Press, 2006.

domingo, 25 de outubro de 2009

«A Escadaria de Odessa» - Uma cena de «O Couraçado Potemkin», 1926


Esta cena de O Couraçado Potemkin de Eisenstein é uma das cenas mais famosas (e mais terríveis) da história do cinema.

Fotografias de Dennis Stock (III)






























Miles Davis em Birdland, em 1958.

Tony Harrison: Long Distance II

IV

Adicionei os meus dias e não te encontrei
nunca, em sítio nenhum, para me tomares a mão
no clamor dos abismos e na minha barafunda de estrelas!
Tomaram uns o saber e outros o poder
a escuridão, rasgando as duras penas
e pequenas máscaras, de alegria e tristeza,
ajustando à face arruinada.
Eu é que não, não ajustei máscaras,
deitei para trás de mim alegria e tristeza
pródigo deitei para trás de mim
o Poder e o Saber.
Adicionei os meus dias e fiquei sozinho.
Disseram uns: porquê? Este também há-de viver
na casa com vasos e a branca noiva.
Cavalos de pêlo fulvo e negro acenderam-me
a obstinação por outras mais brancas Helenas!
Almejei outra mais secreta bravura
e aí onde me impediram, invisível, fui a galope
restituir as chuvas aos campos
e recuperar o sangue dos meus mortos insepultos!
Disseram outros: porquê? Este também há-de conhecer,
até ele, a vida nos olhos do outro.
Não vi olhos de outrem, não encontrei nada
senão lágrimas no vazio que me abraçava
senão borrascas na serenidade que suportava.
Adicionei os meus dias e não te encontrei
e enverguei armas e saí sozinho
para o clamor dos abismos e a minha barafunda de estrelas!

Odysséas Elytis, Louvada Seja (Áxion Estí), Manuel Resende (trad.), Assírio & Alvim, 2004.

sábado, 24 de outubro de 2009

Vão buscar os blocos de notas


Via Duelo ao Sol.

Alguns disparates prolixos sobre a "necessidade" de se estudar os clássicos greco-latinos, com uma citação a despropósito e ainda um vídeo pelo meio

Durante a minha licenciatura em Estudos Clássicos apanhei, mais vezes do que gostaria, com a velha arenga apologético-utilitária sobre a importância dos clássicos (aqui e ao longo deste post usarei o termo com a acepção de "relativo à antiguidade greco-romana"). Nestes discursos, por vezes solenes, o orador seguia normalmente uma linha argumentativa positiva (utilitária) e, quando ficava sem ideias, uma negativa.
A argumentação positiva seguia normalmente os seguintes colores:
a) Se aprenderem latim terão maior consciência da gramática portuguesa. Não deixando de ser verdade, parecia-me então que quem quisesse ter uma maior consciência da gramática portuguesa faria melhor em ir ler uma gramática da língua portuguesa do que a tentar perceber que nome é sujeito de que verbo numa longa e labiríntica frase de Cícero.
b) Aprender línguas clássicas torna-nos mais inteligentes. Certa vez o professor Rosado Fernandes, um grande classicista, que há uns anos atrás granjeou notoriedade internacional pregando um valente banano num dinamarquês (e não holandês!, obrigado, Ricardo) enquanto este perorava em pleno Parlamento Europeu, contrapôs a este um argumento de ordem empírica: "Então por que há tantos classicistas idiotas?" (Quem estava presente conta que Rosado Fernandes adornou o dito com algumas obscenidades de belo efeito.)
c) Os clássicos tornam-nos melhores pessoas. Esta é tão parva que nem devia levar resposta. Durante o império romano houve um certo tipo de representações de tragédia - talvez o discurso poético clássico mais eticamente comprometido - que trouxe ao teatro numerosos rebanhos de gente: é que, a despeito da prescrição aristotélica, as mortes aconteciam em cena - um condenado à morte ou um escravo substituía o actor e a morte acontecia da maneira mais naturalista possível. Um espectáculo bastante edificante.
d) Se lerem os clássicos terão uma vida interior mais rica. Isso é bem capaz de ser verdade. Mas se se ler bons livros escritos à menos de mil e quinhentos anos, se se ouvir boa música, se se vir bons filmes, as probabilidades de isso acontecer também não são más. Em qualquer dos casos, quem passar tanto tempo a enriquecer a sua vida interior corre um sério risco de empobrecer a exterior.
e) Ler os clássicos dá um jeitão quando se quer ser culto. Por estranho que pareça, uma das minhas maiores angústias durante o curso era não ter tempo para ler. Houve um (excelente) professor que me pôs a contar palavras de um texto latino medieval; houve uma (excelente) professora que me pediu um trabalho sobre Celso (não, não falo do polemista pagão do séc. II, isso ainda seria tolerável, mas sim do autor/compilador/editor/tradutor - não se sabe ao certo - de um tratado médico do séc. I d.C.; uma nota sobre a obra: operações cirúrgicas sem anestesia fazem mais mal do que bem, diga lá o que Celso disser), um autor que eu tinha tanta vontade de ler como de tomar banho de água fria no Inverno. As boas horas de leitura que eu perdi com aquilo. E depois há as exigências da especialização: por que raio há-de o estudioso que passa os dias a trabalhar na sua edição de um manuscrito inédito que não interessa a ninguém, perdido numa velha, desconfortável e fria biblioteca, ir ler o último livro do Manuel de Freitas quando chega a casa? Ele quer é ver a bola e saltar para a espinha da mulher (não necessariamente por esta ordem, embora seja a mais usual).
f) Ler os clássicos é fixe. Esta, infelizmente, anda bastante na moda. Quem se der ao trabalho de estudar durante anos grego e/ou latim poderá ler os livros do Harry Potter nessas línguas (ganda cena!). Apenas com algumas horas de estudo de latim os cavalheiros poderão cortejar as suas damas dizendo coisas tocantes como "a abelhinha ama a rosa" e a amada poderá replicar "a rosa é bonita". Ainda estou para conhecer o tipo que estude grego durante anos para ir ler o Harry Potter ou que consiga sexo sem pagar graças ao latim. Já agora, o Frank Lampard do Chelsea, um tipo fixe, era um excelente aluno a latim (eles nunca se lembram desta).
g) Estudar os clássicos é saudável. Quem estuda os clássicos está menos sujeito a doenças degenerativas. Já Galeno mostrou, ao provar várias amostras de urina, que quem estuda as irregularidades do grego homérico não fica impotente antes dos 90.
A argumentação negativa está já contida na anterior, mas o orador, ora porque lhe faltava imaginação, ora porque procurava um pretexto para elevar o tom de voz e acordar as pessoas idosas estrategicamente sentadas no fundo da sala - nestas ocasiões há sempre pessoas idosas a ressonar no fundo da sala, nunca percebi porquê - lá a desenrolava:
a) Se não estudarem latim não saberão falar português, "e, sem saber falar português, como pedirão um bife quando forem ao talho? Morrerão de fome!" (Uma risada gregária atravessa friamente a sala. Até os velhinhos que estão a dormir se riem mentalmente com a piada pilhada a Aristófanes. Em seguida, se o orador for desajeitado o suficiente, tece algumas considerações rebuscadas sobre a "fome da mente" e aproveita para citar, muito a propósito, o autor sobre o qual escreveu a sua dissertação de doutoramento.)
b) Se não lerem Homero, Hesíodo, os líricos, Píndaro ... (e por aí fora, até Boécio) acabarão estúpidos. Se têm pretensões literárias não podem escrever uma palavra antes de ter lido Homero, Hesíodo, os líricos, Píndaro ... (e por aí fora, até Boécio).
c) Se são homossexuais não o podem ser antes de ter lido Platão, os líricos e a Antologia Palatina. Toda a gente sabe que os gregos eram amaricados.
d) Se são heterossexuais não o podem ser antes de ter lido Platão, os líricos e a Antologia Palatina. Toda a gente sabe que os gregos eram modelos de virilidade.
e) Se não lerem pelo menos 2/3 de Platão, 2/5 de Aristóteles e 7/10 das Cartas a Lucílio de Séneca acabarão por se tornar uns torturadores de criancinhas que se abstêm nas legislativas e tardam a pagar a renda da casa.
f) Se são cristãos têm de ler a Septuaginta e a Vulgata em grego helenístico e latim, respectivamente, ou vão parar aos Infernos e passarão a eternidade a deixar Aquiles ganhar ao xadrez com medo de apanharem uma coça.
Por esta altura eu normalmente saía para fumar e não voltava à sala. Contavam-me que a coisa acabava muito alegremente com a recitação de uma ode laudatória às virtudes do estudo das coisas clássicas - em grego antigo, à moda de Píndaro, com dorismos e tudo.
Aquilo na altura parecia-me bastante tonto. É que eu pensava que o estudo de grandes poetas e pensadores na língua original (e perde-se tanto na tradução) era um privilégio que não necessitava de justificação. Um privilégio desnecessário, bom em si mesmo.
Mas depois de ver este vídeo no youtube admito que há ocasiões em que ter-se decorado uns versos clássicos pode dar um jeito dos diabos:



