sexta-feira, 31 de julho de 2009

A Teoria do Romance

Para mim, uma das genealogias do romance mais interessantes que possuímos é a que Lukács expõe em A Teoria do Romance. Para este autor o romance era um descendente directo da épica e das condições que levaram a que esta deixasse de existir. Claro que isto que aqui exponho é uma visão em termos muitos gerais. Mas repare-se neste excerto:

The novel comprises the essence of its totality between the beginning and the end, and thereby raises an individual to the infinite heights of one who must create an entire world through his experience and who must maintain that world in equilibrium – heights which no epic individual, not even Dante’s, could reach, because the epic individual owed his significance to the grace accorded him, not to his pure individuality. But just because the novel can only compromise the individual in this way, he becomes a mere instrument, and his central position in the work means only that he is particularly well suited to reveal a certain problematic of life.


Georg Lukács, The Theory of the Novel: A Historico-philosophical Essay on the Forms of Great Epic Literature, Anna Bostock (trad.), The M.I.T. Press, Cambridge, Massachussets, 1971.

A vergonha de ser de direita

Um artigo de João Cardoso Rosas, no i:


Em Portugal a maioria das pessoas de direita continua a ter vergonha de se afirmar como tal. O leitor faça a seguinte experiência: pergunte a alguns amigos se se consideram de direita ou de esquerda. Muitos darão respostas do tipo "não me situo nessa dicotomia", ou então "a dicotomia esquerda/direita está ultrapassada". Aqueles que assim responderem serão, quase infalivelmente, de direita. Com efeito, o receio das pessoas de direita de se identificarem como tal é tão grande que isso as leva a negar a própria dicotomia esquerda/direita, apesar de toda a gente a usar. Isso deve-se, provavelmente, à vinculação da direita portuguesa ao Estado Novo e à necessidade que ainda sente de desmentir essa identificação. Nos países socialistas, após a queda do Muro de Berlim, passou-se muitas vezes o contrário: aqueles que eram de esquerda, para não se afirmarem como tal e se afastarem da herança do "socialismo real", diziam frequentemente - e alguns ainda dizem - não ser de esquerda nem de direita.
Uma outra forma de verificar a vergonha que a direita tem da sua própria posição política consiste em atentar nos nomes dos partidos desse lado do espectro parlamentar, gerados no pós-25 de Abril. A força política situada mais à direita intitula-se partido do "Centro Democrático" e, como se isso não bastasse, também "Social", o que não anda muito longe de "socialista".

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Entre mãos

BAYERN DE MUNIQUE 1 X F.C.PORTO 2 - ARTUR JORGE (1987)

(Lines written in dejection)

Aos dezoito anos vive-se já na antecâmara
do pesadelo, mas a vida reserva-nos ainda
o fulgor intempestivo dum embate
donde sairemos homens, estonteados
de suor e lama.

Sabíamos que não iria durar muito
a juventude - noventa e três minutos,
se não erro. Mas o trevo permanece
nas pastagens da memória: um irónico
toque de calcanhar, uma rápida investida
no coração do tempo, as mais loucas
diagonais contra o pior dos fatalismos,
o dos tímidos.

Como esquecer aquelas fintas à tristeza,
a viva fantasia dos relâmpagos abrindo
fundas brechas no espírito simétrico,
pesado, dos teutónicos, a negação
do fado. Que foi isto, perguntámos,
como pôde? Nenhum relógio mede
tamanha velocidade.

E as lágrimas deslizam, como vêem,
pelo poema abaixo, isso é sinal de que o futuro
já passou, já ruiu a balaustrada de onde víamos,
serenos, a corrida dos minutos, coroada
de possível. Que nos resta? Nada. Felizes
os que guardam, pelo menos, a cassete.

José Miguel Silva, Movimentos no Escuro, Assírio & Alvim, 2005

Blogues de Poesia Transcrita

Rilke, em Cartas a um Jovem Poeta, escreveu que era importante para um autor receber o seu trabalho copiado por mão estranha, pois revelava o quanto lhe pertenciam as suas próprias palavras.
Na blogosfera há uma série de blogues que se dedicam à transcrição de poesia. Dou-me conta que muitos deles já ultrapassam largamente a dimensão normal de uma antologia e criam a possibilidade de os irmos seguindo quase ao ritmo de um poema por dia, o que significa, verdade de resto já bastante evidente, que alguns blogues desempenham um papel importante na divulgação da poesia, não só portuguesa mas internacional, sendo que alguns deles apresentam traduções de poesia realizadas pelos seus autores, e em alguns casos, traduções de franca qualidade.
O facto de este tipo de páginas regra geral manter etiquetas configura-lhes um índice , o que permite ao leitor, se não for seguidor do blogue, seleccionar o que pretende ler. Deixo-vos abaixo os links de alguns blogues que se dedicam mais ou menos exclusivamente à transcrição da poesia e que me parece que têm vindo a fazer um trabalho com qualidade.Existem contudo muitos outros (este incluído) que o fazem esporadicamente, por isso a lista que apresento é muito incompleta. Quaisquer sugestões, a caixa de comentários fica à vossa disposição.

Do Trapézio, sem Rede

Hospedaria Camões
Lugares Mal Situados
Pausa sobre as Ruínas
Poesia Distribuída na Rua

A Relíquia (1875); Eça de Queiroz



Mais uma leitura relâmpago. O indíviduo pega no livro com um pensamento («vou descansar de outras leituras») e acaba com outro («devia ler mais devagar»).

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Man Booker Prize

Já saiu a longlist de obras seleccionadas para o Man Booker Prize de 2009. Nela constam os nomes de J. M. Coetzee (duas vezes vencedor do prémio, em 1983 e 1999) e de A. S. Byatt (vencedora em 1990). A 8 de Setembro de 2009 será anunciada a shortlist e a 6 de Outubro o vencedor. Tenho curiosidade em ver se o Coetzee consegue repetir a proeza mais uma vez.

Portugal Restaurado . 04



«C'est vne gloire qui a fini auec ces triomphes, & qui n'a point esté communiquée à cette nation qui a succedé, non pas à sa vertu, mais seulement à ce vaste & ambitieux dessein qu'elle auoit conceu, de reduire tous les Royaumes en Prouinces. Depuis le temps qu'elle a vni le Portugal à la Castille, & que de toutes les Couronnes de ses voisins, elle n'en a formé qu'vne, on n'a point veu qu'elle ait cessé de faire composer des liures, & d'employer ses meilleures plumes, pour obtenir par la douceur de la persuasion, le consentement que les peuples refusoient à la violence. Mais quelque effort qu'elle ait fait, quelque couleur qu'elle ait peu donner à ses desseins, les Portugais sont encore aujourd'huy à chercher les moyens pour rentrer en la possession de la liberté, qui leur est si chere, qu'on ne leur sçauroit laisser la vie, sans leur en laisser le desir.»