Nota: Este discurso de Robert F. Kennedy, então senador dos Estados Unidos (por Nova Iorque), foi proferido a 4 de Abril de 1968, o dia do assassinato de Martin Luther King, em Indianapolis, perante uma audiência maioritariamente negra, exaltada pela dor da morte do seu líder espiritual. Robert Kennedy seria assassinado um mês (e dois dias) depois.

Aqui fica a tradução da estrofe onde ocorrem os versos citados por Robert Kennedy:

pois é Zeus que os mortais na senda do conhecimento
..........guia, que a aprendizagem por meio do sofrimento
estabeleceu como lei absoluta.
Goteja no coração em lugar do sono
a mágoa que memora a dor. E ainda que não desejada 180
..........a sabedoria virá.
Onde é a graça dos deuses,
violentamente sentados no divino assento do timoneiro?

Ésquilo, Agamémnon, vv. 176-183 (traduzo a partir da edição de West, que conserva a lição dos manuscritos; os últimos dois versos variam um pouco conforme a edição.)

«James Dean in Times Square» - Fotografias de Dennis Stock (II)


























James Dean, fotografado em Times Square, c. 1955, por Dennis Stock.

[I Step Outside Myself]

I step outside
myself, out of my eyes,
hands, mouth, outside
of myself I
step, a bundle
of goodness and godliness
that must make good
this devilry
that has happened

Ingeborg Bachmann, Darkness Spoken: The Collected Poems, Peter Filkins (trad.), Charles Simic (intr.), Zephyr Press, 2006.

Chegado ontem da América (mas já não sei ao certo de que cidade), com um atraso de um mês, este livro muito esperado.

Gruchnítski

É bastante espirituoso, muitas vezes os seus epigramas até têm alguma piada, mas nunca são certeiros e maldosos: nunca matará ninguém com simples palavras; não conhece os outros nem as cordas sensíveis das pessoas porque toda a vida se centra exclusivamente em si mesmo. O seu objectivo é tornar-se herói de um romance. Tantas vezes tentou convencer os outros de que era uma criatura que não foi criada para o mundo terreno e que estava condenada a não sei que misteriosos sofrimentos que acabou, ele próprio, por quase se convencer disso. É por isso que enverga com tanto orgulho o seu rude capote de soldado. Como percebi o que ele era, não gosta de mim, embora, aparentemente, tenhamos as mais amigáveis relações. Gruchnítski tem fama de valentão; vi-o em combate: brande o sabre, grita e atira-se para a frente de olhos franzidos. Aquilo não é mesmo nada a coragem russa!...

Mikhail Lérmontov, O Herói do Nosso Tempo, Nina Guerra e Filipe Guerra (trad.), Relógio d'Água, 2008.

«James Dean in Diner» - Fotografias de Dennis Stock (I)






























Esta foto foi tirada em 1954, por Dennis Stock. Dennis Stock regra geral fazia portfolios com muitas fotografias sobre a mesma pessoa ou tema. Esta imagem de James Dean fazia parte de um trabalho que lhe foi encomendado pela revista Life pouco antes da morte do actor, em 1955. O conjunto de fotografias intitulava-se James Dean: A Memorial Portfolio.
Graças a este portfolio Stock tornou-se o primeiro fotógrafo a deter direitos fotográficos exclusivos sobre imagens de James Dean.
Para além de James Dean, Stock documentou muito bem os bastidores de Hollywood e de concertos de Jazz. Já vos mostro.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

A Ler

Estou a ler isto:

procurei o branco até à tensão extrema
do negro A esperança até às lágrimas
a alegria até aos confins do desespero

Odysséas Elytis, Louvada Seja (Áxion Estí), Manuel Resende (trad.), Assírio & Alvim, 2004.