Observations sur un livre intitulé Philippes le prudent, fils de Charles de Quint, verifié Roy legitime de Portugal, des Algarues, des Indes & du Bresil composé en latin par D. Iean Caramuel Lobkovvitz, religieux de l'ordre de Cisteaux, Docteur de Louvain, & Abbé de Melrose.
Antuérpia-Paris, 1640



Este excerto retirei-o de um livro publicado em Antuérpia e Paris, em 1640, antes da Restauração, como se percebe com clareza. Sem indicação de autoria, apresenta-se como comentário à publicação em 1639 do "Philippus Prudens" de Caramuel Lobkowitz, o grande teórico das teses espanholistas.


O facto de Caramuel ter publicado a sua extensa e interessante obra, justificando a legitimidade dos Filipes em 1639, 59 anos depois da União Dinástica, e apenas 1 ano antes da Restauração, só pode parecer estranho a quem olha para os acontecimentos a uma distância de vários séculos. Na verdade, era perceptível desde há algum tempo a iminência de uma revolta contra Madrid, de que as alterações de Évora em 1637 tinham sido apenas um aviso.


O interesse francês no assunto, em 1640 e já antes disso, bem como aquele profético "les Portugais sont encore aujourd'huy à chercher les moyens pour rentrer en la possession de la liberté", também só poderão surpreender quem tiver esquecido o enorme interesse que a França, em guerra com a Espanha, tinha em desestabilizar o inimigo, fomentando as revoltas de Portugal e da Catalunha.


Estando escrito em francês e numa ortografia estranha, talvez não seja má ideia fazer uma tradução, para quem tem a desdita de não dominar a língua de Mollière.


«É uma glória que terminou com os seus triunfos, e não foi de modo algum passada a essa nação que lhe sucedeu não na virtude, mas apenas nesse vasto e ambicioso desígnio que ela tinha concebido, o de reduzir todos os reinos a províncias. Depois de ter unido Portugal a Castela, e de de todos os reinos seus vizinhos não ter formado senão uma, não vimos absolutamente que tenha deixado de mandar escrever livros, e de empregas as suas melhores penas, de modo a obter, por meio da doçura da persuasão, o consentimento de que os povos abdicassem da violência. Mas qualquer que tenha sido o esforço feito, qualquer que tenha sido a cor dada aos seus desígnios, os Portugueses estão ainda hoje a procurar os meios para entrar na posse da liberdade que lhes é tão cara, que não se lhes poderia deixar a vida, sem dela lhes deixar o desejo.»
Imagem: Cardeal Richelieu

Uma fala de «The Lion in Winter», 1968




[Henry II]My life, when it is written, will read better than it lived. Henry Fitz-Empress, first Plantagenet, a king at 21, the ablest soldier of an able time. He led men well, he cared for justice when he could... and ruled, for 30 years, a state as great as Charles Magne's. He married out of love a woman out of legend. Not in Alexandria or Rome or Camelot has there been such a queen.
She bore him many children but no sons. King Henry had no sons. He had three whiskered things, but he disowned them. You're not mine! We're not connected! I deny you! None of you will get my kingdom. I leave you nothing! And I wish you plague! May all your children breech and die!
My boys are gone. I've lost my boys.

Diário de Orwell

O blogue que é o diário de Orwell.

terça-feira, 28 de julho de 2009

Mark Twain




















A Relógio d'Água vai publicar uma nova tradução (de Sara Serras Pereira) de As Aventuras de Huckleberry Finn, de Mark Twain. É a primeira vez que tenho notícia de uma tradução recente desta obra para português.

A Ilíada

Há vários livros de que gosto muito. Mas a Ilíada é o livro da minha vida. Em 2005, acabada de chegar à Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa para estudar Clássicas e enquanto esperava que saísse a (excelente) tradução do Professor Frederico Lourenço, que saíu nesse mesmo ano de 2005, comprei uma edição da Hachette Illustrated para poder ir vendo a iconografia relacionada com a obra.
Esta edição da Hachette reproduz alguma da vasta iconografia relacionada com a Ilíada e com a Odisseia e também alguma parte do texto de ambas as obras. Mesmo tendo traduzido alguns cantos a partir do original, o que me levou, muitas horas e algum sofrimento depois, a decorar acidentalmente um ou outro passo mais ou menos como está no grego, e mesmo tendo muitos passos em português guardados na cabeça, não sei porquê, a minha memória dos vv. 338 - 343 do canto IX é em inglês e desse mesmo livro da Hachette. É uma estranha estranha fala de um dos maníaco-depressivos mais famosos de todos os tempos. Neles diz Aquiles:

Why hath he assembled/ And led an army here, this son of Atreus?/Why, was it not for fine-haired Helen's sake?/ Are Atreu's sons alone of living men/ To love their wives? No, every good sound man/ Loveth his own and cared for her, as I -/ I also, loved mine own with my heart, / Though she was but the captive of my spear*.

Paul Demont (Org.), Troy: The Iliad and the Odyssey, Hachette Illustrate, Hachette, 2004.
*A tradução do texto, incluída no livro, é de William Marris, tradutor da edição da Ilíada de 1934 da Oxford University Press.

O que era mortal em Händel
















Stefan Zweig dedica um capítulo do seu livro Grandes Momentos da História da Humanidade: Catorze Miniaturas, muito recentemente publicado pela Esfera dos Livros (Julho de 2009), à história da composição de Messiah por Händel. É um relato impressionante sobre um homem atolado em dívidas, que havia perdido completamente a esperança na vida, e que nestas condições irá compôr a maior das suas obras.
O capítulo termina assim:

A 13 de Abril, as forças abandonavam Händel. Deixou de ver, deixou de ouvir, o corpo maciço imóvel sobre as almofadas, um arcaboiço vazio e pesado. Mas tal como na concha vazia, o rugido do mar, assim, no interior, o murmúrio de uma música inaudível, mais bizarra e mais grandiosa do que a ouvida por si. Lentamente, a alma ia-se separando do corpo extenuado, impelido por aquela formação para as alturas - livre de qualquer gravidade. Maré atrás de maré, sonoridade infinita em direcção à esfera eterna. E no dia seguinte, ainda os sinos da Páscoa não haviam acordado, morria finalmente aquilo que existia de mortal em Georg Friedrich Händel.

Stefan Zweig, Grandes Momentos da História da Humanidade: Catorze Miniaturas, Fernando Ribeiro (trad.), Esfera dos Livros, 2009.


Acordo Ortográfico

Francisco Vale defende que o novo acordo ortográfico beneficia sobretudo os editores brasileiros, uma vez que lhes abre todo o espaço editorial português. Osvaldo Silvestre discorda, aqui.

Relógio d'Água

A Relógio d'Água possui novo blogue. Conferir aqui.

Lido*



Infelizmente, o liberalismo continuou também as tradições do ‘antigo regime’. Um Estado que fez mais centralizado, despótico e intrusivo; a tendência para sustentar uma classe média burocrática e ‘parasitária’.