(Comboios)

Gostaria tanto de ter dormido
Reconheço todos os países de olhos fechados pelo seu odor
E reconheço todos os comboios pelo barulho que fazem
Os comboios da Europa são a quatro tempos enquanto que os da Ásia
......................................................................................são a cinco ou a sete
Há outros que seguem em surdina são canções de embalar
E há os que no ruído monótono da rodas me lembram a prosa
....................................................................pesada de Maeterlinck
Decifrei todos os textos confusos das rodas e reuni elementos
dispersos duma violenta beleza

Que eu possuo
E que me força

Blaise Cendrars, Poesia em Viagem, Liberto Cruz (trad.) Assírio & Alvim, 2005.

Um «screentest» de «East of Eden», 1955


(Espécie de piada para cinéfilos. Paul Newman não ficou com o papel de Adam que foi para Richard Davalos, James Dean desempenhou, para mim, o melhor papel da sua carreira. Ou daí talvez o segundo melhor.)
O dia dói límpido na hora
sem tempo o rosto
a lavagem das folhas na
manhã clara
sem janelas

O rosto ascende à vela
a luz quebrada nas têmporas
onde pôr os dedos
onde queimar a pele
o olhar de fulgor mais negro
naturalizado
nesta terra

Ana Horta, Inventa uma Voz no Rodopio do Corpo, Black Sun Editores, 2002.

Daysleeper

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

um eco de voz correndo como se seiva
avivando o quarto vazio a incerteza do espaço
o eco repetindo a forma do corpo
correndo no sangue trazendo para mais perto
a memória do rosto o outro apagando-se no tempo
orfeu olha para trás dele um canto de passagem
que corrói a solidão o corpo silente
orfeu aqui sem canto hesita e perde-se em rios onde
a memória se espraia sem lastro
as pálpebras fechando-se qualquer coisa como noite
mas sem o medo do escuro e regressando sempre
antes de anoitecer a penumbra toca-lhe os braços
apaga-se sem som a última palavra indefesa imóvel

e tu à espera de entrever um canto que incendiasse o espaço
a incerteza a servidão

de repente tão pouco o que pode dizer um homem

Há um livro que eu amo que começa assim

Por um tempo amaciado, de degelo, de fins de Novembro, cerca das nove da manhã, o comboio do caminho-de-ferro Petersburgo-Varsóvia aproximava-se a todo o vapor de S.Petersburgo. Estava tão húmido e havia tanto nevoeiro que amanhecia a custo; era difícil distinguir alguma coisa das janelas da carruagem a mais de dez passos à esquerda e à direita da linha. Entre os passageiros, alguns voltavam do estrangeiro; mas o grosso dos viajantes, gente simples e de trabalho, enchia a terceira classe e viajava de lugares muito distantes.
Boa notícia.

Uma cena de «La Dolce Vita» de Fellini, 1960


Em conjunto com A Estrada e com o Amarcord é um daqueles filmes de Fellini que nos deixa siderados. Fellini era muito bom a realizar esse género de filmes.

(-É com as Vozes que o Silêncio Guarda)

...
Uma canção de agora dirá que as noites
esmagam
o coração. Dirá que o amor aproxima
a eternidade, ou que o gosto
revela os ritmos diuturnos, os segredos
da escuridão.
Porque é com nomes que alguém sabe
onde estar um corpo
por uma ideia, onde um pensamento
faz a vez da língua.
- É com as vozes que o silêncio guarda.

Herberto Helder, Herberto Helder Ou o Poema Contínuo: Súmula, Assírio e Alvim, 2001.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Hedda Gabler


Sim, isto existe. E está disponível em partes no YouTube.

Sul

Era verão, havia o muro.
Na praça, a única evidência
eram os pombos, o ardor
da cal. De repente
o silêncio sacudiu as crinas,
correu para o mar.
Pensei: devíamos morrer assim.
Assim: explodir no ar.

Eugénio de Andrade, Poesia, Fundação Eugénio de Andrade, 2005.

tragédia e rock & roll

"I like to think of the history of rock & roll like the origin of Greek drama. That started out on the threshing floors during the crucial seasons, and was originally a band of acolytes dancing and singing. Then, one day, a possessed person jumped out of the crowd and started imitating a god..."
Jim Morrison

Ir Seguindo um Romance

A Flor Fatal de Fernando Cabral Martins. Aqui. O romance está prestes a ser lançado, entretanto, pode ser seguido na blogosfera.

Side of the Road

Ateei o fogo
quebrei as portas de bronze
desfiz sinais nas pedras lisas
enlouqueci os adivinhos

minha língua tornou-se tão estranha
que não se pode entender

as multidões vitoriosas
levantam em teu nome grinaldas
tamboris e danças
despojos de várias cores

tomo o caminho por onde vieste
tropeçando como os que não têm olhos

José Tolentino Mendonça, A Estrada Branca, Assírio & Alvim, Lisboa, 2005

Cambridge Sky

I look up
and a thousand rocking children
are candle-bled from my eyes;
wax-wet sons and daughters
bled from the womb of my eyes.
Ah these are the slowest hours
cloud into cloud like slow motion flowers
until one cloud becomes all
and I become blind.

The last minute of sight
is a long bird unafraid to sing
and I will see the last triumph of bird in sky
before the wind wrecks the wing.

Gregory Corso, Elegiac Feelings American, New Directions, 1970.

Elegiac Feelings American





















Chegou cá a casa ontem. Pertencia a uma biblioteca pública em Washington, a Port Washington Library.
P. S.: Sou eu a única pessoa que acha Gregory Corso muito parecido com Marcello Mastroianni?