- Vasco Pulido Valente, Portugal - Ensaios de História e Política (Lisboa, Alêtheia, 2009)

* Tendo sido (re) lidos em 24 horas, os ensaios deste livro trouxeram muito cansaço aos olhos. Em princípio, no dia de amanhã, o intelectual, que acabou de entregar a tese de mestrado na secretaria da Faculdade de Letras pela módica quantia de 162 euros, encontrar-se-á em repouso numa praia.


segunda-feira, 27 de julho de 2009

O gato que se sente feliz perto de Nabokov

17

no estio a sombra corre por um veio de água

há linhas na memória

que o corpo não atravessa

e o horizonte resolve o que já descobres tarde

o eco da rebentação correndo dentro

Berlusconi em Teerão

A Ler linkou este artigo de Slavoj Žižek sobre o Irão. Penso que vale a pena ler (passando a redundância), coisa que farei assim que tiver terminado o meu trabalho de hoje. E, já agora, veja-se as restantes crónicas da sua colaboração com a London Review of Books, linkadas no final da mesma página.

domingo, 26 de julho de 2009

Portugal Restaurado . 03


Invictissimo Regi Lusitaniae Joanni IV. Academia Conimbricensis libellum dicat in felicissima sua aclamatione..., Coimbra, 1641

Publicado em Coimbra, em 1641, este volume consiste numa miscelânea de textos comemorativos da Restauração, em português, latim, espanhol e italiano. Encontram-se aqui sermões, tratados jurídicos, sonetos e outras formas poéticas, quase sempre sem indicação de autor. Transcrevo um soneto que se pode ler no fólio 114v, e que faz referência ao célebre milagre da mão que se desprendeu da cruz, durante a aclamação de D, João IV, no dia 15 de Dezembro de 1640, em Lisboa.

SONETO

Soltar da cruz o braço desunido
Por dar, Senhor, ao Reyno estreito abràço;
Ou foi mostrar ser menos forte o laço,
Que à vossa amada Cruz vos tinha vnido;

Ou foi que o Luzo Reyno de oprimido
Teue tanto de Cruz, que o vosso braço
Aualia o tromento por escaço
Da Cruz onde morrestes suspendido.

Mas se o braço he sinal de deuindade,
Pello poder que ostenta soberano,
De mais espantos hè o mysterio digno;

Pois na restauração da liberdade
O corpo dais à Cruz mortal & humano,
E dais ao Reyno o braço, que hè diuino.


Sobre esta praia I

Sobre esta praia me inclino.
.................................................Praias sei:
Me deitei nelas, fitei nelas, amei nelas
com os olhos pelo menos os deitados corpos
nos côncavos da areia ou dentre as pedras
desnudos em mostrar-se ou consentir-se
ou em tombar-me intentos como o fogo
do sol em dardos que se chocam brilham
em lâminas faíscas de aço róseo e duro.
Do Atlântico ondas rebentam plácidas
e o delas ruído às vezes tempestade
que em negras sombras recurvava as águas
me ouviram não dizer nem conversar
mais do que os gestos de tocar e ter
na tépida memória as flutuantes curvas
de ancas e torsos, negridão de pêlos,
olhos semicerrados, boca entreaberta,
pernas e braços se alongando em dedos.
Aqui é um outro oceano.
............................................Um outro tempo.
Miro dois vultos na silente praia
pousada rente à escarpa recortada abrupta
que só trechos de areia lhe consente:
dois corpos lado a lado como espadas frias.
Ainda que desça a perpassar recantos
onde se acolherão corpos nus,
é um outro oceano, um outro tempo em outro
diverso em gente organizado mundo.
Ambíguos corpos, sexos vacilantes,
um cheiro de cadáver, que ao amor não feito
concentra de tristeza e de um anseio
de matar ou ser morto sem prazer nem mágoa.
Aqui mesmo de olhar-se um qual pavor gelado
pinta de palidez o rosto que sorria,
o corpo que se adiante ao gesto desenhado.
E nem mesmo de outrora e de outros mares
se atrevem a deitar-se imagens soltas
que uma vez alegria acaso tenham sido.
Se aqui nasceram deuses, nada resta deles
senão a luz mortal de corpos como máquinas
de um sexo que se odeia no prazer que tenha
e mais é de ódio ao ver-se desejado.

Jorge de Sena, De Sobre esta praia...Oito Meditações à beira do Pacífico, 1977, in Século de Ouro: Antologia Crítica da Poesia Portuguesa do Séc. XX, Osvaldo Silvestre e Pedro Serra (org.), Livros Cotovia e Angelus Novus, 2002.

sábado, 25 de julho de 2009

Thames and Hudson, Sessenta Anos

A Thames & Hudson, conhecida pelas suas edições sobre arte, fotografia (possuindo nesta sua secção esta pérola) e arquitectura, está a comemorar os seus sessenta anos. Para assinalar a efeméride reeditou vinte livros emblemáticos do seu catálogo. Vale a pena, senão por tudo o resto, por isto, isto e isto.

Um diálogo de «East of Eden», 1955
















[Caleb] You're right. I am bad. I knew that for a long time.
[Adam]I didn't mean that, Cal. I spoke in anger.
[Caleb] Well, it's true. Aron's the good one. I guess there's just a certain amount...of good and bad you get from your parents...and I just got the bad.
[Adam] That's not true. Cal, listen to me. You can make of yourself anything you want. It's up to you. A man has a choice. That's where he's different from an animal.

sexta-feira, 24 de julho de 2009

Reluctance

Out through the fields and the woods
And over the walls I have wended;
I have climbed the hills of view
And looked at the world and descended;
I have come by the highway home,
And lo, it is ended.

The leaves are all dead on the ground,
Save those the oak is keeping
To ravel them one by one
And let them go scraping and creeping
Out over the crusted snow,
When others are sleeping.

And the dead leaves lie huddle and still,
No longer blown hither and thither;
The last lone aster is gone;
The flowers of the witch hazel wither;
The heart is still aching to seek,
But the feet question 'Whither?'

Ah, when to the heart of man
Was it ever less than a treason
To go with the drift of things,
To yield with a grace to reason,
And bow and accept the end
Of love or a season?

Robert Frost, Selected Poems, Penguin Books, 1973.

Portugal Restaurado . 02

[Portugal Restaurado: reflexos do 1.º de Dezembro na literatura seiscentista]

Das Cartas Familiares, de D. Francisco Manuel de Melo, edição da INCM. Carta escrita na prisão. A alusão ao 1.º de Dezembro ("a era dos quarenta") é apenas metafórica e irónica.

78

Desculpando seu retiro. A certo amigo.

V. M. bem sabe quão ronceiro sou nisto de festas; mas ninguém me poderá arguir de mentiroso, quando afirme lhas desejo muito boas. Não dou o que não tenho, mas faço o que devo. Mande-me V.M. de consoada mui boas novas de sua saúde, que não haverá para mi fruta de Natal mais saborosa. Aquela vinda já vai tocando da del-Rei Dom Sebastião, porque já lá vai a era dos quarenta, e eu sem ver a V.M.. Enfim, em qualquer era que for, essa será a minha era. Nosso Senhor guarde a V.M. como desejo. Torre, em 26 de Dezembro, 1645.