Poesia Reunida de M.S. Lourenço

O lançamento deste livro está para breve.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

«Nierez-vous qu’il y ait des choses anesthésiques ? Des arbres qui saoulent, des hommes qui donnent de la force, des filles qui paralysent, des ciels qui coupent la parole? »
M. Teste reprit assez haut :
— « Eh ! monsieur ! que m’importe le « talent » de vos arbres, — et des autres !… Je suis chez moi, je parle ma langue, je hais les choses extraordinaires. C’est le besoin des esprits faibles. Croyez-moi à la lettre : le génie est facile, la fortune est facile, la divinité est facile. Je veux dire simplement — que je sais comment cela se conçoit. C’est facile. Autrefois, — il y a bien vingt ans, — toute chose au-dessus de l’ordinaire accomplie par un autre homme, m’était une défaite personnelle. Dans le passé, je ne voyais qu’idées volées à moi ! Quelle bêtise !… Dire que notre propre image ne nous est pas indifférente ! Dans les combats imaginaires, nous la traitons trop bien ou trop mal !… »
Il toussa. Il se dit : « Que peut un homme ?… Que peut un homme !… » Il me dit : « Vous connaissez un homme sachant qu’il ne sait ce qu’il dit ! »

Paul Valéry, La Soirée avec Monsieur Teste, aqui.

Nous étions à sa porte. Il me pria de venir fumer un cigare chez lui.

(A Meio de um Poema de Herberto Helder)

- Esta
espécie de crime que é escrever uma frase que seja
uma pessoa magnificada.
Uma frase cosida ao fôlego, ou um relâmpago
estancado
nos espelhos. E às vezes é uma raiz engolfada, e quando toca
a fundura das paisagens, as constelações mudam
no chão. A truculência
que se traça como uma frase na pessoa, uma queimadura
branca. Porque ela mostra as devastações
magnéticas
da matéria. Na frase vejo os fulcros da pessoa.
Por furos acerbos as estações que se escoam
e a inquebrantável
paisagem que as persegue por dentro. A frase
que é uma pálpebra
viva
como roupa fechada sobre a radiação das veias.
Que é uma cara, uma cratera.
Ou o hausto animal das unhas à testa
onde
fulguram os cornos em coroa.
E esta massa ofegante é queimada
por um suspiro, um alimento brutal.
O teu rosto cerca-me, a minha
morte cerca o teu rosto como uma clareira
pulsando
na luz cortada.
A pessoa
que é uma frase: astro
rude cruamente encordoado entre as omoplatas.
Como se um nervo cosesse todas as partes pungentes e selvagens
da carne. Como
se a tua frase fosse um buraco brilhando até aos pulmões,
com o sangue e a língua
na minha garganta. A beleza que te trabalha
deixa-te
árdua e intacta
no mundo, entre o sangue estrangulado na minha memória.

Herberto Helder, Herberto Helder Ou o Poema Contínuo: Súmula, Assírio e Alvim, 2001.
Isto vale a pena ver.

É uma Má Notícia

Faliram as Quasi Edições. Ler aqui e aqui. Tinham, como se disse, um catálogo desigual. Mas com apostas muito boas pelo meio. A última que me chamou à atenção, e que ainda não tive tempo de ler, foi o livro que publicaram de Eucanaã Ferraz.
La bêtise n’est pas mon fort. J’ai vu beaucoup d’individus, j’ai visité quelques nations, j’ai pris ma part d’entreprises diverses sans les aimer, j’ai mangé presque tous les jours, j’ai touché à des femmes. Je revois maintenant quelques centaines de visages, deux ou trois grands spectacles, et peut-être la substance de vingt livres. Je n’ai pas retenu le meilleur ni le pire de ces choses : est resté ce qui l’a pu.
Cette arithmétique m’évite de m’étonner de vieillir. Je pourrais aussi faire le compte des moments victorieux de mon esprit, et les imaginer unis et soudés, composant une vie heureuse… Mais je crois m’être toujours bien jugé. Je me suis rarement perdu de vue ; je me suis détesté, je me suis adoré, — puis nous avons vieilli ensemble.

Paul Valéry, La Soirée avec Monsieur Teste

(Conto completo aqui.)

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Lucrécio, De Rerum Natura, 2.1-61 ("Suave, mari magno...")

Agradável é, quando no mar imenso os ventos revolvem as águas,
de terra assistir ao imenso aperto de outrem;
não que a desgraça de alguém seja deleitoso passatempo,
mas conhecer os infortúnios de que tu próprio estás livre, isso é agradável.
Agradável é até contemplar as imensas competições da guerra, 5
dispostas ao longo do campo de batalha, sem que seja tua uma parte do perigo;
mas nada há de mais agradável do que habitar as elevadas
planuras, serenas e erguidas pela ciência dos sábios,
de onde podes olhar para baixo e ver por todo o lado os homens
errar em busca de um caminho para a sua existência transviada, 10
a competir em talento, contendendo por honrarias,
sobrecarregando-se noite e dia com a tarefa de todos superar
para alcançar as maiores riquezas e sobre as coisas dominar.
Ó míseras mentes dos homens, ó cegos corações!
Em que trevas da vida, em quantos perigos 15
se consome a existência, invariavelmente breve! Não vês
que para si a natureza nada pede, a não ser que,
separada do corpo, a dor ande longe e a mente frua
deleitosas sensações, livre de medos e cuidados?
Logo vemos que para a natureza corpórea pouco 20
é necessário no geral: tão só o que liberta da dor
e que possa também servir para nos cobrirmos de prazeres vários.
Mais gratificante é por vezes (pois a natureza não procura tais luxos ) -
se não há pela casa douradas estátuas de jovens
detendo na mão direita igníferas tochas 25
para servir a luz a sumptuosos banquetes nocturnos,
nem a casa refulge e cintila com ouro e prata,
nem as cítaras ressoam em salões apainelados e adornados com ouro -
que, ainda assim, em conjunto os homens se refastelem na tenra erva,
junto da água de um ribeiro sob os ramos de uma alta árvore, 30
e, sem necessidade de grandes luxos, docemente cuidem de seus corpos,
sobretudo quando o tempo sorri e a estação
do ano esparge pela relva viçosas flores.
Nem mais cedo partirão do corpo as febres ardentes
se para pintadas tapeçarias ou um robe rubro de púrpura 35
te lançares, do que se te deitares em lençóis plebeus.
Assim, uma vez que o nosso corpo em nada lucra
com riquezas, nem honrarias ou glória de estado,
devemos concluir que a nossa alma igualmente em nada lucrará;
a não ser talvez quando as tuas legiões espalhadas pelo Campo de Marte 40
vês borbulhar, exercitando-se em simulações de guerra,
apoiadas pelas imponentes reservas e pela cavalaria,
todas igualmente guarnecidas de armas e igualmente moralizadas,
e então com isto as superstições assustadoras
fogem assustadas do teu espírito, e os temores da morte
deixam o teu peito vago e livre de preocupações. 45
Mas se tudo isto julgamos tolo e ridículo,
e que na verdade o temor dos homens e os cuidados que os acossam
não temem o clangor das armas nem as lanças ferozes,
mas até entre reis e os poderosos do mundo audaciosamente 50
se instalam, nem reverenciar o fulgor do ouro,
nem o claro esplendor das vestes purpúreas,
por que duvidas então que somente a razão o pode,
sobretudo quando a vida de todos é incessante labor nas trevas?
Pois tal como as crianças tremem e tudo nas cegas 55
trevas teme, assim nós em plena luz receamos
por vezes o que tem tantas razões para ser temido como
as que no escuro fazem tremer as crianças ao imaginá-las próximas.
É portanto necessário que este terror e trevas da alma
- não por raios de sol nem luzente raiar do dia - 60
sejam dispersos, mas pelo exame da natureza e de suas leis.