Portugal Restaurado . 01


[Portugal Restaurado: reflexos do 1.º de Dezembro na literatura seiscentista]

Nas primeiras páginas dos Successos militares das armas portuguesas em suas fronteiras depois da Real acclamação contra Castella com a gegografia das Prouincias, & nobreza dellas, de João Salgado de Araújo, Abade de Pera (Lisboa, 1644), publica-se este soneto, que transcreve mantendo a pontuação e ortografia originais:

O Capitão Gregorio Soares de Brito
ao Author

Do patrio Minho, ao Sueco belicoso,
Do Douro ao Scita, do Mondego ao Nillo,
Do Tejo ao Chim, do Guadiana ao Chilo
Araujo serâs sempre famoso.

O Sceptro Lusitano venturoso,
Em se isentar do Carpentano asilo,
Necessitaua de teu graue estilo,
Lustre immortal do seculo ditoso.

So tu por remedear os patrios danos
Co poder absoluto, em seu destrito
Te opuseste aos dous subditos tirannos.

Tudo o que tens tão doctamente escrito,
Excede aos sinco liuros Lusitanos,
Barros, Brandão, Osorio, Couto, & Brito.

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Vale a pena ver.

Gato de Biblioteca

IV

Scattered Moluccas
Not knowing, day to day,
The first days end, in the next noon;
The placed water
Unbroken by the Simoon;

Thick foliage
Placid beneath warm suns
Tawn fore-shores
Washed in the cobalt of oblivions;

Or through dawn-mist
The grey and rose
Of the juridical
Flamingoes;

A consciousness disjunct,
Being but this overblotted
Series
of intermittences;

Coracle of Pacific voyages,
The unforecasted beach:
Then on an oar
Read this:

"I was
And I no more exist;
Here drifted
An hedonist"

Ezra Pound, Hugh Selwyn Mauberley, Kissinger Publishing (s.d.)

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Meia-noite do mundo

Achei fantástica a comparação feita por Slavoj Žižek, em O Sujeito Incómodo, entre a «noite do mundo» de Kant(momento de loucura, aparições espectrais, objectos que erram sem qualquer finalidade) e os filmes de David Lynch.

O problema dos autodidactas





Em Às Avessas (Lisboa, Assírio & Alvim, 1990), Vasco Pulido Valente dá a sua opinião sobre os autodidactas: «O azar do autodidacta é o de que ele, como jamais estudou nada do princípio ao fim, com alguma ordem e alguma minúcia, não sabe em que consiste isso de saber.» E dá como exemplo Ramalho Ortigão, um ser que, apesar de ter encomendado livros em Paris e em Londres sobre os mais variados temas, desde a química à filosofia, passando pela mecânica, não saía da irrelevância.

Um diálogo de «The Spy Who Came in From Cold», 1965












[Leamas] I don't believe in Father Christmas. I don't believe in God or Karl Marx. I don't believe in anything that rocks the world.
[Fiedler] But how do you sleep? You have to have a philosophy.
[Leamas]I reserve myself the right to be ignorant. That's the Western way of life.
[Fiedler] I couldn't have put it better myself. You think ignorance is a valuable contribution to world knowledge. You fight for ignorance.
[Leamas] Go to hell.
[Fiedler]Look, all I want to know is why. What's the motive?
[Leamas]I invented the combustion engine and the two-way nappy. I'm a hero of the Soviet Union. I wear the order of Lenin on my rump. I'm a man, you fool. Don't you understand? A plain, simple, muddled, fat-headed human being.

Um poema de Hélder Moura Pereira

Abre a janela para ouvires a sinfonia concertada
dos cães. Quando quisemos alterar os telhados
e remediar com isso um pouco das nossas vidas
procurámos a coincidência das nossas inaptidões.

Lances de paisagem protegida para, na sombra de um dia
mais tarde, fazerem nela guaritas para vigiar caminhos
de ferro sobre os mares. Tu és um índio novo, encostando
o ouvido à linha da água para ver um avião.

Vários andamentos dos cães, evitando o silêncio
e ganhando a seus donos confiança na defesa, a sua voz
(sim, é uma voz) atordoa os nervos estremecidos,
é como se todos os dias houvesse trovoada.

Quando afiam as unhas na terra ou na calçada, ferozes
para a definição de um espaço vital, sinto-me um gato
arqueado e se levo pela mão uma criança certamente
lhe transmito toda a mania do meu medo evidente.
Deitado nas guardas, com o cheiro a óleos de rodas,
desejo a insónia que prenda aos olhos das estrelas.

Helder Moura Pereira, Lágrima, Assírio e Alvim, 2002.

terça-feira, 21 de julho de 2009

Salmagundi

Uma revista verdadeiramente modelo na área das humanidades e das ciências sociais: ora repare-se na descrição da história desta quartely publicada pela Skidmore College (embora não se trate de uma revista académica). Chamou-me à atenção pois foi nela que George Steiner publicou pela primeira vez o seu ensaio sobre melancolia, "Ten (Possible) Reasons for Sadness of Thought" (nº146/147).

A Espuma dos Dias

















Quando li A Espuma dos Dias do Boris Vian, não foi um livro que imediatamente me tivesse marcado, encantou-me, mas não me marcou especialmente. Mais tarde percebi que há uma coisa verdadeiramente poderosa acerca deste livro: a forma como os episódios surreais que nele se narram se transformam em metáforas do quotidiano.
Para mim é isso que torna A Espuma dos Dias um livro verdadeiramente extraordinário. Deixo-vos um pequeno excerto:

No sítio onde os rios se lançam no mar forma-se uma barra difícil de transpor e há grandes remoinhos de espuma onde bailam destroços.
(Isto pode ser entendido como metáfora, estão a ver?)

Boris Vian, A Espuma dos Dias, Relógio d'Água, Lisboa, 2001 (p.107).

Livro Raro















Mais cedo ou mais tarde todos acabamos por ter na nossa biblioteca um livro que, de tão específico ou antigo, é quase certo que não encontramos muitas mais pessoas que o tenham. O meu livro raro é as duas coisas, demasiado específico e algo antigo.
É um comentário de 1939 da Oxford intitulado Philonis Alexandrini In Flaccum, da autoria de Herbert Box. Levei um ano a conseguir encontrá-lo e quando já estava a planear mandar vir algumas das suas partes em fotocópia de Cambridge, ele surgiu num alfabarrista do Connecticut que (deusuabençoe) se ligou à Amazon pelo que se pôde adquiri-lo pela moderada quantia de 55 dólares.

Rua Anchieta. Sábado



Um Sábado quente. As ruas da baixa lisboeta quase vazias. Os portugueses arrancaram para a praia ou ficaram em casa à frente da ventoinha. Muitas mulheres estrangeiras claramente superiores em termos estéticos à fêmea lusitana. Chego à feira da rua Anchieta. Depois de uma longa caminhada, sinto-me como uma barra de manteiga a aquecer dentro do forno. Limpo o suor às calças e à camisa. Procuro O Primo Basílio numa edição boa e barata. Não encontro nada legível. Paro numa banca recheada de bons livros. Não dou 8 euros por um Robert Walser já lido (antes de tê-lo emprestado a uma alma que considerou que não me importaria que ficasse com ele). Pego num livro que me parece caro. Mau Tempo no Canal. 2 euros. Pego noutro. Longe de Manaus. 3 euros. No bolso. Numa papelaria, compro uma caneta mais cara do que os livros de Vitorino Nemésio e de Francisco José Viegas.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

35

rápida a tua sombra
ao cortares pela sebe
ao correres pelo verde
alexandre
para que ele possa voltar a escurecer
na planta dos teus pés a que se agarra
uma força de água por que passas
a força da água que só há
no canto seguro de homens que podem
caminhar em frente

cantos que por vezes te ajudam a respirar
a segar um nervo que dói
quando te sentas de olhos vermelhos
no banco de madeira e escondes o rosto
entre as mãos e queres gritar mas
um imenso silêncio cega-te corta-te
enche-te de cinza tomando-te de assalto
e versos da Ilíada intimamente sufocam-te
a poesia só existe para que mais te doa
quando te afogares nas horas
para que bem vejas o recinto do naufrágio por dentro
o seu rosto grave e fechado de tábua

insepulta alexandre a terra
e tu demasiado escuro à procura do nome que gritado
lhe varasse o peito
com uma força que te levantasse inteiro do chão

Robert Frost

As Ian Hamilton explains in his introduction, Robert Frost has been underrated by being over-simplified and over praised. Perceived as a plain-dealing (he was even sent by John F. Kennedy to Russia as an ambassador), kindly, rural man who spent his time mending walls, mowing or apple-picking, he became America's unofficial poet laureate.

(da contracapa de Robert Frost, Selected Poems, Ian Hamilton (ed.), Penguin Books, 1973)

Slavoj Žižek e Analia Hounie

Marcuse, a arte e a imaginação





Herbert Marcuse diz, em Counterrevolution and Revolt, o que é a obra de arte: the authentic oeuvre has indeed a meaning which claims general validity, objectivity. Ou seja, pode haver arte feita por burgueses com características burguesas (dá o exemplo de Dickens), mas a obra, sendo dotada de significado universal, não é burguesa mas apenas arte. Marcuse diz também que, se a cultura burguesa é feita para elites, isso já acontece desde a Antiguidade. O que o leva a argumentar que a revolução cultural, adaptando Marx aos tempos modernos, deve ser feita para além da burguesia. Contudo, o mesmo pode ser dito para as classes trabalhadoras. Já não existindo proletariado, mas uma grande maioria de trabalhadores explorados (incluindo a classe média) dentro de uma sociedade de consumo, o conceito de classe trabalhadora deverá ser alterado, alargado. Os romances para negros, por exemplo, são um bom exemplo, deste necessário alargamento.

Conjugando a arte com a revolução, Marcuse defende o esforço para encontrar formas de comunicação artísticas que possam quebrar o domínio opressivo da linguagem estabelecida e das imagens que oprimem o corpo humano. A esse esforço dá o nome de comunicação dos não-conformados. A linguagem dos oprimidos. E como se processará a revolução? Através do sonho. O sonho precisa de se tornar força política. Por virtude de uma forma estética, a obra cria o seu próprio universo de seriedade, que não é o da realidade existente, mas a sua negação. Em Brecht, afirma Marcuse, a revolução está mais presente na lírica do que nas peças políticas. Assim, a beleza artística funciona, não só como negação da realidade, mas como elemento de criação de um outro mundo que, embora combatendo a racionalidade, a Razão do Establishment, dará a mão à causa dos oprimidos.

Mahmud Darwish

Mahmud Darwish, poeta que o André tem vindo a traduzir, sai no número 107 da «magazine of new writing», a Granta. Vou tentar deitar-lhe a mão e logo vos conto.

Epígrafe para a arte de furtar

Roubam-me Deus,
outros o Diabo
- quem cantarei?

roubam-me a pátria;
e a Humanidade
outras ma roubam
- quem cantarei?

sempre há quem roube
quem eu deseje;
e de mim mesmo
todos me roubam
- quem cantarei?

roubam-me a voz
quando me calo,
ou o silêncio
mesmo se falo
- aqui del-rei!

Jorge de Sena, Fidelidade, 1958.


A Arte de Furtar, a partir da qual Jorge de Sena escreveu esta «Epígrafe», é uma obra actualmente atribuída ao jesuíta Manuel da Costa, o título é algo irónico, uma vez que, em traços muito gerais, é uma obra sobre política, e inscreve a obra na tradição de obras didácticas que foram publicadas em Portugal no séc. XVII. Em relação ao poema de Jorge de Sena, é sobre ser roubado, temática que surge em vários outros passos da poética de Jorge de Sena (veja-se por exemplo o poema «Camões dirige-se aos seus contemporâneos»), e liga-se à íntima revolta que Sena sentia por nunca lhe ter sido reconhecido o devido espaço e importância que realmente merecia ocupar enquanto escritor entre os seus contemporâneos.
Ainda sobre furtar, sendo este blogue, em primeiro lugar, um espaço de partilha e divulgação de e sobre literatura, não nos importamos de ver algumas das coisas de que por aqui se fala e textos ou partes de textos que aqui se transcrevem em copy paste noutros blogues, pelo contrário, uma vez que se trata de um indício de que o que aqui escrevemos entusiasma os nossos leitores e tem afinidades com o que eles próprios pensam e gostam de ler. No meu caso particular creio, contudo (uma vez que trabalhar cansa e nós tiramos um pouco do nosso pouco tempo livre para alimentar este blogue), que é justo que por isso nos seja dado o devido crédito.

Leite Derramado

Chico Buarque falou com o Ípsilon sobre o seu romance Leite Derramado (Companhia das Letras, 2009).Chico é nome de escritor ruim.

domingo, 19 de julho de 2009

FRAGMENTO PARA LUIGI NONO

A ERVA AINDA
TEMOS DE
A ARRANCAR PARA QUE
FIQUE VERDE

Em Auschwitz
A marca do prego
Homem sobre mulher
Sobre criança

Os cânticos estilhaçados

O coro de igreja
Das metralhadoras

Cântico
Das cordas vocais
De Márcias cortadas
Contra Apolo
Na pedreira dos povos

A carne dos instrumentos

Mundo sem martelo nem prego

Inaudito

Heiner Müller, O Anjo do Desespero, João Barrento (Trad.), Relógio d'Água, 1997.
Amar Deus através da destruição de Tróia e de Cartago, e sem consolo. O amor não é consolo, é luz.