Caim - Lenda

As declarações de Saramago, que parecem ter estancado definitivamente qualquer possibilidade de se vir a falar do seu novo livro, o objecto em concreto e a história que nele se conta, levam-me a pensar num texto bastante afastado desta polémica.

«Lenda»

Abel e Caim encontraram-se depois da morte de Abel. Caminhavam pelo deserto e reconheceram-se de longe, porque eram ambos muito altos. Os irmãos sentaram-se na terra, fizeram uma fogueira e comeram. Guardavam silêncio, à maneira das pessoas cansadas quando declina o dia. No céu aparecia uma ou outra estrela, que ainda não recebera nome. À luz das chamas, Caim reparou na marca da pedra na testa de Abel e deixou cair o pão que ia levar à boca e pediu que lhe fosse perdoado o seu crime.
Abel respondeu:
- Tu mataste-me ou fui eu que te matei?Já não me lembro; aqui estamos juntos como dantes.
- Agora sei que na verdade me perdoaste – disse Caim -, porque esquecer é perdoar. Eu tratarei também de esquecer.
Abel disse devagar:
- É verdade.Enquanto dura o remorso, dura a culpa.

Jorge Luís Borges, in Elogia da Sombra, Obras Completas: 1952 - 1972, Fernando Pinto do Amaral (trad.), Editorial Teorema, 1998.

P.S. A minha opinião alinha nos pontos essenciais com esta.

Philosophers' World Cup

Flecha Persa

Para Véronique Schiltz

Tua haste de madeira desapareceu e desapareceu o corpo
em que não acertaste no ano zero.
Enferrujaste, mas mesmo assim até mim cruzaste,
discípula de Zenão, os ares.

Tiquetacam os relógios. Contudo, e isto é pedante,
como um líquido fechado num recipiente,
estão imóveis. Ao passo que tu és movente,
sendo aos seus segundos indiferente.

Sabias quanto de ti se separaria
na corda e a ela talvez regressaria
quando do arco arrancaste e voaste
para o outro lado do Eufrates?

Mesmo assim, agora que descansas na quentura da mão,
nesta tarde fria, neste quarto estranho,
e pareces, no teu bronze esverdeado,
uma folha de louro que sobreviveu ao guisado,

tu moves-te veloz. No deserto ninguém consegue
acompanhar-te, e por forças das coisas, no presente.
Pois todo o calor é efémero. Com mais razão,
o da palma da mão.

Fevereiro de 1993


Iosif Brodskii, Paisagem com Inundação, Carlos Leite (trad.), Livros Cotovia, 2001.

domingo, 18 de outubro de 2009

No Centenário de Anna Akhmatova

E a página e o fogo, e a mó e o grão,
e o gume do machado e o cabelo cortado,
Deus tudo conservará, sobretudo as palavras
de perdão e de amor que são o âmago da sua voz.

Nelas o pulso forçado luta, nelas o osso range,
nelas a pá rasga a terra. Monocórdicas e surdas,
porque a vida é una, ressoam mais claras na boca
dos mortais do que no algodão em rama do céu.

Do outro lado dos mares saúdo a grande alma
que as encontrou e a sua parte mortal que agora
dorme na terra natal a que tu deste
o dom da palavra neste mundo surdo-mudo.

Iosif Brodskii, Paisagem com Inundação, Carlos Leite (trad.), Livros Cotovia, 2001.

Princípio

A 15 de Maio de 1796, o general Bonaparte entrou em Milão à frente daquele juvenil exército que acabava de passar a ponte de Lodi e mostrara ao mundo que, passados tantos séculos, César e Alexandre tinham um sucessor. Os milagres de audácia e de génio que a Itália presenciou no decorrer de alguns meses acordaram um povo adormecido; oito dias antes da chegada dos Franceses, os Milaneses não viam neles senão um punhado de salteadores, habituados a fugir diante das tropas de Sua Majestade Imperial e Real; era, pelo menos, o que, três vezes por semana, lhes repetia um jornalzinho do tamanho da palma da mão, impresso em papel sujo.

(Esta obra tem um dos princípios mais belos de todos os tempos, é famoso pelas suas primeiras páginas, de tal forma que Calvino dizia que qualquer jovem sentia «uma súbita paixão pelas primeiras páginas» deste livro. Qual é?)

Centauros II

Irrompem bruscamente do futuro e, tendo gritado, "Em vão!"
ao futuro regressam prontamente num sapateado audível.
Naquele ramo estão pousadas aves maiores do que o espaço e não
têm penas nem peninhas que as cubram, mas apenas um "Que horrível!"
Um mar horizontal tingido de sol poente.
Uma tarde de Inverno, cansada da penúria
de azul, esvai-se - como um átomo tende
para a desintegração, etc. - na sucessão das horas.
Os restos de um fósforo apagado, uma estátua nua, um estrado
de dança vazio de pessoas são demasiado
reais, demasiado estereoscópicos, pois não existe
nada em que possam transformar-se.
Apenas as coisas planas, por exemplo, a água e o peixe,
têm o poder temporal de gerar um ictiossáurio.
Para os perfis resultantes duma explosão
Não existe amanhã nem sudário.