Simone Weil, A Gravidade e a Graça, Relógio d'Água, 2004.

Uma fala de «Who's Afraid of Virginia Wolf», 1966











[George]When I was 16...and going to prep school, during the Punic Wars...a bunch of us used to go to town the first day of vacation...before we fanned out to our homes. And in the evening this bunch of us would go to a gin mill...owned by the gangster father of one of us... and we would drink with the grownups and listen to the jazz. And one time, in the bunch of us...there was this boy who was 15... and he had killed his mother with a shotgun some years before. Accidentally. Completely accidentally... without even an unconscious motivation, I have no doubt. No doubt at all. And this one time, this boy went with us... and we ordered our drinks. And when it came his turn, he said: "I'll have 'bergin.' Give me some bergin, please. Bergin and water." We all laughed.
He was blond and he had the face of a cherub, and we all laughed. And his cheeks went red, and the color rose in his neck. The waiter told people at the next table what the boy had said and they laughed...and then more people were told and the laughter grew... and more people, and more laughter. And no one was laughing more than us... and none of us more than the boy who had shot his mother. Soon everyone in the gin mill knew what the laughter was about...and everyone started ordering bergin and laughing when they ordered it. Soon, of course, the laughter became less general...but did not subside entirely for a very long time. For always at this table or that...someone would order bergin...and a whole new area of laughter would rise. We drank free that night. And we were bought champagne by the management. By the gangster father of one of us. And, of course, we suffered next day...each of us alone, on his train away from the city...and each of us with a grownup's hangover. But it was the grandest day...of my...youth.
[Nick]What...?What happened to the boy? The boy who had shot his mother.
[George] I won't tell you. All right. The following summer on a country road, with his learner's permit...and his father on the front seat to his right, he swerved to avoid a porcupine...and drove straight into a large tree. He was not killed, of course. In the hospital, when he was conscious and out of danger... and when they told him his father was dead... he began to laugh, I have been told.
His laughter grew and would not stop. And it was not until after they jammed a needle in his arm...not until his consciousness had slipped away from him... that his laughter subsided and stopped.

George Orwell, O Caminho para Wigan Pier
















Escrito em 1937, antes de Orwell partir para combater contra o Fascismo na Guerra Civil de Espanha (na qual foi baleado na garganta), por "encomenda" do Left Book Club, um clube socialista inglês, o livro está dividido em duas partes: a primeira tem por tema a descrição das condições de vida dos mineiros no Norte de Inglaterra; a segunda, mais geral e polémica - Orwell afirmará, por exemplo, que um dos grandes problemas do socialismo inglês são os socialistas ingleses (não admira que o Left Book Club não quisesse publicar a segunda parte da obra) - consiste em considerações diversas sobre o socialismo em Inglaterra.
Na vigorosa prosa de Orwell comprometimento político, a recusa de compactuar com dogmas que não servem para mais do que legitimar formas de dominação de uma classe sobre a outra (isto é igualmente válido para o conservadorismo burguês como para a "cassete" comunista), honestidade intelectual, e um aguçado instinto estético coabitam, quase sempre em tensão. Mais do que uma obra política ou propagandística, O Caminho para Wigan Pier é um livro que prefere falar de homens; homens como os vê, com os seus defeitos e virtudes, na sua pobreza, sem nunca ser piegas, muitas vezes com ironia, quase sempre com ternura. Ficam duas divertidas citações:

Para começar, é uma pena, embora seja o resultado natural do sistema de bolsas escolares, que o proletariado tenha de penetrar na classe média por via da intelectualidade literária. Porque não é fácil abrir caminho por entre os homens de letras quando se é uma pessoa decente. O moderno mundo literário inglês, ou pelo menos o seu sector pedante, é uma espécie de selva letal onde só crescem ervas daninhas. É possível ser-se um cavalheiro na literatura e manter-se a decência desde que se seja um escritor definitivamente popular - autor de histórias de detectives, por exemplo; mas ser um autor com créditos firmados nas revistas mais dominantes significa entregar-se às mais asquerosas campanhas de intriga e bajulação. No mundo dos influentes, chega-se lá, se é que se chega, não tanto graças aos dotes literários, mas mais pela capacidade de animar as festas e de beijar os traseiros de certos leõezinhos piolhosos. (p. 202)

O socialista típico não é, como imaginam as velhinhas caquécticas, um trabalhador de ar façanhudo com um grande fato-macaco e voz rouca. Ou é um jovem bolchevique de salão que dentro de cinco anos terá feito um bom casamento e se terá convertido ao catolicismo; ou, o que é ainda mais típico, é um homenzinho emproado com um emprego de escritório, em geral discretamente abstémio e muitas vezes com inclinações vegetarianas, com uma história de inconformismo e, acima de tudo, com uma posição social que não tenciona abandonar. Este tipo de pessoas é surpreendentemente comum em todo o género de partidos socialistas; devem ter saído em bloco do velho Partido Liberal. Além destes, há a horrível - e verdadeiramente inquietante - concentração de maníacos que se verifica sempre que os socialistas se encontram. Às vezes dá a impressão que as simples palavras "socialismo" e "comunismo" atraem com força magnética todos os bebedores de sumos de fruta, nudistas, adeptos de sandálias, obcecados sexuais, quacres, fanáticos do "naturalismo", pacifistas e feministas de Inglaterra.(p. 213)


George Orwell
, O Caminho para Wigan Pier, Antígona, Lisboa, 2003

sábado, 18 de julho de 2009


Um amigo foi ver esta representação de Édipo. Disse que nela se percebe bem a força que o coro acrescentava à representação de uma tragédia grega, coro que para muitos encenadores contemporâneos constitui, compreensivelmente, um problema a resolver. Segundo ele o Ralph Fiennes desilude um pouco: para um homem que andava a dormir com a mãe, devia mostrar-se um pouco mais abatido.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

lama


um pouco de absoluto do azul infinito
basta
para aliviar a opressão deste tempo
e limpar a lama deste lugar

Mahmûd Darwîsh
Tradução: André Simões
versão preliminar

قَليلٌ مِن المُطْلَق الأَزْرَقِ اللانهائيِّ
يكفي
لِتَخْفيف وَطْأةِ هذا الزمان
وتنظيف حَمْأةِ هذا المكان

Um passo de «The Waste Land»

(...) Son of man,
You cannot say, or guess, for you know only
A heap of broken images, where the sun beats,
And the dead tree gives shelter, the cricket no relief,
There's shadow under this red rock,
(Come in under the shadow of this red rock),
And I will show you something different from either
Your shadow at morning striding behind you
Or your shadow at evening rising to meet you;
I will show you fear in a hand full of dust (...)

T.S. Eliot, Selected Poems: Including The Waste Land, The Hollow Men, and Ash Wednesday, Harvest/ HBJ Book, 1964.

A ler...