Iosif Brodskii, Paisagem com Inundação, Carlos Leite (trad.), Livros Cotovia, 2001.

sábado, 17 de outubro de 2009

Há um livro que eu amo que começa assim

"Leves e de um azul metálico, movidas por uma brisa contrária suave, quase imperceptível, as ondas do Mar Adriático rolavam ao encontro da armada imperial, quando esta, tendo à esquerda as colinas rasas e cada vez mais próximas da costa calabresa, se dirigia para o porto de Brindisi e então, quando a solidão do mar cheia de sol, mas mesmo assim prenunciadora da morte, deu lugar à pacífica alegria da actividade humana, quando as águas, suavemente brilhantes com a proximidade da existência de homens e das suas casas, se povoaram de variadíssimos barcos, uns que também se dirigiam para o porto, outros que dali saíam, então, quando os barcos de pescadores com as suas velas castanhas estavam precisamente a sair dos pequenos molhes de todas as inúmeras aldeias e povoações ao longo da orla salpicada de branco, para se dirigirem à sua pesca nocturna, então a água ficou quase tão lisa como um espelho; como uma madrepérola, abrira-se por cima a concha do céu, anoitecia, e sentia-se o cheiro a lenha das lareiras, sempre que o vento trazia os sons da vida, uma martelada ou um grito, desde a costa até ao mar."

Alguém adivinha de que livro se trata? (A Tatiana está excluída.)

(Trabalho de Encontro à Noite)

...
E uma raiz séca, canta-se
no calor. É uma idade cor da salsa.
Amarga. Imagino
dentro de mim. Trabalho de encontro à noite.
Procuro uma imagem dura.

Estou sentado, e falo da ironia de onde
uma rosa se levanta pelo ar.
A idade é uma vileza espalhada
no léxico. Em sua densidade quebram-se
os dedos. Está sentada.
Os poentes ciclistas passam sem barulho.
Passam animais de púrpura.
Passam pedregulhos de treva.
É para a frente que as águas escorregam.

Idade que a candura da vida sufoca,
idade agachada, atenta
à sua ciência. Que imita por um lado
as nações celestes. Que imita
por um lado a terra
quente.
Trabalhando, nua, diante da noite.

Herberto Helder, Herberto Helder Ou o Poema Contínuo: Súmula, Assírio e Alvim, 2001.

Uma cena de «Baisers Volés» de François Truffaut, 1968

Princípio

O gosto de vaguear pela noite, a horas mortas, era agora o mais querido dos meus prazeres melancólicos. Desde muito novo desenvolvo reais qualidades inventivas em tal género de prazeres: Mas qualidades que sobretudo se revelam no pormenor ou na maneira. De facto, o prazer de errar pela noite é comum a várias criaturas. Sempre desconfiei de misteriosas afinidades entre todas, por mais que as separem os gostos, os vícios, as aparências, a idade, a condição social.

José Régio, Jogo da Cabra Cega, Brasília Editora, 1971.

Casablanca 25.06.1993


está tudo bem
a rádio transmite no início de cada hora
as palpitações de um grande coração

as paredes não se queixam de mal dos pulmões
as ruas podem com um bocadinho de esforço ser limpas
das marcas das lágrimas
o céu não precisa senão de uns retoques

e de algumas novas imagens de anjos

até os que morreram por vossa causa vos perdoarão numa festa

animada

Ahmed Barakat

Tradução: André Simões


الدار البيضاء في 25.06.1993

كُل شََيء بِخَير

الراديو يَذيعُ عَلى كُلِّ رَأِسِ سِاعة
نَبَضاتَ القَلْبِ الكَبير

الحَيطان لا تَشْكو من مَرَضِ في رِئَتِها
الشوارع يُمْكِن بِقَليل من الجَهْدِ تنظيفها
من آثار الدَمَع
السمِاء لا تَحْتاجُ سِوىً لرتوشات
وبَعْض الصوَر الحَديثة لمَلائكة

حَتّى الذين ماتوا بِسَبَبِكُمْ سَيسامحونكم في حَفْلِ
بِهَيج

Here I Am

When I am here I shall not mind
I shal merely murmur:
If no one comes and sees me here it will be all right

Here it is hard to believe that anything is free
Come let us lapse into freedom
Let all these things become less than dust
Let me not think at all ever
Let these things come closer together
Let everything be slow and soft
Let the wind blow over the roof at noon
Let everything be soft here because there is no dust
Let anything except what is coming come
That is the way I have always felt

-1927

Paul Bowles, Next to Nothing: Collected Poems 1926 - 1977, Black Sparrow Press, 1981.

Uma fotografia de Cig Harvey

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

Luz Inclinada

os pés em desequilíbrio calcando
o primeiro chão da casa
a mão roçando os ramos
nunca ousando a raiz
a entrada desenhada no chão
a mão amparando a testa
que cai de espanto sobre o prato

isto: objectos em teu redor invocando nomes
ferindo-te de gente
e de repente febril a palavra onde te deixei
para um abandono sem reservas
sem remorso o fio de luz corre certeiro
passa por certas horas do corpo
do homem sem mácula
o irmão do meu irmão

Galahad que avança pelas trevas sem que elas o devorem
e o seu ânimo não vacila não escurece
e eu magoado & sem cor
tardio em torno do desejo
preso às últimas memórias
mas sem saber para onde vou
o corpo é o primeiro número
antecipando o quebrar da luz

«Broken Fall (Organic)» de Bas Jan Ader























Ler já aqui e/ou um pouco mais amanhã no Público.

Princípio

Era inevitável: o cheiro das amêndoas amargas recordava-lhe sempre o destino dos amores contrariados. O doutor Juvenal Urbino sentiu-o assim que entrou na casa, ainda mergulhada em penumbra, onde fora de urgência tratar um caso que, para ele, já tinha deixado de ser urgente há muitos anos. O refugiado antilhano, Jeremiah de Saint-Amour, inválido de guerra, fotógrafo de crianças e o seu mais tolerante adversário de xadrez, tinha-se posto a salvo das inquietações da memória com um defumador de cianeto de ouro.