Dois aristocratas zangados

Eis uma história, contada por Eça de Queiroz (1845-1900) em A Ilustre Casa de Ramires (1900), que ajuda a conhecer os portugueses:

Gonçalo Ramires é inimigo do governador-civil André Cavaleiro. De modo a ocupar o lugar deixado vago por um deputado falecido, Ramires engole o orgulho e torna-se grande amigo de Cavaleiro.

Slavoj Žižek - tapar o vazio do Universo com Amor

Memória

Estranho poder este da lembrança: tudo o que me ofendeu me ofende, tudo o que me sorriu sorri; mas, a um apelo de abandono, a um esquecimento real, a bruma da distância levanta-se-me sobre tudo, acena-me à comoção que não é alegre nem triste mas apenas comovente...Dói-me o que sofri e recordo, não o que sofri e evoco.

Vergílio Ferreira, Manhã Submersa, Quetzal, 2008 (27ªed.)

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Limpidez lexical

Há umas semanas, na Feira do Livro de Lisboa, dei com Poemas (Lisboa, Relógio D'Água, 2003), do madrileno Juan Luis Panero (n.1942), a cinco euros. Foi um achado.

Enigmas e despedidas

Um gato que mia na noite antes de morrer,
um gato que mia, o seu histérico adeus.
Que segredo, que estranho e banal mistério
a vida nos oculta nesse grito atroz?
Como olhar depois o seu lugar na sombra,
as unhas da morte, a pele da impotência?
Tantos anos a partilhar o destino
que é agora uma cesta vazia,
derrotados arranhões, uns olhos apagados
o absurdo de tudo, enigmas e despedidas.

História da Guerra do Peloponeso






















Ao espanto curioso e por vezes divertido de Heródoto, Tucídides contrapôs uma austeridade, um rigor e uma frieza a quase toda a prova. Uma das coisa que o separa definitivamente do historiador de Halicarnasso é que, ao contrário deste, Tucídides já não é o contador de histórias que circula de terra em terra lendo os resultados das suas inquirições (significado primeiro de histórias). Tucídides torna-se um escritor quando proclama no início do seu livro: Tucídides, o ateniense, escreveu a história da guerra travada entre Atenas e Esparta, começando o seu relato exactamente no início da guerra, pois acreditava que seria um grande conflito e que seria mais importante escrever sobre este do que sobre qualquer um dos outros do passado.
É um homem que se apercebe da magnitude daquilo que está perante si: o fim da prosperidade da Atenas do séc. V, o fim do mundo como o conhecia, e é esse relato que ele pretende legar à prosperidade, é o seu ktêma eis aei, como ele próprio lhe chama. A História da Guerra do Peloponeso é a mais importante fonte que possuímos para a guerra do Peloponeso, que opôs Atenas a Esparta.
O relato é tão frio, tão desapaixonado, que às vezes parece impossível ter sido escrito por um homem que viveu e esteve envolvido numa parte dos acontecimentos que descreve (é Tucídides o estratego que não consegue travar Brásidas em Anfípolis, o que lhe valeria a expulsão de Atenas). Esta característiva de Tucídides é sobretudo visível no relato da peste que grassa em Atenas, a qual vitimou Péricles e pela qual o próprio Tucídides foi contagiado. Admitamos, um homem que narra da forma mais objectiva que se possa conceber uma doença de que sofreu e que era de tal forma terrível que, com o seu avançar, os próprios cães se recusavam a comer os cadáveres, tem de ser tido em alta conta.
Um dos passos em que Tucídides se redime de toda esta sua frieza é no passo da «Oração fúnebre de Péricles» (no final do Livro II), a exaltação última das qualidades do extraordinário mundo que foi o da Atenas do séc. V, discurso colocado na boca de Péricles, sabendo nós que Tucídides não tinha gravador para registar as palavras deste...este discurso é uma das mais notáveis peças de oratória que a Grécia nos legou. Recomendo a leitura da edição da Penguin, é uma excelente tradução bastante fiel ao grego, embora circule uma tradução em português da Sílabo, não é feita a partir da língua original. Existe uma tradução brasileira bilingue da Imfe, mas apenas dos dois primeiros livros. Comparando a relação qualidade/preço a edição da Penguin leva a palma.
Deixo-vos um excerto da «Oração Fúnebre», dedicada aos que foram mortos no primeiro ano da guerra:

(...) Para homens notáveis, toda a terra é a sua sepultura: não são apenas as inscrições nos túmulos dos seus países que nos recordam deles; também em terra estrangeira, não sob qualquer forma visível mas nos corações dos homens, onde a sua memória permanece e prospera. É vosso dever seguir o seu exemplo. Recordem-se que a felicidade depende de se ser livre, e a liberdade depende de se ser corajoso(...)
(Livro II, § 43)

save

Medeia em fuga

uma mulher
caminha pela rua acima
súbita sobe a noite pelas suas coxas
mais três passos alcançará os seus olhos
e nunca mais morrerá
afaga no peito faces de infância
e dos olhos rolam lágrimas
que afogam as faces que afaga no peito
mais dois passos alcançará os seus olhos
uma mulher
as faces no peito afogueado
não permitem que pare a noite súbita
pela rua acima do seu pescoço
mais um passo e alcançará os seus olhos
afoga no peito as faces de infância
e as lágrimas afagam a noite
que passa nos seus olhos
e nunca mais morrerá
uma mulher
Tomei-lhe então a mão em silêncio, e pareceu-me que assim ficávamos mais defendidos contra o terror, excessivo para nós, de haver distância e gente estranha a cercar-nos a vida.

Vergílio Ferreira, Manhã Submersa, Quetzal, 2008 (27ªed.)

terça-feira, 14 de julho de 2009

Angelus Novus



Sobre Angelus Novus (1920), quadro de Paul Klee que esteve em sua posse durante anos, Walter Benjamin disse: Representa um anjo que parece preparar-se para se afastar do local em que se mantém imóvel. Os seus olhos estão escancarados, a boca está aberta, as asas desfraldadas. (Sobre Arte, Técnica, Linguagem e Política)

Benjamin

O dom de atiçar através do passado a chama da esperança pertence apenas ao historiógrafo perfeitamente convencido que diante do inimigo, e no caso deste vencer, nem sequer os mortos estarão em segurança. E este inimigo não tem cessado de vencer.

- Walter Benjamin, Sobre Arte, Técnica, Linguagem e Política, Lisboa, Relógio D'Água, 1992.

(Dois passos de «Gerontion» de T.S. Eliot, 1920)

(...)
After such knowledge, what forgiveness? Think now
History has many cunning passages, contrived corridors
And issues, deceives with whispering ambitions,
Guides us by vanaties. Think now
She gives when our attention is distracted
And what she gives, gives with such supple confusions
That giving famishes the craving. Gives too late
What's not believed in, or if still believed,
In memory only, reconsidered passion. Gives too soon
Into weak hands, what's thought can be dispensed with
Till the refusal propagates a fear. Think
Neither fear nor courage saves us. Unnatural vices
Are fathered by our heroism. Virtues
Are forced upon by our impudent crimes.
These tears are shaken from the wrath-bearing three.

(...)

I would meet you upon this honestly.
I that was too near your heart was removed therefrom
To lose beauty in terror, terror in inquisition.
I have lost my passion: why should I need to keep it
Since what is kept must be adulterated?
I have lost my sight, smell, hearing, taste and touch:
How should I use them for your closer contact?

T.S. Eliot, Selected Poems: Including The Waste Land, The Hollow Men, and Ash Wednesday, Harvest/ HBJ Book, 1964.

To Kill a Mocking Bird

















É um filme de 1962, realizado por Robert Mulligan. Trata-se da adaptação da obra homónima de Harper Lee que lhe valeu o Pulitzer em 1961.
Podemos ver este filme e achar que estamos perante uma adaptação bastante linear (ainda que filmada de um ponto de vista nada convencional) de uma história que é, em parte, sobre preconceito e racismo. Este é, de facto, um dos temas que tem maior destaque ao longo do filme. Mas uma outra forma de preconceito vai ganhando espaço de modo cada vez mais inquietante - o preconceito a que pessoas miseráveis, más, mesquinhas estão inevitavelmente condenadas. E, aos poucos, revela-se a forma como este tipo de pessoas acaba por prender outras ao preconceito, ao jogar com os seus medos mais íntimos e com o conforto que só o conformismo pode trazer. O contraponto disto é a noção que algumas personagens nunca perdem do que é certo (fazer).
É um filme que vale a pena ver e, a somar aos motivos acima referidos, o notável desempenho de Gregory Peck (The Guns of Navarone, 1961), o facto de o filme ter vencido o Óscar de 62 na categoria de melhor argumento adaptado e o de Robert Duvall aparecer ainda com cabelo.














Fotografia: Édouard Boubat

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Uma fala de «Reds», 1981 (2)















[Jack Reed]Zinoviev, you don't think a man can be an individual and be true to the collective, or speak for his own country and the International at the same time, or love his wife and still be faithful to the revolution, you don't have a self to give! Would you ever be willing to give yourself to this revolution? When you separate a man from what he loves the most, you kill what's unique in him. And when you purge what's unique in him, you purge dissent.
[Zinoviev] Comrade Reed!
[Jack Reed]And when you purge dissent, you kill the revolution! Revolution is dissent!

Sex, Lies and Videotape (1989)



Após quatro ou cinco visualizações, arriscaria dizer que Sex, Lies and Videotape, de Steven Soderbergh, tem o actor que melhor faz de tarado (James Spader) e o actor que melhor faz de yupie, ou Young Urban Professional (Peter Gallagher).

Maria João Quadros "Fado Mulato"



Morando a dois metros da senhora, sentir-me-ia mal se não fizesse referência à sua arte uma única vez.

Giacomo Leopardi (já escrevi sobre isto)

Um poeta torna-se extraordinário (e isto é sempre subjectivo, é extraordinário para mim, mas pode muito bem não o ser para ti) quando, ao ser lido, rasga um limite do teu horizonte, nomeia coisas que estavam guardadas dentro do silêncio de ti e que tu nunca terias escutado se ele não lhes tivesse emprestado a sua voz.
Para mim, o paradigma disto é um poema de Leopardi: "L'Infinito". Porque "L'Infinito" é um poema escrito por um homem que viveu confinado das mais diversas formas (presa da sua debilidade física, da infinita influência do pai, entre outras coisas), e contudo, talvez por isso mesmo, foi-lhe dado entrever ou sonhar o infinito (repare-se em Io nel pensier mi fingo, v.7, que é o nomear de uma forma interior de infinito, que se contrapõe ao infinito espacial).

XII

L' Infinito


Sempre caro mi fu quest' ermo colle,
E questa siepe, che da tanta parte
Dell' ultimo orizzonte il guardo esclude.
Ma sedendo e mirando, interminati
Spazi di là da quella, e sovrumani
Silenzi, e profondissima quiete
Io nel pensier mi fingo; ove per poco
Il cor non si spaura. E come il vento
Odo stormir tra queste piante, io quello
Infinito silenzio a questa voce
Vo comparando: e mi sovvien l'eterno,
E le morte stagioni, e la presente
E viva, e il suon di lei. Così tra questa
Immensità s'annega il pensier mio:
E il naufragar m'è doce in questo mare.

Leopardi, Cantos, Albano Martins (trad.), Edições Asa, 2005.

Splendor in the Grass (1961)



Quando crescemos, não só ficamos com a certeza de que não vamos salvar o mundo, como ficamos a saber que não nos salvaremos a nós próprios.

Void

A sombra dos afogados fica sempre dentro de água a vigiá-los.

- William Faulkner, O Som e a Fúria (1929)



Na feira do livro semanal da rua Anchieta, olhei para Manuel João Vieira carregando sacos cheios de livros e senti-me pressionado: «Tens de comprar qualquer coisa. Nem que seja para fazer figura.» Peguei em O Som e a Fúria, de William Faulkner, perguntei ao alfarrabista quanto era. «Dois euros», respondeu-me. Desfolhei umas páginas e gostei. Entrei e saí do autocarro a ler. Cheguei a casa. Varei mais umas páginas. Fui para a cama. Levantei-me para beber água. Mais umas leituras. Por duas míseras moedas de euro (o preço de «qualquer coisa»), fiquei com uma grande obra.

domingo, 12 de julho de 2009

escrevo o teu nome
nas palmas das mãos
ao longo de muros
projecto sombras gestos
o voo de pássaros e corro
pertenço às noites dos rios que amas
e que cantam
que se escondem em poços
precipitando-se
em direcção ao inverno

sem regresso

toco a música que fica
mais perto da distância a minha partida
estava já nos nós dos teus dedos
nos anéis dos teus cabelos

no teu sorrir desperdiçando-se
por entre fios de música

António Franco Alexandre, As Moradas, II, 18


e no detalhe
habita um deus: partilho
essa convicção simples, dura como um seixo.
de todas as palavras, só uma irá bater
à porta do desconhecido,
entrar no coração, dar as boas-vindas.
e todas poderão ruir, e ela ficará latejando
no sangue das primeiras núpcias.

eu calculo a passagem do estorninho e da poupa, vejo
a exacta emoção da inexacta curva,
o rastro, facilmente luminoso.
a terra cresce para nós, tão rápida nos ramos,
só o vento a detém, um dia
seremos úteis e preciosos como a erva e a cabra,
e ricos de virtudes saberemos
o que fazer para morrer, não morrer, entretanto

ela lateja na núpcia do sangue, inteiramente ignorante
do grande sentido de tudo isto,
egoísta como a primeira mão
que nos tocou,
um destino leviano, sensível, pacato,
depois o sulco deixado reparte as colinas
e o pequeno piano repete
a criação do mundo.