Gabriel Garcia Márquez, O Amor em Tempos de Cólera, Margarida Santiago (trad.), Dom Quixote, 1997.

A Nuvem do Google

"Os leitores comprarão à Google Editions o acesso online ao livro", explica Luis Collado. "O livro estará sempre nos servidores da Google e este acesso online significa que a partir de qualquer dispositivo electrónico com uma ligação à Internet as pessoas vão poder ler os livros." Esses dispositivos podem ser um computador, um ecrã de televisão com uma ligação à Internet, um e-reader, isto é, um leitor de livros electrónicos que tenha uma ligação aberta à Internet (a próxima geração destes aparelhos), ou ainda um telemóvel.
Isto parece ser uma excelente ideia. Aqui.

Nights

There have been times, what with this and that,
when the whisper of words was not enough.

On some shelf of memory lies a misplaced summer,
one not stored away for later savoring.
Surely it ended early, with unexpected fogs,
with the wind sliding past through unmeasured darkness.

No voice could be enough, what with this and that,
and the hours falling faster.

-1977

Paul Bowles, Next to Nothing: Collected Poems 1926 - 1977, Black Sparrow Press, 1981.

Alguém Te Abandonou

... Alguém te abandonou na encruzilhada, e tu olhas longamente para trás. Passos argênteos na sombra de macieiras raquíticas. Purpúreo, o fruto resplandece nos ramos negros, e na erva a serpente está na muda de pele. Oh, a escuridão! O suor que aparece na fronte e os tristes sonhos no vinho, na taberna da aldeia sob traves negras de fumo. Tu, deserto ainda, que faz nascer por magia nuvens de rosas das nuvens castanhas do tabaco e lhes arranca do interior o grito selvagem de um grifo que caça, rondando falésias negras, por mares, tempestades e gelos...

Georg Trakl, Outono Transfigurado, João Barrento (trad.), Assírio e Alvim, 1992.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Polemos

I agree wholly with what you say.
When clouds and words are pulled assunder
The air trembles and the cosoms is fragmented.
While intent goes unexamined
No thoroughfare will be discovered.
India was dust, a leopard in the boulder's shade.
I came to the edge of the city
And it was white in the sunlight.

Landscapes are absurd until obeyed.
Salaamed, licked his lips and pressed them to the dust.
He is the valley and the valley is his.
But I will deny to the death your right to say it.

Paul Bowles
, Next to Nothing: Collected Poems 1926 - 1977, Black Sparrow Press, 1981.

Princípio

"Ao entardecer de um dia de princípios de Julho, com um tempo invulgarmente quente, um jovem saiu do seu cubículo subalugado a uns moradores da ruela S. e caminhou devagar, como que indeciso, em direcção à ponte K."

3.

Sino rosado da Páscoa na abóbada tumular da noite
E as vozes argênteas das estrelas,
Que fazem descer sombria loucura da fronte aterrada do sonâmbulo

Oh, que silencioso o andar pelo rio azul abaixo
Meditando sobre coisas esquecidas, quando nos ramos verdes
O chamamento de um melro levava um ser desconhecido à decadência.

Ou quando, pela ossuda mão do ancião,
Passava à noite pela muralha arruinada da cidade
E aquele levava no casaco negro uma criança rosada,
E o espírito do mal aparecia na sombra da nogueira.

O tactear dos verdes degraus do verão. Oh, como o jardim
Caiu suavemente no silêncio castanho do outono,
Odor e melancolia do velho sabugueiro,
Quando na sombra de Sebastião se extinguiu a voz argêntea do anjo.


Georg Trakl, Outono Transfigurado, João Barrento (trad.), Assírio e Alvim, 1992.

Uma entrevista a Jean-Luc Godard


«Acho que era a juventude que devia influenciar o cinema e não o contrário.» (Entre outras coisas.)

Uma Pequena Estação

Uma pequena estação no troço da linha de caminho de ferro que leva à Rússia. Quatro carris paralelos corriam a direito e a perder de vista em ambos os sentidos, entre o cascalho amarelado do leito da via. Ao lado de cada um, como uma sombra suja, o risco escuro marcado no chão pela saída de vapor.
Por trás do edifício da estação, baixo e pintado a óleo, uma estrada larga, em mau estado, conduzia à rampa de acesso à gare. As bermas perdiam-se no chão pisado e só eram reconhecidas pelos dois renques de acácias que, tristes e de folhas sequiosas, estranguladas pelo pó e pela fuligem, delimitavam a estrada de ambos os lados.

Robert Musil, As Perturbações do Pupilo Törless, João Barrento (trad.), Obras I, Dom Quixote, 2005.

Etiqueta Nova

Hoje, o Lavorare Stanca apresenta ao seu vasto publico uma nova etiqueta, intitulada, vá, digamos, «Princípios». A ideia não é original (já a vi para aí algures noutros blogues) e consiste em registar as linhas iniciais daqueles livros que têm princípios que dão vontade de não os largarmos mais. Como para os restantes textos que para aqui são transcritos, não serão copiados inícios de livros que não tenham sido (ou não estejam a ser) lidos por nós.

Prémio Leya

Entre 201 originais, o vencedor foi este.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

As Três Piores Capas de Sempre

A votação está a decorrer. Não sei quanto a vocês, mas O Falo Perdido de Eurico Cebolo (que, como eu sempre vos disse, é um escritor que existe realmente), seguido de A Religiosa e de Amor de Salvação parecem-me ferozes candidatos à vitória.

The Blower's Daughter

Song

You will be slaves in a castle.
For every kiss there will be a snicker.
For every bottle there will be a pupil.
We are free and can climb mountains,
But for every passport there is an entrance
And for every flake there is a drop.
Grains of former mosaics hunted us
And for every shred there was a sob
And for every stab there was a silence.
For all our freedom we have been chained,
But for every laugh there had been a caress,
But for every love there had been a smile.
- 1929

Paul Bowles, Next to Nothing: Collected Poems 1926 - 1977, Black Sparrow Press, 1981.

Élis (3ª Versão)

1.
Perfeito é o silêncio deste dia dourado.
Sob velhos carvalhos
Apareces, Élis, imagem de paz com olhos redondos.

O seu azul espelha o sono dos amantes.
Na tua boca
Emudeceram os seus suspiros rosados

À noitinha o pescador puxou as pesadas redes.
Um bom pastor
Leva o rebanho pela orla da floresta.
Oh, que justos são, Élis, todos os teus dias!

Leve desce
Por muros desolados o silêncio azul da oliveira,
Morre o sombrio canto de um ancião.

Uma barca de ouro
Baloiça, Élis, o teu coração na solidão do céu.

Georg Trakl, Outono Transfigurado, João Barrento (trad.), Assírio e Alvim, 1992.

Um Minuto e Meio de Nicholas Ray


O filme de que Nicholas Ray está a falar é In a Lonely Place, com Humphrey Bogart e Gloria Grahame.

Leonardo da Vinci

Descoberto um novo quadro de Da Vinci. É uma notícia tão boa como há poucos anos atrás a da descoberta de um «novo» poema de Safo encontrado no Egipto, no túmulo de uma múmia.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Trakl

Dificilmente poderá tratar-se de Trakl, que, decididamente, não é um poeta do nosso tempo, tão próximo, aliás, do «apocalipse alegre» da Áustria de antes da Primeira Guerra. Mas a poesia, essa, despojou-se hoje de metafísicas, entrou no supermercado, disfarça-se e deleita-se em artifícios e jogos, desdobra-se em espelhamentos, metalinguagens e intertextualidades. A Georg Trakl não se chega por estes caminhos ecléticos do presente: a via é de sentido único - o das mais fundas obsessões da culpa e da Morte - , o seu universo é o da palavra com corpo sensível, imagem viva, suporte de simbolização sem abstracções.

João Barrento
in Georg Trakl, Outono Transfigurado, João Barrento (trad.), Assírio e Alvim, 1992.

Reconciliação

Há-de uma grande estrela cair no meu colo...
A noite será de vigília,

E rezaremos em línguas
Entalhadas como harpas.

Será noite de reconciliação –
Há tanto Deus a derramar-se em nós.

Crianças são os nossos corações,
anseiam pela paz, doces-cansados.

E nossos lábios desejam beijar-se –
Porque hesitas?

Não faz meu coração fronteira com o teu?
O teu sangue não pára de dar cor às minhas faces.

Será noite de reconciliação,
Se nos dermos, a morte não virá.

Há-de uma grande estrela cair no meu colo.

Else Lasker-Schüller, Baladas Hebraicas, João Barrento (trad.), Assírio e Alvim, 2002.

A Personal Journey with Martin Scorsese through American Movies


(Este documentário de Martin Scorsese está em cinco partes no You Tube. Aqui. A primeira parte traz as melhores cenas de Unforgiven de Clint Eastwood.)

Fiction

«Fiction was begun at a time when fewer and fewer magazines were taking stories for their pages, to say nothing of excerpting novels .... In 1970 and 1971, however, friends like Stanley Elkin and John Hawkes couldn’t get their best fiction printed in periodicals .... I railed against a whole kingdom of periodicals—Esquire, New American Review, The Atlantic bewailed the realm of dead issue, Harper’s Bazaar’s discontinued fiction section, the defunct Saturday Evening Post. I cried out under a banner, and that banner was Fiction.»
A revista cujo o objecto é a ficção. Aqui. (Não a conhecia, mas já vai no nr. 55.)

A Deus

Não me defendes das boas e das más estrelas;
Todos os seus caprichos se abatem sobre mim.
Há uma ruga que dói na minha testa,
A funda coroa com a luz sombria.

E o meu mundo é só silêncio -
Não impediste o meu capricho.
Deus onde estás?

Queria ouvir de perto o teu coração,
Trocar contigo, para ter o longe à mão,
No dia em que no teu reino de luz
Sagrada, em ouro transfiguradas,
Todas as boas e más fontes correrão.

Else Lasker-Schüller, Baladas Hebraicas, João Barrento (trad.), Assírio e Alvim, 2002.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Para aprender esta Ária antes de Morrer

Acho que com o tempo, toda a gente acaba por colocar na sua lista de leitura um livro que sabe que vai demorar muito tempo a ler, mas que ainda assim sabe que tem de ler. O livro que eu ando há muito tempo a ler é editado por um grego (?), Nikos Stangos, e chama-se Concepts of Modern Art: From Fauvism to Post-Modernism.
Este livro, originalmente publicado em 1981 mas com uma reimpressão em 2006 (realizada pela Thames and Hudson), reúne uma série de ensaios acerca dos diversos movimentos e escolas de arte do séc. XX. Este é o meu livro-que-demora-muito-tempo-a-ler porque está fora do meu esquema regular de leitura, porque é um calhamaço, mas não excessivamente grande, e porque é um livro que não pertence às áreas por onde normalmente se movimentam as minhas leituras e curiosidade. Resolvi lê-lo porque me considero francamente ignorante na matéria sobre a qual ele versa e porque é um assunto sobre o qual tenho imensa curiosidade.
Portanto, este livro inclui-se na matéria do livro «supostamente utilitário», o que deve significar que o exercício crítico e descritivo que estes especialistas fazem sobre os «seus» assuntos, e cumpre a função de elucidar quem entra às cegas por um mundo desconhecido, com o qual pretende conviver, que é o meu caso.
Ando a lê-lo há talvez três meses, muito devagar, e sempre que tenho um pouco de tempo entre outras leituras, profissionais e/ou, digamos, sentimentais, pego nele. Acho que aqui se encontra o mesmo mecanismo daquela anedota sobre Sócrates e a ária de música.
Conta-se que Sócrates, antes de morrer, pôs-se a estudar uma ária (creio que) na flauta (acho que é Platão que conta isto na Apologia de Sócrates), e os amigos, escandalizados pois tratava-se dos seus últimos momentos de vida, perguntaram-lhe porque perdia ele tempo com aquilo. Ele respondeu: para aprender esta ária antes de morrer.
Uma curiosidade que pode parecer não servir para nada, mas serve a vontade de não morrer ignorante, de compreender, de aprender constantemente, de passar uma porção de tempo. Creio que isso é o mais atraente no mundo que os livros guardam.